DA REDAÇÃO
O governador reeleito Otaviano Pivetta (Republicanos) começará o novo mandato, em janeiro de 2027, com as contas públicas em situação confortável, mas terá o desafio de transformar o crescimento econômico de Mato Grosso em mais renda para a população.
A próxima etapa da gestão terá como prioridades ampliar a industrialização, criar empregos com salários maiores e preparar o Estado para a perda de receitas prevista com a reforma tributária.
É isso que nós buscamos: um Estado eficiente, que custe menos e que promova o interesse do cidadão acima de tudo
A Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz) projeta encerrar 2026 com aproximadamente R$ 9 bilhões em disponibilidade financeira bruta. Para 2027, o projeto da Lei Orçamentária Anual (LOA), ainda em tramitação na Assembleia Legislativa, prevê orçamento de R$ 46,1 bilhões, dos quais R$ 5,6 bilhões estão destinados a investimentos.
O secretário de Fazenda, Fábio Pimenta, afirmou em entrevista ao MidiaNews que o Estado reúne condições para manter o ritmo de obras dos últimos anos.
“O Estado de Mato Grosso encontra-se em uma situação fiscal extremamente sólida, sustentável”, disse.
“Entendemos que o caixa estará em uma situação plenamente confortável, organizada, sendo suficiente para manter o funcionamento da máquina pública, fazer frente ao mesmo ritmo e nível de investimentos observados nos anos anteriores”, afirmou.
A situação, porém, não significa que todo o dinheiro em caixa esteja livre para novas despesas.
Parte dos recursos tem destinação específica, enquanto salários, contratos e manutenção dos serviços públicos consomem grande parcela do orçamento.
Controle de gastos
Mato Grosso acumulou R$ 34 bilhões em investimentos nos últimos oito anos, segundo a Sefaz, uma média superior a R$ 4 bilhões anuais. Para preservar essa capacidade, Pivetta determinou um diagnóstico da estrutura administrativa, com revisão de contratos, despesas e custos operacionais.
A preocupação é que o crescimento dos gastos obrigatórios reduza o espaço para obras e novos projetos. Na proposta orçamentária de 2027, R$ 25,3 bilhões estão previstos para pessoal e encargos, enquanto outros R$ 14 bilhões devem ser destinados às despesas correntes, como manutenção da máquina pública.
Entendemos que o caixa estará em uma situação plenamente confortável, organizada, sendo suficiente para manter o funcionamento da máquina pública
“É fundamental conter eventual elevação que possa se descontrolar desses custos operacionais para não inflar a máquina pública, não asfixiar a capacidade do Estado de realizar investimentos em obras e serviços”, afirmou Pimenta.
O secretário também alertou para a folha de pagamento, que inclui reajustes, progressões funcionais e novas contratações. O aumento dessas despesas permanentes, de acordo com ele, pode comprometer a capacidade de investimento nos anos seguintes.
Pivetta também defende a redução dos custos da administração estadual como parte da estratégia para manter a capacidade de investimento e melhorar os serviços públicos. Em entrevista ao MidiaNews, afirmou que pretende construir um Estado mais eficiente e próximo das necessidades da população.
“É isso que nós buscamos: um Estado eficiente, que custe menos e que promova o interesse do cidadão acima de tudo”, disse.
Embora a dívida consolidada tenha caído para cerca de R$ 3,9 bilhões, equivalente a 10% da receita corrente líquida, o governo também precisará avaliar com cautela novos financiamentos.
Uma operação de crédito de R$ 1,5 bilhão está em tramitação na Assembleia, com previsão de R$ 300 milhões para hospitais e R$ 1,2 bilhão para infraestrutura.
Reforma tributária acende alerta
O maior desafio fiscal para os próximos anos, segundo Pimenta, será a reforma tributária. A transição começa em 2029 e prevê a substituição gradual do ICMS e do ISS pelo novo sistema de tributação sobre o consumo, com conclusão em 2032.
O secretário afirmou que estudos da Sefaz e do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) apontam uma possível perda de aproximadamente R$ 10 bilhões anuais ao final da transição. A estimativa considera a arrecadação média de ICMS e do Fethab diante da projeção de receita do novo tributo.
A mudança preocupa porque Mato Grosso tem grande produção e população relativamente pequena. Com a transferência da tributação para o destino do consumo, o Estado pode perder parte da vantagem arrecadatória associada à produção de mercadorias.
