Leis que salvam: o papel da ALMT na proteção das mulheres
Em Mato Grosso, leis criadas pela Assembleia Legislativa têm se tornado aliadas na proteção de mulheres vítimas de violência doméstica. Uma delas é a Lei nº 11.374/2020, que instituiu o aplicativo SOS Mulher MT, ferramenta que oferece um botão do pânico para acionar rapidamente a Polícia Militar em casos de emergência. O recurso já é utilizado por centenas de mulheres em situação de risco e representa um dos mecanismos mais eficazes entre as medidas protetivas do Estado.
“
No começo eram gritos e socos na mesa. Depois vieram empurrões, puxões de cabelo, tapas, até virar espancamento.
Foto: Arquivo pessoal
A universitária Iarla da Silva Alves é uma das mulheres que contam com o auxílio do aplicativo. Ela sobreviveu a cinco anos de agressões cometidas pelo ex-companheiro e hoje vive sob vigilância constante, com o botão do pânico sempre por perto.
“A violência física no começo, quando a gente tinha uma discussão, ele se alterava, gritava, dava soco na mesa ou na parede. Pouco tempo depois, isso começou a ser um empurrão, um puxão de cabelo, depois um tapa, até virar espancamento, o que houve da última vez”, relatou.
SOS Mulher MT
Botão do pânico salva vidas
Com apenas um toque, mulheres com medida protetiva acionam socorro imediato. O alerta envia a localização e conecta a vítima à rede de segurança pública.
ALERTA
📞 190 (PM)📞 197 (Polícia Civil)📱 App SOS Mulher MT
Depois de denunciar o agressor, Iarla obteve medida protetiva, mas o homem chegou a ser preso por violar a ordem judicial. Hoje, ela tenta reconstruir a vida e reforça a importância de outras mulheres denunciarem.
“Ele me mandava cartas, tentava contato e sempre cogitava reatar. Meu desejo é que as mulheres apoiem umas às outras. Muitas não têm coragem de denunciar, com medo do que pode acontecer depois”, disse.
Série de normas em favor das mulheres foram aprovadas pela Assembleia Legislativa nas últimas décadas – Foto: Ângelo Varela/ALMT
Mato Grosso reúne um dos conjuntos mais amplos de leis do país voltados à proteção da mulher. Levantamento da Procuradoria da Mulher da Assembleia Legislativa aponta 61 normas sancionadas nas últimas três décadas. As medidas vão de campanhas educativas e patrulhas especializadas a aplicativos de emergência e programas de enfrentamento ao assédio.
Parte dessas leis já saiu do papel e começa a transformar a rotina de quem vive sob ameaça e outras ainda aguardam regulamentação para que a proteção se torne real em todo o estado.
Entre as medidas estão delegacias 24 horas, patrulhas especializadas, campanhas educativas e programas de geração de emprego e renda para mulheres vítimas de violência.
Lei nº 12.456/2024, Autoria: Dep. Thiago Silva (MDB)
A PATRULHA MARIA DA PENHA — EM NÚMEROS
Do plenário às ruas, o que a lei já entrega na vida real.
mulheres atendidas
2.970
vítimas de violência acompanhadas em MT
visitas solidárias
5.524
realizadas às vítimas em 2025
prisões em flagrante
124
por descumprimento de medidas protetivas
municípios com atuação
98
distribuídos em 41 núcleos regionais
Já a Lei nº 12.456/2024 criou o Programa Patrulha Maria da Penha, responsável por fiscalizar o cumprimento de medidas protetivas e acompanhar vítimas em situação de risco, garantindo que o amparo legal se traduza em proteção real no dia a dia.
Nos últimos anos, as propostas avançaram em novas frentes, do combate ao assédio à punição financeira de agressores. A Lei nº 12.487/2024 proíbe a concessão de incentivos fiscais e de crédito público a pessoas condenadas por feminicídio ou crimes contra mulheres, crianças e adolescentes, ampliando o alcance das punições previstas na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006).
Para verificar o estágio de implementação dessas normas, a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa solicitou à Casa Civil informações sobre o andamento das leis, ações efetivas, programas criados e indicadores de resultado.
As leis que moldaram a política de proteção às mulheres em MT
Três décadas de normas aprovadas pela Assembleia: do conselho e das campanhas às patrulhas, apps e sanções econômicas. Arraste para ver tudo.
