“Se eu me calar, isso pode acontecer de novo. Por isso, estou correndo atrás para que providências sejam tomadas e para encorajar outras pessoas a fazerem o mesmo, caso também sofram racismo. Eu não quero que isso aconteça com meu filho.”
A fala é do árbitro Francis da Silva Bandeira, de 35 anos, que denunciou ter sido alvo de ofensas racistas durante a partida entre Náutico e Naviraiense, no último sábado (26), no Estádio Jacques da Luz, nas Moreninhas, em Campo Grande. A partida era válida pelas quartas de final do Campeonato Sul-Mato-Grossense Sub-15.
O caso foi registrado como injúria racial na Polícia Civil nesta terça-feira (19), e também está sendo apurado pelo TJD-MS (Tribunal de Justiça Desportiva de Mato Grosso do Sul).
As ofensas
Conforme Francis, o autor das ofensas é Cícero dos Santos, conhecido como Cicinho, que teria influência na gestão do Naviraiense.
“Eu havia acabado de marcar uma falta normal, que não resultou em cartão nem nada. E, quando fui me direcionando ao local da falta, ele começou a dizer as ofensas.”
Francis da Silva Bandeira.
Diante do ataque, o árbitro parou a partida e fez um sinal indicando que havia sido alvo de um comentário racista, como é possível ver na transmissão feita pelo canal Fair Play TV (veja no início da reportagem).
A partida ficou paralisada por quase três minutos, tempo necessário para que providências fossem tomadas. O árbitro chamou o delegado da partida e o segurança. Quando Cícero percebeu que a PM (Polícia Militar) também seria acionada, ele deixou o estádio, segundo Francis.
O árbitro explicou que tanto membros da comissão técnica quanto diversos torcedores que assistiam à partida presenciaram a fala do suspeito. A reportagem entrou em contato com Cícero, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto.

Francis vai representar criminalmente contra Cícero. O caso foi registrado na 5ª Delegacia de Polícia de Campo Grande como injúria qualificada por raça, cor, etnia ou origem.
O TJD-MS também procurou o árbitro para dar os devidos encaminhamentos após receber os documentos do jogo enviados pela FFMS (Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul), que inclusive emitiu uma nota de repúdio.
Desde que começou a atuar como árbitro, em 2019, Francis conta que nunca havia sofrido um ataque racista em campo. A situação gerou um misto de indignação e revolta, mas o árbitro buscou se acalmar para não dar um mau exemplo e para buscar justiça pelos meios legais.
“Não é a primeira vez que isso ocorre no meio esportivo, e era um jogo em que havia crianças, que presenciaram tudo — o que talvez seja ainda mais lamentável. Eu jamais esperava passar por isso, mas mantive meu profissionalismo, até porque tenho a minha carreira na arbitragem. Justamente por ter essa carreira, preferi agir da forma correta: procurar as autoridades. É um fato que não pode ser silenciado, para que outras pessoas não venham a fazer o mesmo.”
Francis da Silva Bandeira.
Nota da FFMS
“A Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS) repudia, de forma veemente, o ato de injúria racial sofrido pelo árbitro Francis da Silva Bandeira durante a partida entre Náutico e Naviraiense, realizada no último sábado (16), válida pelas quartas de final do Campeonato Sul-Mato-Grossense Sub-15 2025. O futebol deve ser um espaço de respeito, inclusão e diversidade, e não há qualquer tolerância para atitudes discriminatórias. Racismo é crime e precisa ser combatido em todas as esferas da sociedade, inclusive dentro do esporte. Toda a documentação da partida, incluindo a súmula com relato da arbitragem e relatório do delegado da partida, será encaminhada ao Tribunal de Justiça Desportiva (TJD-MS), para que as medidas cabíveis sejam tomadas com o máximo rigor. A FFMS reafirma seu compromisso em promover um futebol justo, seguro e respeitoso para todos os envolvidos, reforçando sua luta permanente contra o racismo e qualquer forma de preconceito.”
Campo Grande, 20 de agosto de 2025
Estevão Petrallás
Presidente da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul
