Empresários negam ter mandado matar advogado; PM fica em silêncio

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César Jorge Sechi e Julinere Goulart Bentos, acusados de serem os mandantes do homicídios do advogado Renato Nery

César Jorge Sechi e Julinere Goulart Bentos, acusados de serem os mandantes do homicídios do advogado Renato Nery

ANGÉLICA CALLEJAS

DA REDAÇÃO

O casal de empresários de Primavera do Leste, Julinere Bentos Goulart e César Jorge Sechi, foi ouvido em audiência de instrução na quarta-feira (4), no Fórum de Cuiabá, e negou ter encomendado o assassinato do advogado Renato Nery, ocorrido em julho de 2024.

 

A audiência foi conduzida pelo juiz João Bosco Soares da Silva, da 14ª Vara Criminal de Cuiabá, tendo início às 8h30 e sendo finalizada por volta das 15h30. 

 

Também depuseram como réus os policiais militares Jackson Pereira Barbosa e Ícaro Nathan Santos Ferreira, acusados de intermediar o homicídio e entregar a pistola utilizada no crime, respectivamente. Todos os quatro réus estão presos.

 

A instrução começou na segunda-feira (2), quando foram ouvidos os delegados Bruno Abreu e Caio Albuquerque, da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), responsáveis pela investigação, além de outras testemunhas. A previsão inicial era de que os depoimentos se estendessem até hoje (5), mas os atos foram concluídos ontem.

 

Conforme apurado pelo MidiaNews, os empresários responderam apenas às perguntas formuladas por suas defesas. Julinere relatou que, à época dos fatos, já estava separada de César e mantinha tratativas para formalização de um acordo com a vítima, do qual teria valores expressivos a receber, estimados em aproximadamente R$ 25 milhões.

 

Ainda conforme a versão apresentada, o acordo foi posteriormente firmado com a família de Renato Nery, que teria dado continuidade às negociações iniciadas ainda em vida pelo advogado.

 

César alegou que, separado de Julinere, já residia em Juara antes de 2019 e não mantinha contato frequente com a ex-esposa. Ele também afirmou que não teria interesse direto na disputa envolvendo a vítima. Foi destacado ainda que o nome dele teria sido pouco mencionado ao longo dos três dias de audiência.

  

Jackson optou por permanecer em silêncio, sob o argumento de ausência de acesso integral às provas produzidas na investigação.

 

Já Ícaro reafirmou a versão apresentada na fase policial e negou envolvimento na entrega da arma utilizada no crime. Na ocasião, a defesa do PM informou ter juntado aos autos documento com a escala de serviço do policial, que, segundo a tese apresentada, demonstraria a impossibilidade de contato dele, no período do crime, com outros investigados mencionados no processo.

 

Questionamentos sobre provas

 

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renato nery

O advogado Renato Nery, que foi assassinado em Cuiabá

Durante a audiência, a defesa de um dos réus levantou questionamentos sobre a existência de escuta ambiental em um escritório de advocacia em Cuiabá que foi alvo de busca e apreensão no início das investigações, durante a segunda fase da Operação Office Crime.

 

Segundo apurado pela reportagem, a informação consta em autos correlatos que tramitam sob sigilo no sistema do Processo Judicial Eletrônico (PJe), destinados a medidas cautelares como interceptações telefônicas e quebras de sigilo.

 

Foi informado ainda que parte desses autos só teria sido disponibilizada recentemente às defesas e que não houve acesso ao conteúdo das interceptações, às extrações de dados telefônicos nem aos materiais apreendidos em mais de 40 aparelhos eletrônicos.

 

Ainda conforme a fonte, a escuta ambiental teria sido instalada em 2024 e o desinteresse pela medida ocorrido apenas no segundo semestre de 2025.

 

Com o encerramento da instrução, foi aberto prazo de cinco dias para que as partes apresentem requerimentos complementares, etapa que antecede as alegações finais.

  

Após essa etapa, o processo seguirá para sentença, ocasião em que o juiz decidirá se os réus serão pronunciados ao Tribunal do Júri.

 

Outros réus

 

Em agosto de 2025, o juiz Francisco Ney Gaíva, da 14ª Vara Criminal de Cuiabá, determinou que o policial militar Heron Teixeira Pena Vieira, que confessou ter arquitetado o crime, e o caseiro Alex Roberto de Queiroz Silva, também réu confesso pela execução de Nery, sejam submetidos a júri popular. 

 

O PM foi detido no dia 7 de março de 2025, enquanto Alex Roberto foi detido na chácara de Heron, em Várzea Grande, no dia 6 de março de 2025, na Operação Office Crime – A Outra Face, da DHPP. Eles seguem presos.

 

A investigação

 

Segundo a investigação da DHPP, o casal de empresários travava uma batalha judicial por anos com o advogado Renato Nery, envolvendo reintegração de posse de terras avaliadas em R$ 30 milhões, no Município de Novo São Joaquim.

 

Parte da área o advogado recebeu como pagamento de honorários advocatícios de ação em que atuou por mais de 30 anos. 

 

Meses antes de ser assassinado, Nery havia ganhado uma ação no processo que bloqueou o arrendamento de mais de R$ 2 milhões da propriedade, o que teria sido o estopim para seu assassinato.

 

O crime  

 

Nery foi assassinado aos 72 anos, após um disparo que o atingiu na cabeça, no dia 5 de julho de 2024, em frente ao seu escritório, na Avenida Fernando Corrêa, em Cuiabá.

 

Câmeras de segurança flagraram o momento em que ele foi baleado, logo após desembarcar de seu veículo, em frente à escadaria que daria acesso ao seu escritório.

 

Socorrido com vida, ele foi levado às pressas para o Complexo Hospitalar Jardim Cuiabá, onde passou por cirurgias, mas não resistiu e morreu no dia seguinte.

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