ConscientizaçãoEstruturaçãoEfetividade
1992
Lei nº 5.968/1992 — Penalidades por discriminação
Autor: Dep. Lincoln Saggin. Penalidades a estabelecimentos que discriminem mulheres.
1997
Decreto nº 20.905/1997 — Casa de Assistência e Acolhimento
Autor: SEAJ. Autoriza a criação da Casa de Assistência e Acolhimento da Mulher.
1998
Lei nº 7.085/1998 — Dia de Combate à Pornografia Infantil e Abrigo
Autor: Dep. Nacional de Jesus. Institui o dia estadual e prevê abrigo a vítimas e filhos.
2006
Lei nº 8.452/2006 — Conscientização e fim da agressão
Autor: Dep. Sebastião Rezende. Dia estadual de conscientização e fim da agressão contra a mulher.
2010
Lei nº 9.278/2010 — Mobilização pelo fim da violência
Autora: Dep. Percila Mendes. Dia Estadual de Mobilização pelo fim da violência contra a mulher.
2012
Lei nº 9.802/2012 — Divulgação do disque-denúncia
Autor: Dep. Silval Barbosa. Determina divulgação do disque-denúncia nacional.
2014
Resolução nº 3.003/2014 — SAC Mulher-Viva MT
Autora: Dep. Janete Sair. Serviço de auxílio e combate à violência no âmbito da ALMT.
2014
Lei nº 10.095/2014 — Política de Acolhimento
Autor: Dep. Walter Rabelo. Diretrizes para acolhimento às mulheres em situação de violência.
2015
Lei nº 10.272/2015 — Veda patrocínio ofensivo
Autor: Dep. Alexandre Cesar. Veda uso de recursos públicos para artistas com apologia à violência.
2015
Lei nº 10.344/2015 — Preparação estudantil
Autor: Dep. Wilson Santos. Ações educativas para prevenção à exploração sexual e crimes.
2016
Lei nº 10.349/2016 — Multa ao agressor
Autor: Dep. Wilson Santos. Mecanismo de multa ao agressor em violência doméstica.
2016
Lei nº 10.471/2016 — Semana Maria da Penha nas Escolas
Autor: Dep. Gilmar Fabris. Semana educativa sobre a Lei Maria da Penha.
2017
Lei nº 10.500/2017 — Atendimento e matrícula prioritária
Autora: Dep. Janaína Riva. Atendimento multidisciplinar e prioridade de matrícula/transferência a filhos(as) das vítimas.
2017
Lei nº 10.506/2017 — Programa de atenção às vítimas
Autor: Dep. Cel. Taborelli. Programa de atenção às mulheres vítimas.
2017
Lei nº 10.508/2017 — Qualificação de mulheres vítimas
Autor: Dep. Eduardo Botelho. Qualificação profissional a mulheres vítimas de violência.
2017
Lei nº 10.616/2017 — Informativo eletrônico
Autor: Dep. Oscar Bezerra. Publicação eletrônica com informações de combate à violência e assédio em eventos esportivos.
2018
Lei nº 10.631/2018 — Roteiro Anual Socioeconômico da Mulher
Autor: Dep. Dilmar Dal Bosco. Cria o Roteiro Anual Socioeconômico da Mulher.
2018
Lei nº 10.760/2018 — Combate ao machismo nas escolas
Autora: Dep. Janaína Riva. Programa permanente na rede estadual.
2018
Lei nº 10.784/2018 — Capacitação continuada
Autora: Dep. Janaína Riva. Formação de mulheres para o mercado de trabalho.
2018
Lei nº 10.792/2018 — Maria da Penha vai à Escola
Autor: Dep. Sebastião Rezende. Sensibilização e divulgação da lei no ambiente escolar.
2019
Lei nº 10.853/2019 — Conscientização no transporte coletivo
Autor: Dep. João Neves. Programa contra assédio/abuso sexual no transporte.
2019
Lei nº 10.887/2019 — Mobilização pela honra
Autor: Dep. Guilherme Maluf. Dia Estadual de Mobilização pelo fim da violência.
2019
Lei nº 10.915/2019 — Coordenadoria de Políticas para a Mulher
Autor: Dep. Sebastião Rezende. Prevenção/combate e criação de coordenadoria.
