A Polícia Civil descarta a hipótese de que uma manada de porcos-do-mato, popularmente conhecidos como queixadas, tenha impedido o pouso da aeronave que caiu, deixando quatro mortos, na noite de terça-feira (23), na Fazenda Barra Mansa, no Pantanal de Aquidauana. A suspeita inicial foi divulgada pelo Corpo de Bombeiros. No entanto, com base nas análises preliminares feitas no local, não há indícios de que esse tenha sido o motivo da arremetida que levou à queda, conforme informou a delegada Ana Cláudia Medina, titular do DRACCO (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado).

“Especificamente na primeira tentativa de pouso dessa aeronave já não havia animais na pista, houve o cuidado do pessoal de apoio da região de percorrer a pista, então, esses animais não estão relacionados a essa arremetida na pista. Foi uma condição irregular que levou à tentativa de pouso, e o piloto optou — o que não é comum, mas é aceitável na aviação — por arremeter para fazer uma correção. Isso não esteve relacionado à presença de animais na pista.”
Delegada Ana Cláudia Medina.
Medina confirmou que a aeronave não tinha autorização para fazer o transporte remunerado de passageiros, conforme apontado pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil). A produtora do documentário que estava sendo gravado com o arquiteto confirmou que o voo seria pago. Além disso, segundo a delegada, o avião também não tinha permissão para pousar no horário em que ocorreu a queda.
“Não era uma aeronave autorizada para transporte remunerado de passageiros, porém, estava sendo usada com esse fim. Estamos apurando as condições dessa contratação, já que as testemunhas informam que o voo fazia parte do pacote da dinâmica do evento preparado para o documentário. Há ainda a questão do horário: o pouso ocorreu após o pôr do sol, que regula a operação nesta pista específica. O pouso foi após as 18h, sendo que naquele dia a autorização ia até as 17h39. Esses são fatos que estão sendo levados em consideração na apuração da dinâmica do sinistro.”
Delegada Ana Cláudia Medina.
A causa do acidente
Segundo a delegada, ainda é cedo para apontar a causa do acidente. A conclusão depende da análise de uma série de fatores, incluindo as condições da aeronave e do clima. A delegacia tem 30 dias para concluir o inquérito, mas esse prazo pode ser prorrogado, se necessário. O CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) também está conduzindo uma investigação paralela para apurar as circunstâncias da queda e eventuais responsabilidades.

“Quando apuramos sinistros aéreos, é de suma importância observar três pilares — como já faz o CENIPA na prevenção de acidentes aeronáuticos: o meio, a aeronave e as condições do comandante. Tudo isso precisa ser analisado detalhadamente. Portanto, é muito prematuro apontar uma causa neste momento.”
Delegada Ana Cláudia Medina.
A delegada acrescenta:
“A investigação sobre a causa depende de diversas diligências, inclusive do nosso trabalho no local, agora que as vítimas já foram retiradas. Precisamos fazer a leitura das condições dos destroços, dos equipamentos, dos instrumentos, para montar a dinâmica da ocorrência e entender qual foi a causa determinante do sinistro.”
Delegada Ana Cláudia Medina.
O relato das testemunhas também será crucial no processo, conforme explica a delegada. Antes da queda, foram realizados diversos pousos e decolagens na pista onde o avião deveria ter pousado com sucesso. Todas essas operações foram supervisionadas.
“As testemunhas contribuíram bastante, detalhando em que condições se deu o voo. Foi um dia inteiro com pequenos pousos e decolagens na região pantaneira. Duas testemunhas estavam em terra e descreveram toda a dinâmica. Uma delas presenciou a primeira tentativa de pouso da aeronave; depois, não a localizaram mais e só viram a fumaça. Tudo isso é importante. Precisamos verificar as condições, os horários e a performance utilizada para compreender a causa.”
Delegada Ana Cláudia Medina.
A equipes do DRACCO (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado) permanecem na região aguardando a chegada de equipe da CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), que era prevista para esta quinta-feira (24), mas foi adiada para esta sexta-feira (25).
Os peritos já realizaram os exames de necropsia nos corpos do piloto e dos dois cineastas. Apenas o corpo do arquiteto chinês, Kongjian Yu, ainda não foi periciado. Por conta de uma tradição cultural da China, o procedimento só pode ser feito com a presença da família, que deverá vir ao Brasil.
