Marqueteiro de Pivetta revela tática: “Campanha pouco roteirizada”

Yasmin Silva/MidiaNews

O consultor político Humberto Frederico, coordenador de comunicação da campanha de Otaviano Pivetta

O consultor político Humberto Frederico, coordenador de comunicação da campanha de Otaviano Pivetta

GIORDANO TOMASELLI

DA REDAÇÃO

O consultor político Humberto Frederico, responsável pela comunicação da campanha do governador reeleito Otaviano Pivetta (Republicanos), revelou que uma das principais estratégias adotadas foi reduzir ao máximo os roteiros e apostar na espontaneidade do candidato para transmitir autenticidade ao eleitorado.

 

Foi uma campanha muito pouco roteirizada, não foi entregue quase nada para o candidato falar

“O que a gente transmitiu foi a verdade e a humanidade dele. É um cara muito humano, muito sincero, e chegou um momento que a gente entendeu que essa sinceridade que ele tem precisava ser mais valorizada dentro da comunicação”, afirmou Humberto ao MidiaNews.

 

“Foi uma campanha muito pouco roteirizada, não foi entregue quase nada para o candidato falar, foi uma campanha onde a gente pegou muito do que ele estava fazendo para poder trazer para as pessoas”, completou.

 

Segundo o estrategista, uma parcela significativa do eleitorado de direita em Mato Grosso identificou em Pivetta valores e princípios alinhados às suas convicções políticas. Essa identificação, conforme avaliou, foi decisiva para impulsionar a vitória do governador ainda no primeiro turno, com mais de 60% dos votos, resultado que surpreendeu parte dos analistas políticos na reta final da disputa.

 

“A gente percebe, por exemplo, que o eleitor de direita, em uma boa parte, entendeu o Pivetta como um cara com os grandes valores da direita nessa eleição. Fez questão de votar nele e, esse voto talvez valesse por dois, porque era o voto para o Pivetta e, teoricamente, um a menos para o concorrente dele”, avaliou.

 

Na entrevista, Humberto também analisou os bastidores da campanha eleitoral, o papel da comunicação na conquista de votos, a resistência de políticos tradicionais às redes sociais, a judicialização das disputas, a relevância da imprensa tradicional e as estratégias das campanhas presidenciais de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

 

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews – Quais foram os principais desafios da última campanha eleitoral e quais novidades surgiram?

 

Humberto Frederico – Olha, o maior desafio hoje de uma campanha política é transformar um candidato desconhecido em uma pessoa mais conhecida para todo o eleitorado.

 

É um cara muito humano, sincero, e chegou um momento em que a gente entendeu que essa sinceridade que ele tem precisava ser mais valorizada

O Otaviano Pivetta, apesar de estar há quase oito anos no governo com o Mauro Mendes, sempre fez questão de ser um vice com um perfil mais discreto. Então, o desconhecimento junto à população era grande.

 

A sociedade hoje está descrente, então você tem que chamar a atenção. Vimos ações da Meta e do TSE tentando segurar o volume de informações, tanto que aquela avalanche de WhatsApp das eleições anteriores não existiu tanto. Com isso, os gastos de impulsionamento foram astronômicos, justamente para o conteúdo ir mais longe. Então, esses foram alguns dos desafios.

 

E, com o Pivetta, o que a gente transmitiu foi a verdade e a humanidade dele. É um cara muito humano, muito sincero, e chegou um momento em que a gente entendeu que essa sinceridade que ele tem precisava ser mais valorizada dentro da comunicação.

 

Foi uma campanha muito pouco roteirizada, não foi entregue quase nada para o candidato falar, foi uma campanha em que a gente pegou muito do que ele estava fazendo para poder trazer para as pessoas.

 

MidiaNews – Pivetta começou atrás nas pesquisas e terminou o primeiro turno com mais de 60% dos votos. Houve algum momento de virada ou o resultado surpreendeu?

 

Humberto Frederico – Nossas pesquisas mostravam o crescimento dele, mas até a última semana éramos um pouco céticos sobre fechar no primeiro turno.

 

Nos últimos 10 dias, nitidamente percebemos o grande volume de crescimento. Foi na reta final, nos debates e nas redes sociais, que as pessoas pararam para comparar e entenderam que ele era o melhor gestor para continuar o legado desses últimos oito anos, que já tiveram avanços com o Mauro Mendes e com ele também.