2019
Lei nº 10.923/2019 — Patrocínio responsável
Autor: Dep. Wilson Santos. Diretrizes para patrocínio público sem apologia à violência.
2019
Lei nº 11.062/2019 — Pronto atendimento policial
Autor: Dep. Thiago Silva. Atendimento a vítimas em unidades policiais.
2020
Lei nº 11.070/2020 — Aplicativo SOS Vida Mulher
Autor: Dep. Dr. Gimenez. Cria app estadual de proteção e socorro.
2020
Lei nº 11.072/2020 — Política Estadual de Gênero
Autor: Dep. Sebastião Rezende. Política de gênero e enfrentamento à violência.
2020
Lei nº 11.099/2020 — Medidas em bares e casas noturnas
Autor: Dep. Dilmar Dal Bosco. Estabelecimentos devem adotar medidas de auxílio.
2020
Lei nº 11.100/2020 — Rede de apoio em calamidade
Autor: Dep. Max Russi. Atendimento a mulheres e filhos durante calamidade.
2020
Lei nº 11.189/2020 — (ementa não legível)
Autor: Dep. Dr. Eugênio. Ementa não visível no documento de origem enviado.
2020
Lei nº 11.210/2020 — Denúncia por WhatsApp
Autor: Dep. Delegado Claudinei. Serviço permanente de denúncias via WhatsApp.
2020
Lei nº 11.232/2020 — Divulgação de índices de violência
Autor: Dep. Valmir Moretto. Requisitos e divulgação trimestral.
2020
Lei nº 11.261/2020 — Programa Cuidado pela Paz
Autor: Dep. Thiago Silva. Prevenção e promoção de paz.
2021
Lei nº 11.365/2021 — Código de Sinalização de Alerta
Autor: Dep. Max Russi. Código de alerta a riscos e violência sexual.
2021
Lei nº 11.411/2021 — Dia do Combate ao Silêncio
Autor: Dep. Wilson Santos. Dia estadual contra o silêncio sobre violência.
2021
Lei nº 11.547/2021 — Prioridade habitacional
Autor: Dep. Valdir Barranco. Prioridade em programas habitacionais.
2021
Lei nº 11.584/2021 — Reeducação do agressor
Autor: Dep. Dr. João. Programa de reeducação do agressor.
2021
Lei nº 11.590/2021 — Medidas de combate e prevenção
Autor: Dep. Dr. João. Ajustes nas normas de enfrentamento.
2021
Lei nº 11.617/2021 — Assistência psicológica
Autor: Dep. Dr. Eugênio. Assistência psicológica gratuita a mulheres na administração pública.
2021
Lei nº 11.624/2021 — Condomínios devem comunicar agressões
Autores: Dep. Wilson Santos e Dep. Valdir Barranco. Comunicação obrigatória por condomínios.
2021
Lei nº 11.662/2021 — Programa de Prevenção ao Assédio Sexual (data)
Autor: Dep. Dilmar Dal Bosco. Institui data estadual dedicada ao programa.
2022
Resolução nº 7.230/2022 — Procuradoria Especial da Mulher (ALMT)
Autor: Mesa Diretora. Cria a Procuradoria Especial da Mulher.
2022
Lei nº 11.707/2022 — Ajustes na política de prevenção
Autora: Dep. Janaína Riva. Altera normas de acompanhamento e prevenção.
2022
Lei nº 11.757/2022 — Diretrizes da Política Pública para a Mulher
Autor: Dep. Sebastião Rezende. Diretrizes e ações.
2022
Lei nº 11.787/2022 — Programa de atenção e prevenção
Autor: Dep. Dr. Gimenez. Diretrizes para atenção e prevenção.
2022
Lei nº 11.795/2022 — Guia de serviços de atendimento
Autor: Dep. Max Russi. Guia com serviços e rede de atendimento.
2022
Lei nº 11.801/2022 — Dia de Combate ao Feminicídio
Autor: Dep. Thiago Silva. Institui data estadual.
2022
Lei nº 11.810/2022 — Programa de conscientização
Autora: Dep. Janaína Riva. Programa de conscientização (denominação conforme doc. de origem).
