O nome dela era Graciane de Sousa Silva. Veio de Fortaleza, no Ceará, onde nasceu e cresceu cercada pelo afeto da família. Há seis anos, deixou sua terra natal acreditando em promessas de amor e uma vida melhor, seguindo o companheiro, José Robério Viana de Souza, até o município de Angélica, em Mato Grosso do Sul. Foi ali, no dia 25 de maio, que sua vida terminou em meio a dias de violência, sofrimento e silêncio.

A morte de Graciane não é apenas mais uma tragédia individual. É também um marco doloroso na história de Angélica, uma cidade que, desde que a lei passou a tipificar o feminicídio em 2015, nunca havia registrado um caso desse tipo. Era uma cidade onde as estatísticas ainda não tinham inscrito oficialmente o peso do feminicídio.
Até maio de 2025. Até Graciane.
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Uma cidade marcada pelo ineditismo da dor
Angélica, de pouco mais de 10 mil habitantes, é uma cidade de rotina calma, onde vizinhos se conhecem e notícias correm rápido. O município, que nunca havia aparecido nas estatísticas nacionais pela violência contra mulheres, agora carrega a lembrança amarga de ter sido palco do primeiro feminicídio de sua história recente.
O caso rompeu uma espécie de silêncio social: aquele que fazia parecer que certos crimes pertencem apenas às grandes cidades, distantes, e não aos municípios pequenos, onde todos se cruzam nas mesmas ruas.
Graciane agora é lembrada não apenas pela família, mas também pela cidade inteira. Em Angélica, sua morte se tornou símbolo de que a violência contra mulheres não escolhe território: acontece onde há desigualdade, controle e silêncio cúmplice.
O silêncio forçado
Antes de morrer, Graciane costumava ligar todos os dias para a irmã e demais familiares no Ceará. Mostrava fotos, contava detalhes da rotina. Mas, de repente, o contato cessou. Foram quatro dias sem resposta, justamente o período em que ela era brutalmente agredida dentro da casa alugada onde vivia com o companheiro.
Quando finalmente conseguiu falar com os parentes, a voz veio embargada pelo medo: dizia que iria morrer, que estava sendo agredida sem trégua. Não era um pressentimento: era uma constatação.
No hospital de Angélica, para onde foi levada ainda com vida pelo proprietário do imóvel onde morava, Graciane encontrou forças para denunciar. Contou aos médicos e enfermeiros que as agressões aconteciam desde o dia 17 de maio: chutes na barriga, nas costas, nos ombros. O hospital registrou a denúncia e encaminhou o caso à Polícia Civil.
Logo foi transferida para Nova Andradina, em estado crítico, entubada, com hemorragias e dores abdominais. Os médicos explicaram à família que as pancadas provocaram a ruptura do apêndice, agravando o quadro já delicado. No dia 25 de maio, depois de uma cirurgia de emergência, ela não resistiu.
Uma marca que se junta às estatísticas estaduais: Graciane foi a 12ª vítima de feminicídio em Mato Grosso do Sul em 2025. Mas, para os moradores da cidade, ela será sempre a primeira.
A espera por justiça
Após a morte, José Robério se apresentou espontaneamente à polícia, negou as agressões e disse que a companheira sofria de problemas psicológicos, uma versão contrariada pela família e desmentida pelos relatos da própria vítima. Ele permanece em liberdade, enquanto a Polícia Civil aguarda laudos periciais e dá seguimento às investigações.
De acordo com o delegado, o laudo necroscópico indicou a infecção como causa da morte, o que, para o profissional, indica que a morte não foi causada pelas agressões. Para esclarecer como o caso será investigado, o delegado solicitou uma perícia indireta, onde todos os prontuários médicos de Graciane serão analisados. Depois do resultado do laudo, o delegado revogou a prisão de José Robério Viana de Souza, que se apresentou na delegacia no dia seguinte à internação da esposa.
Ele segue livre.
Até quando?
O feminicídio que mudou Angélica para sempre, agora conhece o peso de ser palco de uma morte anunciada. Angélica, agora, não pode esquecer. Mato Grosso do Sul não pode esquecer. Aliás, o mundo precisa se lembrar que enquanto houver mulheres sendo mortas diariamente pelo fato de serem mulheres, a dor e tristeza vão prevalecer.
E a pergunta ecoa, mais uma vez, diante da dor de uma família, do silêncio de uma cidade e das estatísticas que crescem: “até quando?”.
🚨 Denuncie a violência contra a mulher
Violência doméstica — seja psicológica, física, moral ou verbal — é crime e precisa ser combatida. Saiba como denunciar:
Emergência: se a agressão estiver acontecendo, ligue 190 imediatamente;
Central de denúncias: disque 180. O atendimento é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas por dia, todos os dias. Também é possível denunciar via WhatsApp: (61) 9610-0180;
Presencial: procure a delegacia mais próxima ou acione a Polícia Militar pelo 190;
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