Mais da metade dos adolescentes que cumprem medidas socioeducativas em Mato Grosso possuem indícios de ligação com facções criminosas. Os dados foram apresentados nessa terça-feira (19) pelo promotor de Justiça João Batista de Oliveira, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), durante o 1º Encontro dos Direitos e Garantias Fundamentais e o 5º Encontro Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Segundo o levantamento, dos 240 adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas no estado, 132 têm possíveis vínculos com organizações criminosas, representando o percentual de 55%. Para o promotor, o número mostra o avanço das facções sobre jovens em situação de vulnerabilidade social.
Fatores sociais e riscos
Durante a palestra, João Batista afirmou que fatores como evasão escolar, pobreza extrema, famílias desestruturadas, uso de drogas e a fragilidade da rede de proteção facilitam o aliciamento de crianças e adolescentes pelo crime organizado.
“Famílias com problemas, as crianças são mais expostas, a rede de proteção não consegue acolhê-las e a organização criminosa acaba fazendo esse papel de acolher essas crianças, mas, na realidade, não acolhem. Elas são vítimas de atos violentos. Falta de esportes, falta de contraturno, escolas distantes do local onde as crianças residem, e aí temos uma falha do Estado”, explica o promotor.

Ele também destacou que as facções acabam ocupando espaços deixados pelo poder público, oferecendo sensação de pertencimento, assistência e até atividades de lazer para atrair os jovens.
“Distribuição de cestas básicas, brinquedos, festas comunitárias é algo em que o Estado falha na oferta. Eles também promovem segurança e lazer para a comunidade, pregando uma falsa ideia de que, aderindo às condutas das facções, tem-se uma segurança efetiva promovida por eles”, acrescenta.
Violência atinge os mais jovens a nível nacional
Para dimensionar a gravidade do problema, foram apresentados dados nacionais do Atlas da Violência. Em 2023, o Brasil registrou 45.747 homicídios, sendo que 47,8% envolveram jovens entre 15 e 29 anos. No mesmo período, 21.856 jovens foram mortos, o que corresponde a uma média de 60 vítimas por dia.
O promotor também destacou o perfil das vítimas da violência letal, evidenciando desigualdades estruturais. Dados mostram que 82,9% das vítimas entre 0 e 19 anos são negras, com predominância de adolescentes do sexo masculino entre 15 e 19 anos.
Fala do promotor
Famílias com problemas, as crianças são mais expostas, a rede de proteção não consegue acolhê-las e a organização criminosa acaba fazendo esse papel de acolher essas crianças, mas, na realidade, não acolhem. Elas são vítimas de atos violentos. Falta de esportes, falta de contraturno, escolas distantes do local onde as crianças residem, e aí temos uma falha do Estado.
Facções “formam” criminosos e produzem vítimas em MT
O cenário da violência juvenil em Mato Grosso também foi apontado como preocupante. Conforme os dados apresentados, o estado registrou crescimento de quase 39% nas mortes de jovens entre 15 e 25 anos, com média de 22 mortes por mês.
Além disso, o promotor enfatizou que os jovens estão sendo “batizados” nas facções cada vez mais cedo e são cooptados para cometer crimes, enquanto outros acabam sendo vítimas do “tribunal do crime” e “salves”. Segundo ele, cidades do interior têm tido aumento desses tipos de crimes.
Ele ainda relembrou casos de violência em escolas em que adolescentes agridem e torturam uma colega com pedaços de pau, uma jovem morta por “trocar” de facção e os “julgamentos” por meio de videochamadas com líderes de facções antes de cometer execuções por jovens que fazem símbolos com as mãos e postam fotos em rede social. Assista abaixo a transmissão do evento:
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