2023
Lei nº 12.052/2023 — Política Pública para a Mulher (Executivo)
Autor: Poder Executivo. Diretrizes e ações; altera Lei nº 10.933/2017.
2023
Lei nº 12.063/2023 — Código Sinal de Vida
Autor: Dep. Thiago Araújo. Código de pedido de ajuda.
2023
Lei nº 12.092/2023 — Campanha de proteção
Autora: Dep. Sheila Klener. Campanha de proteção e enfrentamento.
2024
Lei nº 12.456/2024 — Programa Patrulha Maria da Penha
Autor: Dep. Thiago Silva. Fiscalização de medidas protetivas e acompanhamento de vítimas.
2024
Lei nº 12.472/2024 — Cadastro de condenados
Autor: Dep. Valdir Barranco. Cadastro de condenados por feminicídio ou violência doméstica e familiar.
2024
Lei nº 12.479/2024 — Temas de combate em eventos culturais
Autor: Dep. Valdir Barranco. Inclusão de temas de enfrentamento em eventos públicos.
2024
Lei nº 12.479/2024 — Estabelecimentos seguros
Autor: Dep. Eduardo Botelho. Cadastro de bares/restaurantes com protocolos antiassédio.
2024
Lei nº 12.890/2024 — Campanha em estádios e arenas
Autor: Dep. Wilson Santos. Campanha permanente no esporte.
2025
Lei nº 12.897/2025 — Medidas no esporte
Autor: Dep. Elizeu Nascimento. Combate à violência contra a mulher e crimes sexuais no esporte.
2025
Lei nº 13.008/2025 — Veda incentivos a condenados
Autores: Dep. João Paulo e Dep. Paulinho Paulinho. Restringe incentivos/financiamentos a condenados por feminicídio, crimes contra crianças/adolescentes e trabalho escravo.
Dica: arraste para o lado para ver toda a linha do tempo.
O presidente da ALMT, deputado Max Russi (PSB), destacou que o Legislativo cumpre seu papel ao criar leis, mas cabe ao Executivo transformá-las em ação.
“São leis antigas, datadas de vários anos. Inclusive, há uma de minha autoria que prevê que o agressor arque com o custo do dano causado à sociedade. Ele agride uma mulher, ela vai ao hospital e quem paga é o Estado. Isso não é justo. A lei precisa ser regulamentada e cumprida”, afirmou.
A lei precisa ser regulamentada e cumprida. Não é justo que a sociedade arque com o custo do dano causado por quem agride uma mulher.
Dep. Max Russi (PSB) Presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso Foto: ALMT/Assessoria
Russi reforçou que a função da Assembleia é legislar e fiscalizar, mas a efetividade depende da execução pelo governo. “As leis foram aprovadas e sancionadas. Agora, cabe ao governo colocá-las em prática”, completou.
As medidas sancionadas abrangem um período de 1992 a 2025. As primeiras leis, ainda nos anos 1990, focavam em campanhas educativas e na criação de conselhos. Após a aprovação da Lei Maria da Penha, em 2006, o Estado passou a desenvolver normas que estruturam serviços de atendimento, abrigo e capacitação de servidores.
💔 ENTRE A LEI E A VIDA Cada número expõe o quanto a proteção ainda precisa chegar primeiro
De janeiro a agosto de 2025, 35 mulheres foram mortas por feminicídio em Mato Grosso, segundo dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT). No mesmo período do ano passado, foram 26 casos, um aumento de 35%. O contraste entre o acervo legislativo e a persistência da violência mostra que o desafio agora é transformar o que foi aprovado em ações contínuas e estruturadas.
Violência de gênero — MT
Aumento de feminicídios em Mato Grosso
+35%
26
→
35
Período comparado: janeiro a agosto de 2024 e 2025
Fontes: SESP-MT (feminicídios jan–ago/2024–2025); Procuradoria da Mulher/ALMT (levantamento legislativo).
A aprovação de leis é o ponto de partida de uma cadeia que envolve diferentes órgãos. Sem portarias, convênios e equipes treinadas, a norma não se torna realidade. É o caso das delegacias 24 horas, previstas em lei, mas ainda restritas a poucas cidades. Situação semelhante ocorre com a Patrulha Maria da Penha, criada para garantir a segurança de mulheres sob medida protetiva, mas que ainda não tem cobertura estadual.
