A escassez de fósforo para a produção de fertilizantes levou a indústria nacional a quase paralisar atividades. A afirmação foi feita, nesta quinta-feira (5/11), pelo country manager da Mosaic no Brasil, Eduardo Monteiro. Ele avaliou que esse problema ainda está pouco dimensionado, dada a sua gravidade.
Monteiro destacou que a indústria nacional já projeta os menores estoques de passagem de sua história. As guerras no leste europeu e no Oriente Médio levaram a uma desestruturação logística que praticamente inviabilizou, por exemplo, a produção de fosfatados.
“A importação de enxofre cai 50%. Isso é um indicativo de que a produção vai cair mais de 50%. Precisamos entender como minimizar o risco da escassez de fósforo no Brasil, que ainda é pouco dimensionada. A indústria está com atividades paralisadas”, afirmou, em painel de debates durante o Vozes do Agro, evento promovido por Globo Rural e Valor Econômico, em São Paulo.
Monteiro avaliou que a indústria brasileira – altamente dependente de importações – não deve atingir a autossuficiência na produção, mas precisa de apoio e suporte para reduzir a demanda por insumos de fora do país.
“A indústria precisa de apoio para investimentos, em questões regulatórias para concessões minerais. Temos uma questão tributária que nos tira competitividade”, disse o executivo.
Ele avaliou que o Programa Nacional de Incentivo à Produção de Fertilizantes (Profert) é positivo. No entanto, o aceso a linhas de crédito ainda é burocrático para a indústria. E, diante do cenário atual, a iniciativa ainda é insuficiente para resolver o desequilíbrio no quadro de oferta e demanda por insumos.
“Esse ano, o Brasil vai aplicar menos. O produtor tomou essa decisão”, disse Monteiro.
“Os bioinsumos vêm ajudando a compensar essa redução nas taxas de adubação. Mas não resolve. O marco legal dos bioinsumos está parado e a indústria não consegue lançar produtos”, acrescentou.
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Tensões globais
Arián Krakov, sócio da consultoria Bain & Company, ressaltou que os picos de tensão global atuais são maiores e mais frequentes. E, como as cadeias globais são conectadas, a exposição a esses choques – como as guerras em andamento – é mais forte.
Em sua visão, a alta de preço dos insumos, no contexto da guerra no Oriente Médio, é mais um componente de uma “tormenta perfeita” para o agronegócio. Aumenta a incerteza já causada pelos juros altos e dificuldade de crédito, oscilação de cotações de commodities e preocupações com o fenômeno El Niño.
O Golfo Pérsico responde por metade das exportações de enxofre, 36% das de ureia e 29% das de amônia. Essas matérias-primas são as mais expostas a tensões que limitem ou até mesmo interrompam os fluxos de mercadorias por essa região do mundo.
Estudo da Bain & Company, apresentado pelo executivo durante o evento, pontua que o primeiro fechamento do Estreito de Ormuz, em março deste ano, interrompeu a movimentação de 35% das cargas globais de ureia, 27% das de amônia e 45% das de enxofre.
Com o preço do barril de petróleo passando dos US$ 100, os preços dos insumos e o custo logístico para transportá-los aumentou. A situação deve permanecer se não houver um acordo que normalize o fluxo de mercadorias pelo Estreito de Ormuz.
“Tentaram fazer outro caminho. Mas fica muito caro. Temos toda uma região extremamente restrita. E, nessa visão logística, a gente começa a entender porque tem esse impacto nos fertilizantes“, disse Krakov, em palestra que precedeu o painel de debates do Vozes do Agro.
Ele destacou que há projetos de aumento de capacidade de produção de fertilizantes em diversas regiões do mundo até 2030. Mas esses volumes devem ser insuficientes. No caso da ureia, por exemplo, mesmo com chegada de novas plantas industriais, o volume previsto é 21% menor que o nível pré-guerra no Golfo.
“Mesmo com essa ampliação de capacidade, não se consegue aumentar a produção global de fertilizantes. Isso não se resolve nem nesta safra, nem na próxima”, disse.
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Situação do Brasil
O Brasil, destaca o estudo da consultoria, é o terceiro principal destino das exportações de fertilizantes da região do Golfo Pérsico. Na safra 2025/26, os maiores fornecedores de componentes do composto NPK foram China, Rússia e Canadá. Os chineses assumiram nessa temporada a liderança ocupada pelos russos nas nove anteriores.
“O Brasil trocou de fornecedores, mas ainda está muito exposto. Poderia ser ainda pior, é verdade. Mas, mesmo assim, está muito exposto”, alertou Krakov.
Entre as consequências de um choque de oferta de adubo, o estudo da Bain & Company menciona quedas de produtividade, migração para culturas com menor consumo de fertilizantes e aumento de preços dos alimentos.
De outro lado, a mudança de manejo, com o uso de insumos orgânicos, pode trazer benefícios à saúde do solo no longo prazo, embora sejam mais caros que os químicos.
“O grande desafio que temos agora é gerir nossos negócios de forma diferente”, pontuou Krakov.
Entre as medidas, estão diversificar fornecedores e ampliar estoques estratégicos, otimizar momento de compras e negociar condições quando for possível.
No campo, a recomendação é priorizar a adubação de culturas de alta produtividade e valor e utilizar das ferramentas de agricultura de precisão e análise de solo. E, na parte comercial, ser proativo na comunicação com os clientes e repassar custos de forma seletiva quando for viável.

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