Após ser alvo de mandado de busca e apreensão, por suspeita de desvio de cocaína que havia sido apreendida em Mato Grosso do Sul, o advogado do delegado Guilherme Scucuglia apontou falha na comunicação entre Ministério Público e Polícia Civil. A operação do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) foi realizada na quinta-feira (5).

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À reportagem, o advogado José Roberto Rodrigues da Rosa afirmou que Scucuglia foi transferido para a Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron), em Dourados, para ajudar na investigação de desvio de conduta se alguns policiais.
“Ele foi encaminhado para lá, através da cúpula [da Polícia Civil], para que pudesse trazer informações sobre o que lá ocorria. Então essa informação sobre a participação dele é exatamente o oposto, tanto é fato que quando foi reclamado o pedido de prisão do delegado Guilherme, a Justiça se absteve, entendeu que não era o caso e decretou uma busca e apreensão”, disse.
O advogado pontuou que a investigação, conduzida pelo Gaeco, não possuía a informação de que ele havia sido transferido para a delegacia para investigar os casos relacionados à Polícia Civil. Para a defesa, o “desencontro [de informações] entre as instituições acabou fazendo com que um delegado correto, de comportamento idôneo fosse colocado nessa linha de investigação”.
Segundo José Roberto, Scucuglia passou a ser alvo do Gaeco após ter sido feita uma interpretação da conversa entre duas pessoas, que mencionaram um “delegado cabeludinho”.
“Seriam traficantes que estariam conversando e falando que teriam um delegado cabeludinho dentro da delegacia. ‘Um delegado cabeludinho’ gerou um pedido de prisão preventiva e a busca e apreensão. A cúpula da Polícia Civil conhece a situação toda e eu não tenho dúvida que com a busca e apreensão ontem, a ausência da arrecadação de qualquer elemento, ele vai ser descartado dessa investigação e deve ser arquivado em relação a ele”, pontuou.
Relações necessárias
José Roberto também atua na defesa do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, alvo de duas operações do Gaeco, em setembro, quando acabou preso também por suspeita de participar de um esquema de desvio de cocaínas apreendidas, e outra da Polícia Federal, nesta semana, que terminou na transferência dele para o Presídio Federal em Campo Grande.
Ele afirmou que os autos da investigação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) apenas trazem colocações que indicam a presença do delegado no esquema, mas sem trazer uma prova concreta.
“Nós temos algumas falas, também de terceiras pessoas, indicando sobre um suposto delegado careca que teria alguma participação no mal feito. Não existe dentro dos autos nenhum evento objetivo, nenhuma conduta objetiva descrevendo que o delegado Hoffmann teria feito pra ajudar esse grupo. O que tem aqui são assinaturas dele no sentido de determinar a incineração de droga e a ideia de que parte dessa droga tenha sido substituída durante este processo”, disse.
Um dos pontos trazidos na investigação é de que o patrimônio de Hoffman é incompatível com o patrimônio que um delegado poderia ter.
“Atribuem a construção de um imóvel que ele tem num condomínio em Campo Grande, e alguns outros eventos que eles descrevem como transações não identificadas, alguns depósitos que aconteceram. Ocorre que nós fizemos um estudo de viabilidade jurídica e nós precisamos entender que o salário do delegado Hoffman passava de R$ 45 mil. Do casamento dele houve a junção com a esposa de dois imóveis que foram dados como parte do pagamento na compra desse imóvel. Há mais de R$ 750 mil de financiamento que foram obtidos junto ao crédito imobiliário”, afirmou.
Em paralelo a isso, a Polícia Federal também investigava o delegado por suspeita de envolvimento com integrantes de organizações criminosas. Para José Roberto, essa relação está ligada à necessidade do policial em ter informantes, mesmo que eles estejam relacionados a crimes.
“São situações em que os policiais acabam tendo que se relacionar para poder receber informações. A polícia trabalha com informações, então muito daquilo que foi trazido pela investigação federal indica que o contato que se tinha com alguns malfeitores seria no sentido de arrecadar informações”, frisou.
A defesa afirma que a investigação não traz nenhuma prova que relacione Hoffman como um traficante.
“Eles descrevem condutas de peculato, corrupção passiva e eventualmente organização criminosa, mas não descrevem o ato de traficância. […] Mais uma vez eu vou dizer para vocês que essa coisa das instituições não se comunicarem. Nós podemos estar diante de uma investigação que aconteceu sobre o mesmo objeto, uma no âmbito federal e outra no âmbito estadual E isso pode eventualmente e futuramente ser explorado, gerar uma nulidade nesse processo”, pontuou.
Quanto às fotografias trazidas no processo, de Hoffman em eventos junto à integrantes de organização criminosa, Rosa ressalta que o fato de Ponta Porã ser uma cidade com muitas pessoas envolvidas com o crime traz a possibilidade do delegado estar em uma festa sem saber da vida pregressa dos presentes.
“Embora tenha muita gente do bem lá [em Ponta Porã], uma parte considerável dos empresários infelizmente tem algum tipo de envolvimento[no crime]. E você nem sempre quando frequenta a casa de alguém, você sabe se aquela pessoa tem algum tipo de envolvimento com a traficância. Eu não sei se à época que esses eventos ocorreram, essas pessoas eram de fato investigadas ou não. Eu vou precisar de tempo principalmente para checar a origem desse material, em que época foram produzidas, que contexto que isso aconteceu, porque o problema é quando você pega isso tudo monta uma novela mexicana e vende aquilo como verdadeiro”, relatou.
Com a deflagração da operação em âmbito federal, que transferiu o delegado para o Presídio Federal de Campo Grande, José afirmou que vai entrar com recurso, por julgar desnecessária a transferência, uma vez que ele já cumpria prisão em uma penitenciária do estado.
“Eu não vejo necessidade nesse momento de uma medida tão drástica. […] A primeira coisa que nós vamos combater é a permanência dele na unidade federal. Eu acho desnecessária e é isso que nós vamos nos insurgir, e posteriormente a isso eu vou analisar a possibilidade de pedir ao juiz da terceira vara federal reconsideração da decisão dele, porque ele já está preso por um outro título judicial estadual”, finalizou.