O Agosto Lilás chega ao fim, mas o tema de debate dessa campanha não pode ser esquecido: o combate à violência contra a mulher. Os números em nosso país são alarmantes e Mato Grosso e Mato Grosso do Sul lideram o ranking de feminicídios no Brasil.
Não há motivo para comemoração. O que existe é a urgência de agir, todos os dias do ano, para mudar essa realidade. Uma das formas de transformação está diante de nós: a comunicação.

Quando a fala perpetua a violência
Frases repetidas no dia a dia, muitas vezes usadas “de brincadeira” ou sem reflexão, carregam preconceito e reforçam estereótipos que alimentam a violência de gênero. O pior: muitas delas já soam naturais, como se fossem verdades absolutas.
Um texto que publiquei aqui nesta coluna traz uma lista com 10 falas preconceituosas contra mulheres. Relembre alguns exemplos que precisam ser riscados do vocabulário:
- “Ela conquistou sucesso mesmo sendo mulher”
Por trás dessa fala está a ideia preconceituosa de que mulheres não têm competência natural para conquistar sucesso. Isso não é elogio, é machismo disfarçado.
- “Pare de chorar como uma mulherzinha!”
Essa frase dita a meninos ensina que expressar sentimentos é sinal de fraqueza e que ser mulher é sinônimo de ser inferior. Reforça dois preconceitos ao mesmo tempo.
- “Usa roupa provocante e depois reclama de ser assediada”
Aqui está a clássica tentativa de culpar a vítima. O respeito não depende de roupas. O problema está no agressor.
- “O que ela fez para o marido ter batido nela?”
Nada justifica violência doméstica. Essa pergunta desvia o foco do criminoso para a vítima e contribui para a impunidade.
- “Cadê a mãe dessa criança mal-educada?”
A educação dos filhos é responsabilidade de pai e mãe. Jogar o peso apenas sobre a mulher reforça desigualdades históricas.
Violência também na política
Nem mulheres em cargos de liderança estão imunes. Um estudo feito em 2024 pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) revelou que mais de 60% das prefeitas e vices afirmam já ter sofrido algum tipo de violência política de gênero durante a campanha ou mandato. Foram ouvidas 224 prefeitas e 210 vice-prefeitas.
A prefeita de Pedra Preta (MT), Iraci Ferreira de Souza, por exemplo, há poucos dias foi alvo de ofensas verbais por parte de um vereador. O caso foi denunciado como prática de violência política de gênero. Discordar faz parte da democracia, mas ofender alguém por ser mulher é violência.
Comunicação como ferramenta de mudança
Se palavras têm poder para ferir, também têm força para construir respeito. Por isso, precisamos refletir:
- Que tipo de frases estamos repetindo no nosso dia a dia?
- O que ensinamos aos nossos filhos e filhas sobre respeito e igualdade?
- Tratamos nossos filhos e filhas com igualdade de direitos e deveres dentro de casa?
- Como podemos usar a comunicação para fortalecer, e não diminuir, as mulheres?
O combate à violência contra a mulher exige leis, políticas públicas e punição aos agressores. Também exige algo que todos nós podemos praticar: falar com respeito, desconstruir preconceitos e ensinar novas formas de convivência. Porque cada palavra conta. E, juntas, elas podem construir uma consciência de menos agressões e mais respeito entre homens e mulheres.