A conta também não fechou do ponto de vista financeiro

Outro fator estrutural foi a distância entre a lógica do mercado de capitais e a organização – Foto: Pixabay
O mercado de crédito agrícola passou por uma fase de forte expansão nos últimos anos, impulsionada por expectativas otimistas sobre preços, margens e capacidade de pagamento do produtor rural. Segundo análise de Alexsandro Rebello Bonatto, especialista em Crédito & Trade Finance, esse movimento foi marcado menos por falha de diagnóstico e mais por um erro relevante na calibração do risco envolvido.
Entre 2021 e 2022, o ambiente de commodities valorizadas estimulou o crescimento acelerado de instrumentos como FIAGROs e CRAs, com projeções baseadas no pico do ciclo. A virada ocorreu a partir do fim de 2022, quando a queda nos preços de soja e milho, combinada à manutenção de custos elevados, reduziu drasticamente as margens. Nesse cenário, a inadimplência do crédito rural saltou de 0,59% em janeiro de 2023 para 11,4% em outubro de 2025, evidenciando o descompasso entre expectativa e realidade.
Outro fator estrutural foi a distância entre a lógica do mercado de capitais e a organização do campo brasileiro, majoritariamente familiar. A exigência de governança corporativa, dados padronizados e compliance rígido encontrou limitações em um universo no qual mais de 99% dos produtores não possuem estruturas compatíveis. A migração do CPF para o CNPJ, estimulada como solução, acabou desincentivada por aumento de carga tributária e custos operacionais, criando barreiras adicionais de transparência.
A conta também não fechou do ponto de vista financeiro. Com a redução do crédito subsidiado, produtores recorreram a linhas de mercado com juros nominais em torno de 15% ao ano e custo efetivo total que podia alcançar 30% ou 40%, cenário incompatível com um setor de margens estreitas e alto risco climático. A pressão se intensificou com o avanço das recuperações judiciais, que mostraram lentidão na execução de garantias e frustração da liquidez esperada.
O ajuste em curso aponta para maior seletividade, foco em governança efetiva, fortalecimento de garantias fundiárias e estruturas com mecanismos de proteção de perdas. O crédito agrícola entra em uma fase mais madura, na qual compreender as particularidades do campo passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do financiamento.

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