⚖️LEIS E OMISSÃO Janaína Riva cobra regulamentação e prevenção nas políticas de proteção às mulheres
A deputada estadual Janaina Riva (MDB), procuradora especial da Mulher da Assembleia, destacou o papel da Casa na criação de leis e estruturas de apoio às mulheres do Estado. Ela lembrou que a Assembleia implantou a Procuradoria da Mulher, responsável por acompanhar tanto lideranças políticas, como vereadoras e prefeitas, quanto mulheres em situação de vulnerabilidade.
Janaína Riva fala sobre procuradoria da mulher e leis aprovadas
Segundo Janaina, o órgão atua em casos de violência física, psicológica e patrimonial, oferecendo acolhimento inicial e encaminhamento a serviços especializados. “Essa família dessa mulher também encontra respaldo na Assembleia. Até mesmo o primeiro atendimento psicológico é feito pelos nossos profissionais, que depois encaminham a vítima para acompanhamento no Estado”, explicou.
Janaina também criticou a falta de investimento em políticas públicas de prevenção e acolhimento. “Hoje não existe acolhimento adequado nem prevenção em Mato Grosso. O governo não faz um trabalho preventivo e não destina orçamento suficiente para isso. Em Várzea Grande, por exemplo, não há delegacia nem Politec. Crianças abusadas precisam vir de madrugada para Cuiabá”, disse.
“Criamos essas leis para garantir dignidade e segurança às mulheres, mas elas não saíram do papel. Vamos buscar a Justiça para cobrar sua implementação.”
— Deputada Janaina Riva (MDB)
Entre as leis já aprovadas, ela citou a que garante à mulher o direito de ter acompanhante em consultas e exames médicos, criada após casos de violência sexual em ambiente hospitalar, e a lei do parto adequado, voltada à prevenção da violência obstétrica. Ambas ainda aguardam regulamentação.
“Nós criamos essas leis para garantir dignidade e segurança às mulheres, mas elas não saíram do papel. Vamos buscar a Justiça para cobrar sua implementação”, destacou.
A deputada defende a implantação de Procuradorias da Mulher em todas as câmaras municipais, com estrutura para acolher e orientar vítimas de violência, além de promover ações educativas.
🕯️ CÂMARA TEMÁTICA DE ENFRENTAMENTO AO FEMINICÍDIO Assembleia mantém atenção permanente às falhas do Estado e aos riscos que persistem
Para a deputada Edna Sampaio (PT), suplente no exercício do mandato e membro da Câmara Setorial Temática de Enfrentamento ao Feminicídio, instalada em outubro de 2025 na ALMT, o papel da Assembleia vai além de aprovar novas leis. É também o de dar visibilidade ao problema e fiscalizar sua execução.
“A primeira coisa que considerei importante foi trazer o debate do feminicídio para o centro do poder Legislativo. Foi essencial para que autoridades e a sociedade olhassem para esse problema e se mobilizassem. As leis são fundamentais, mas só têm efeito se forem acompanhadas de fiscalização, orçamento e políticas públicas estruturadas”, afirma.
As leis são fundamentais, mas só têm efeito se forem acompanhadas de fiscalização, orçamento e políticas públicas estruturadas.
— Deputada Edna Sampaio (PT)
A parlamentar também é autora de projetos voltados à prevenção e à promoção da cidadania da mulher, como o que obriga o governo estadual a apresentar anualmente um plano de políticas de prevenção à violência e promoção da cidadania das mulheres, vinculado ao orçamento público. Segundo ela, esse tipo de planejamento é essencial para que o Estado defina metas, indicadores e recursos destinados ao enfrentamento da desigualdade de gênero.
“O Estado precisa dizer quanto pretende reduzir a taxa de feminicídios e quais ações serão adotadas em áreas como saúde, educação, segurança e assistência social. Só assim teremos uma política de enfrentamento efetiva e mensurável”, reforça Edna.
A suplente Sheila Klener (PSDB), que ocupou a cadeira por 60 dias na Assembleia Legislativa, avalia que a existência de dezenas de leis não tem sido suficiente para frear os casos de feminicídio em Mato Grosso.