“Por isso, acho que o desafio será manter uma máquina pública administrativa leve, enxuta, otimizando cada centavo do gasto público para preservar a nossa capacidade de investimento em desenvolvimento econômico e social”, afirmou.
Mayke Toscano/Secom-MT
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O secretário de Estado de Fazenda, Fábio Pimenta, alertou para os prejuízos da Reforma Tributária
A perda projetada não ocorrerá integralmente em 2029, mas a transição exigirá planejamento desde os primeiros anos do mandato.
O Estado também terá menos autonomia para utilizar incentivos fiscais como ferramenta de atração de empresas, o que reforça a necessidade de diversificar a economia e ampliar a atividade industrial.
Industrialização é aposta para aumentar renda
A secretária de Desenvolvimento Econômico, Mayran Beckman, afirmou que o próximo ciclo de governo terá como prioridade agregar valor à produção mato-grossense. A proposta é ampliar a transformação de grãos e proteínas em produtos industrializados dentro do próprio Estado.
“Nós fornecemos grãos, nós fornecemos proteína animal, mas é importante que nós possamos agora agregar valor àquilo que nós produzimos aqui. Isso só vai ser possível através da industrialização”, afirmou.
Segundo Beckman, o governo já negocia com empresas interessadas em se instalar em Mato Grosso, enquanto a InvestMT atua na atração de investimentos. A secretária citou avanços em projetos industriais e a necessidade de melhorar logística, energia e condições para receber novos empreendimentos.
Pivetta também apontou a infraestrutura como uma das bases para ampliar a industrialização. Entre as prioridades do novo mandato, citou a construção de estradas e pontes, a conclusão da primeira ferrovia estadual do país e a duplicação da BR-163.
“Precisamos manter um ambiente atrativo e com segurança jurídica para as empresas”, afirmou o governador à reportagem.
Pivetta avalia que o Estado avançou na transformação da produção agrícola e pretende fortalecer cadeias industriais ligadas ao agronegócio, especialmente as de biocombustíveis e proteínas. A meta é ampliar o processamento de matérias-primas em Mato Grosso, em vez de depender apenas da comercialização de produtos primários.
“Quando olho para o horizonte de dez anos, vejo que seremos o Estado do biocombustível, do etanol, do biodiesel, da energia solar e também da energia hidrelétrica”, disse.
A aposta também tem impacto nas contas públicas. Segundo Pimenta, entre 2018 e 2025, o PIB nominal do Estado passou de R$ 137 bilhões para uma projeção de R$ 306 bilhões, alta de aproximadamente 123%. No mesmo período, a arrecadação de ICMS avançou de R$ 10 bilhões para R$ 25,7 bilhões, crescimento de 151%.
Christiano Antonucci/Secom-MT
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A secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mayran Beckman, falou da importância de aumentar rendas das famílias
O secretário atribui parte desse desempenho à industrialização. Como exemplo, citou o setor de etanol, que deve alcançar produção de 8,4 bilhões de litros e gera cerca de R$ 3 bilhões anuais em ICMS, segundo os dados apresentados por ele.
A transformação da matéria-prima dentro do Estado pode ampliar a arrecadação, criar empregos e reduzir a dependência da exportação de produtos primários. Para isso, porém, será necessário superar gargalos logísticos e garantir mão de obra qualificada.
“Mato Grosso, então, deixa gradativamente de apenas exportar sua produção de grãos in natura para industrializá-la internamente, gerando valor, gerando renda, gerando arrecadação, empregos para a nossa população. Então, reflete a boa aplicação e gestão da política tributária e, principalmente, da política de incentivos fiscais”, analisou Pimenta.
Desemprego baixo, mas renda ainda é desafio
Mato Grosso registrou taxa de desemprego de 2,2% em 2025. No segundo trimestre de 2026, o nível de ocupação chegou a 67,3%, com aproximadamente 2 milhões de pessoas ocupadas. O rendimento médio real habitual do trabalho foi de R$ 4.137.
Apesar dos indicadores positivos, o rendimento domiciliar per capita ficou em R$ 2.335 mensais em 2025. Os números medem coisas diferentes: o rendimento médio considera o que as pessoas recebem pelo trabalho, enquanto o domiciliar per capita divide a renda total da casa pelo número de moradores, incluindo quem não tem rendimento próprio.