 

Percebemos uma migração expressiva de votos de emedebistas e alinhamentos importantes, como em Sinop, onde lideranças locais prepararam um grande evento que consolidou os apoios. O eleitor de direita também entendeu o Pivetta como um cara com os seus valores.

 

MidiaNews – Foi necessário mudar a estratégia da campanha ao longo da disputa?

 

Humberto Frederico – A gente manteve basicamente a mesma estratégia. A campanha foi planejada desde o início, e uma coisa que nos orgulha muito foi ter mantido basicamente o mesmo planejamento.

 

A gente viu que o planejamento feito semana a semana era o correto. Na última semana, o que aconteceu é que a gente percebeu, por exemplo, uma migração de votos do José Medeiros indo para o Pivetta, e acredito que a votação expressiva do Medeiros tem a ver um pouco com a migração dos votos de Pivetta e Mendes para ele.

 

Houve duas reuniões na última semana. Na verdade, Sinop e Rondonópolis prepararam para os dois um grande evento, e os dois estiveram lá presentes, e acho que isso também contribuiu bastante. A gente percebe, por exemplo, que o eleitor de direita entendeu o Pivetta como um cara com os grandes valores da direita dentro dessa eleição.

 

Talvez esse voto valesse por dois porque, teoricamente, é um a menos para o concorrente dele.

 

MidiaNews – A campanha eleitoral foi marcada por uma forte judicialização. Essa tendência deve se intensificar nas próximas eleições?

 

Humberto Frederico – Vai ser cada vez mais judicializada. Hoje você consegue colocar um conteúdo por minuto na rede social.

 

A falta de limite de postagens em plataformas como Facebook, Instagram e TikTok faz com que você tenha muitos conteúdos e, consequentemente, mais acionamentos na Justiça.

 

 

MidiaNews – O Pivetta adotou o termo governador do fazimento. Foi uma estratégia de vocês ou veio dele?

 

Humberto Frederico – Esse termo fazimento ele trouxe de Lucas do Rio Verde e é um termo que eu, por exemplo, sempre amei. Algumas pessoas da equipe pediam para tirar o termo porque achavam que ninguém entenderia, mas eu acho fantástico. É uma marca.

 

Esse termo fazimento ele trouxe de Lucas do Rio Verde e é um termo que eu sempre amei. É uma marca

Quando você fala de fazimento, todo mundo vai lembrar de Pivetta. E o que é o fazimento? Fazimento é o ato de fazer; ele é um cara que, quando precisa resolver algo sobre a água, por exemplo, vai atrás naquele momento.

 

Então é um conceito importado do próprio candidato, e a gente estimulou ele a ser ele mesmo.

 

MidiaNews – Pivetta tem um perfil mais tímido e é visto por muitos como alguém sem carisma. Isso poderia prejudicá-lo na campanha? Como vocês trabalharam essa questão?

 

Humberto Frederico – Ele tem esse perfil, mas tudo o que ele faz é genuinamente verdadeiro. O Pivetta não falou nada nessa eleição em que ele não acreditasse naquilo que falava.

 

Por isso, eu acho que, quando as pessoas o viam falando, elas compravam aquela verdade do Pivetta. E é isso que a gente o estimulou a ser cada vez mais: seja você mesmo. A gente não vai moldar você para ser algo que você não é.

 

Quando você fala que quer resolver a água, não é por causa da eleição. Você quer resolver a água porque entende que é um absurdo uma cidade do lado de Cuiabá, a segunda maior cidade de Mato Grosso, não ter resolvido a água até hoje.

 

Nos debates, por exemplo, a gente pouco moldava o Pivetta para ir a um debate. A gente conversava sobre regras, mas o sentido da fala dele era sobre o que ele pensava sobre todas as situações.

 

 

MidiaNews – Essa identificação com o eleitorado de direita funcionou bem. O que faltou para o adversário principal, Wellington Fagundes que era do PL, conseguir esse eleitorado?

 

Humberto Frederico – A gente via que o eleitor de direita queria apoiar o Pivetta. Identificava nele um cara com os valores de direita.

 

Yasmin Silva/MidiaNews

Humberto Frederico

Humberto Frederico ressaltou equipe mato-grossense ao seu lado: “campanha horizontal”

 

Apoios como o do prefeito de Rondonópolis, de Primavera do Leste, de Várzea Grande, do Thiago Boava, você mandava uma mensagem para o estado de Mato Grosso de que o Pivetta, no fim das contas, era quem representava essa direita.