Durante o mandato, Sheila propôs a lei que institui o Agosto Lilás no serviço público estadual e apresentou requerimento cobrando do governo relatórios sobre ações de enfrentamento à violência contra a mulher. Ela também participa da Câmara Temática de Enfrentamento ao Feminicídio, criada para investigar as causas da violência e propor soluções.
“As legislações muitas vezes ficam no papel, sem regulamentação ou fiscalização. É preciso investigar as causas dessa epidemia e atacar o problema na base. A educação deve ser o eixo central, ensinando desde cedo o respeito às mulheres e a igualdade de gênero.”
— Deputada Sheila Klener (PSDB)
🕊️ QUANDO A LEI CHEGA TARDE DEMAIS Histórias que expõem o preço da demora em transformar proteção em realidade
O caso de Vitória Camily Carvalho Silva, de 22 anos, reforça a urgência de tornar a lei presença efetiva. A jovem foi assassinada a tiros pelo ex-namorado, Helder Lopes de Araújo, de 23 anos, em 15 de fevereiro de 2025, durante uma confraternização em Várzea Grande. O autor foi preso dias depois, em Rondonópolis, com o irmão que o ajudou na fuga.
Tinha uma semana que ela tinha voltado do Rio de Janeiro, onde foi tirar o visto para sair do Brasil. Ele já vinha ameaçando há tempo, e ela queria sair. Conseguiu tudo, mas não teve tempo de ir embora.
Foto: Arquivo pessoal
Segundo a irmã da vítima, Bruna Gabrielly Carvalho Silva, Vitória havia tirado o visto poucos dias antes, na tentativa de deixar o país e escapar das ameaças.
“Tinha uma semana que ela tinha voltado do Rio de Janeiro, onde foi tirar o visto para sair do Brasil. Ele já vinha ameaçando há tempo, e ela queria sair. Estava levando em banho-maria, tentando agradá-lo até o visto sair. Conseguiu tudo, mas não teve tempo de ir embora”, contou.
⚖️ FEMINICÍDIO E PREVENÇÃO Mudança na lei aumentou a pena e reforçou a importância da denúncia, alerta a delegada Judá Marcondes
A Lei do Feminicídio foi criada em 2015 como qualificadora do crime de homicídio. No ano passado, houve uma alteração e o feminicídio passou a ser crime autônomo. Com isso, a pena máxima subiu de 30 para 40 anos, além das qualificadoras previstas em lei.
A titular da Delegacia da Mulher de Cuiabá, delegada Judá Marcondes, explica que a legislação foi criada para proteger as mulheres, mas muitas vítimas não acreditam que o companheiro seja capaz de cometer um crime e romantizam sinais como ciúme excessivo e comportamento controlador. “Por isso, acabam não denunciando o agressor”, pontua.
A delegada reforça que a vítima não precisa sair de casa para solicitar medida protetiva: o pedido pode ser feito pela Delegacia Virtual, com registro online do boletim de ocorrência.
⚖️ VIGILÂNCIA DAS LEIS Defensora pública Rosana Leite fala sobre a importância de garantir que as leis em defesa das mulheres saiam do papel e se tornem realidade
A defensora pública Rosana Leite, coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher (Nudem) da Defensoria Pública de Mato Grosso, reforça que a criação de leis e políticas públicas em defesa dos direitos das mulheres precisa vir acompanhada de vigilância e participação social.
“Não basta que os direitos existam. Nós, mulheres, precisamos vigiar se essas normas estão sendo aplicadas, se realmente são uma realidade em Mato Grosso. A informação é essencial para que as mulheres conheçam seus direitos e possam exigir sua efetividade”, afirma.
Segundo ela, muitas normas ainda aguardam regulamentação, enquanto outras já têm aplicabilidade imediata, o que exige ação tanto do poder público quanto da sociedade civil.
“Cabe ao Legislativo e ao Executivo pensar na efetividade dessas normas, e cabe à sociedade acompanhar se estão sendo cumpridas. É preciso divulgar essas leis e envolver o movimento de mulheres no debate, principalmente em espaços ainda muito masculinos, como a Assembleia Legislativa e as Câmaras Municipais”, ressalta Rosana.
Rede de apoio que transforma
ONG Lírios: acolhimento psicológico e educação para romper o ciclo da violência
Atuação em Várzea Grande e região com grupos de apoio, atendimento a vítimas e palestras em escolas.