A diferença ajuda a mostrar que a média salarial não representa necessariamente a realidade de todas as famílias. O desafio, portanto, não é apenas criar vagas, mas ampliar a remuneração e fazer com que os ganhos econômicos sejam percebidos por uma parcela maior da população.
Pivetta afirmou que pretende direcionar a atuação do Estado para melhorar as condições de vida nos municípios, com mais oportunidades de emprego e renda, espaços públicos e opções de lazer. Para ele, a força econômica do Estado precisa se refletir no cotidiano da população.
Esse é o nosso desafio governamental agora para os próximos quatro anos, que todos dentro da sua realidade percebam a melhora real dentro do Estado
“Um Estado servidor, menos custoso, descentralizado”, resumiu o governador ao falar sobre o resultado que pretende entregar ao fim dos próximos quatro anos.
Segundo ele, a parceria com prefeitos e prefeitas será fundamental para levar melhorias às cidades mato-grossenses.
“Porque, melhorando a vida das pessoas nas suas cidades, tendo lazer, bons espaços públicos para frequentar, bom emprego e renda, melhora tudo. Melhora a saúde, melhora a segurança”, afirmou.
A avaliação está alinhada à preocupação da Secretaria de Desenvolvimento Econômico com a remuneração dos trabalhadores. Para Beckman, o desafio é fazer com que a expansão econômica se traduza em ganhos concretos para as famílias.
“Esse é o nosso desafio governamental agora para os próximos quatro anos, que todos dentro da sua realidade percebam a melhora real dentro do Estado de Mato Grosso”, explicou Beckman.
A secretária também ponderou que o poder de compra depende do custo de vida e das condições de crédito, não apenas do salário.
Juros elevados encarecem financiamentos e dificultam a expansão de negócios, enquanto o preço dos alimentos e da moradia pesa no orçamento das famílias.
“Então, o poder de compra não tem a ver só com a questão do salário, porque se não a pessoa nem percebe essa melhoria no final das contas. E é justamente isso que o nosso governador eleito, ele quer que as pessoas tenham mais condição financeira para não só sobreviver, mas viverem adequadamente com dignidade no nosso Estado”, disse.
“A taxa de desemprego pode até se manter, mas os salários, o que nós queremos é que eles sejam maiores e melhores”, disse.
Prioridades para 2027
Além da infraestrutura, Pimenta apontou a habitação como uma das prioridades de investimento do novo mandato, ao lado de saúde e ensino técnico. A proposta orçamentária de 2027 prevê ampliação de recursos para a área habitacional.
Pivetta confirmou que saúde, educação, infraestrutura e segurança serão os quatro pilares da nova gestão. Na saúde, citou a ampliação da rede pública, com hospitais em construção e novos projetos, além do reforço à atenção básica nos municípios.
Vamos acelerar ainda mais para levar prosperidade para todos os lugares de Mato Grosso
O governador afirmou que já estão em funcionamento a Tabela SUS Mato Grosso e o Fila Zero 3.0, iniciativas voltadas à realização de procedimentos e à redução da espera por cirurgias, exames e diagnósticos. Também mencionou a construção de novas unidades hospitalares e a previsão de um pronto-socorro em Várzea Grande.
Na educação, a prioridade será o ensino técnico profissionalizante para os jovens. Em infraestrutura, o governo pretende avançar na construção de estradas, pontes e casas populares.
Na segurança, Pivetta apontou a fronteira como um dos principais gargalos e afirmou que pretende articular ações com o Governo Federal, além de manter o combate às facções criminosas com as forças estaduais.
“Avançamos muito nessas áreas, mas ainda temos muito o que fazer e vamos acelerar ainda mais para levar prosperidade para todos os lugares de Mato Grosso”, afirmou.
A escolha das prioridades coloca em evidência o desafio de conciliar grandes obras, serviços públicos e demandas sociais com um orçamento limitado por despesas obrigatórias. Os R$ 5,6 bilhões previstos para investimentos ainda dependem da tramitação da LOA e da execução dos projetos ao longo do ano.
O cenário mostra que Pivetta terá condições fiscais para iniciar o novo mandato, mas precisará equilibrar investimentos, controle de gastos e preparação para a reforma tributária.
A principal tarefa será aproveitar a força econômica de Mato Grosso para ampliar a industrialização, melhorar a remuneração dos trabalhadores e fazer com que o crescimento se traduza em melhores condições de vida.