 

Não gosto de avaliar a campanha dos outros, mas para mostrar o candidato como ele é, você não pode tentar transformá-lo 100% no que ele não é.

 

Se você enxerga um candidato falando algo que é totalmente contrário ao que ele fez durante toda a sua história, isso não transmite verdade para o eleitor.

 

MidiaNews – E no cenário nacional, vimos que o presidente Lula começou a campanha no segundo turno focando nas redes sociais. A classe política ainda subestima as redes?

 

Humberto Frederico – O político tradicional tem mais dificuldade para assimilar a importância dessa nova comunicação. E eu passo por essas dificuldades várias vezes com clientes nossos.

 

Depois que o candidato toma um susto, aí ele para e pergunta o que tem que fazer?. E a equipe vai em busca de ajustar. O político precisa entender que o mundo mudou e que ele precisa se adaptar a essa nova fase.

 

A eleição deu uma aula: os candidatos proporcionais que perderam o mandato este ano basicamente não tinham um conceito digital bem colocado.

 

Não dá para pegar o programa eleitoral de TV, que tem outra linguagem, e apenas subir para a internet. Ele é uma mídia feita para ser consumida na televisão, a internet é outra linguagem.

 

Tivemos campanhas sensacionais focadas no digital. O Thiago, por exemplo, eleito deputado e morador de Campo Novo do Parecis, investiu basicamente em comunicação digital segmentada. Fez a campanha mais barata da história de Mato Grosso.

 

Não dá mais pra você fazer política sem fazer comunicação, sem criar um conceito, uma marca para sua gestão. Isso é necessário, se você não fizer isso, você vai sofrer muito lá nas urnas.

 

 

MidiaNews – E o peso da imprensa tradicional?

 

Humberto Frederico – A melhor maneira que você tem de ficar conhecido é através da imprensa. Não adianta nada eu fazer um bom investimento dentro da rede digital do candidato, mas eu vou ficar só na bolha dele.

 

O político tradicional tem mais dificuldade para assimilar a importância dessa nova comunicação. E eu passo por essas dificuldades

A imprensa é a maneira mais fácil de você conversar com a sociedade, com o eleitor.

 

MidiaNews – Você já recusou trabalhar em campanhas por não acreditar no candidato, independentemente do desempenho dele nas pesquisas?

 

Humberto Frederico – Com certeza. Eu preciso acreditar no candidato. Eu já recusei campanha, já deixei de trabalhar com cliente porque, em algum momento, achei que não acreditava.

 

Você não precisa ser apaixonado, mas precisa acreditar minimamente, ter um brilho nos olhos e achar que a pessoa merece, senão eu não consigo.

Em 2020, por exemplo, fiz a campanha do Flávio Frical em Várzea Grande. Ele começou com 4% e terminou com 40%, perdendo por poucos votos para o Kalil Baracat. Uma campanha maravilhosa.

 

Os três pilares são: acreditar no candidato, ter estrutura mínima de campanha para fazer um bom trabalho e ser ouvido pelo candidato. Se ele faz tudo ao contrário, não tem por que continuar.

 

Tem muito político que ainda não acredita na comunicação, que acha que o assistencialismo durante o mandato, que o poder financeiro, vai elegê-lo de qualquer maneira.

 

MidiaNews – O que diferenciou a campanha de Pivetta das demais em que você já trabalhou?

 

Humberto Frederico – Essa foi uma campanha diferente na sua maneira organizacional. Foi uma campanha mais horizontal e menos vertical. Junto comigo, por exemplo, estavam o Álvaro de Carvalho, o Bruno Bini e o João Barros, e isso achei muito inteligente do nosso candidato Otaviano Pivetta.

 

Ele pegou bons profissionais em cada área e colocou. Nós pensávamos juntos a campanha. Acho isso de uma inteligência muito grande e a nova forma de se fazer marketing político no Brasil. Não tem mais aquela figura do supermarqueteiro que a gente tinha com o Duda Mendonça, uma pessoa mandando na campanha inteira.

 

A tendência hoje das campanhas é justamente ter essa divisão um pouco maior dentro da campanha. E é uma estratégia que superdeu certo.

 

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