Além das políticas públicas, entidades da sociedade civil têm desempenhado papel essencial no acolhimento e na prevenção da violência. Em Várzea Grande, a ONG Lírios atua no atendimento psicológico de mulheres, crianças e adolescentes vítimas de agressões, e desenvolve ações educativas em escolas.
A psicóloga Bruna Luíza Procópio, que integra a equipe, explica que o impacto emocional mais grave é a perda da autonomia e da força de decisão da mulher diante da violência.
Segundo Bruna, o processo de rompimento do ciclo da violência começa com a denúncia e o pedido de medida protetiva, seguidos do atendimento psicológico. Na instituição, o projeto Plantando Lírios leva palestras a escolas, ensinando crianças e adolescentes a reconhecer os cinco tipos de violência doméstica: física, sexual, patrimonial, moral e psicológica.
“Muitas meninas de 9, 10 ou até 5 anos choram durante as palestras. São crianças que já vivenciam algum tipo de abuso e, ao ouvir o tema, reconhecem o que estão passando”, relata.
A ONG também mantém o grupo Conversar, onde mulheres atendidas se apoiam mutuamente. Para Bruna, a escuta e o acolhimento são caminhos de reconstrução. “A terapia permite atualizar memórias dolorosas, ressignificar padrões e sustentar a decisão de romper o ciclo. É preciso acreditar que existe um lado bom da vida e que toda mulher merece amor e cuidado”, conclui.
Feminicídio em MT: taxa mais alta do país
🔺 47 feminicídios em 2024 em Mato Grosso (1 a mais que em 2023).
📊 Taxa de 2,5 por 100 mil mulheres, a maior do país (empate com MS).
🎯 47% dos homicídios de mulheres foram feminicídios (em 2023, era 44,7%).
🛑 Apenas 1 vítima tinha medida protetiva ativa em 2024 (eram 8 em 2023).
🇧🇷 Brasil: 1.492 feminicídios em 2024 (+1,2%) — taxa nacional subiu de 1,4 para 1,5 por 100 mil.
📈 Proporção de feminicídios nos homicídios femininos: de 37,5% (2023) para 40,3% (2024).
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Apesar dos avanços em políticas públicas, Mato Grosso segue entre os estados com maior incidência de feminicídios no país. Em 2024, foram 47 mulheres assassinadas por motivo de gênero, uma a mais que no ano anterior, o que manteve a taxa estadual em 2,5 casos por 100 mil mulheres, empatada com Mato Grosso do Sul. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, quase metade dos homicídios femininos no estado tiveram motivação de gênero, e apenas uma vítima contava com medida protetiva ativa no momento do crime.
Canais de denúncia e proteção
Onde buscar ajuda e denunciar a violência contra a mulher
Telefones, aplicativos e órgãos públicos que atuam na proteção das vítimas em Mato Grosso.
📞 Telefones para denúncia
Disque 180 — Central de Atendimento à Mulher. Atendimento 24h, gratuito e anônimo. Recebe denúncias, orienta e encaminha para a rede de proteção.
Disque 190 — Polícia Militar. Para situações de emergência ou flagrante.
Disque 197 — Polícia Civil. Para denúncias e informações complementares sobre casos em investigação.
🏢 Atendimento presencial
Delegacias Especializadas de Defesa da Mulher (DEDM): Unidades em Cuiabá, Várzea Grande e outros municípios. Endereços no site da Polícia Civil de Mato Grosso.
Delegacias de Polícia Civil: Em cidades sem DEDM, qualquer delegacia pode registrar boletim de ocorrência por violência doméstica.
📱 Aplicativos
Proteja Mulher (MT): aplicativo da Polícia Judiciária Civil que permite solicitar ajuda e acompanhar medidas protetivas. Disponível para Android e iOS.
SOS Mulher: aplicativo nacional que permite acionamento rápido da PM em casos de risco iminente (em alguns estados).
🤝 Outros canais de apoio
Ministério Público de Mato Grosso: recebe denúncias e acompanha casos de violência doméstica. Site: www.mpmt.mp.br
Defensoria Pública de Mato Grosso: oferece apoio jurídico gratuito às vítimas. Site: www.defensoria.mt.def.br