Orientou as três filhas para que, uma vez em posse do dinheiro que ele espera receber um dia, não invistam em nada. Gastem tudo.
“Não é para comprar imóvel. É para compensar com alegria tudo o que passei”, disse ao UOL, com lágrimas nos olhos.
Amaral ficou preso 85 dias, teve o mandato de senador cassado e foi condenado ao pagamento de multa de R$ 1,5 milhão ao Ministério Público Federal como parte do acordo de colaboração premiada na Lava Jato.
Em setembro de 2024, a 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal suspendeu a multa e Delcídio foi absolvido pela Justiça Federal.
“Sofri por oito anos e fui inocentado em 15 minutos”, diz ele, que tem frequentado a Igreja Presbiteriana e considerado se batizar.
Hoje, diz, agiria diferente do passado.
“Teria uma vida mais saudável. Eu começava de manhã e terminava 1 hora da manhã. Lia os jornais de madrugada. Minhas filhas estavam tão desacostumadas com a minha presença em casa que, se elas passassem e eu estivesse sentado na sala, elas não me viam.”
No entanto, diz não se arrepender da delação premiada na Lava Jato, quando fez acusações contra Dilma Rousseff e Lula.
Fui abandonado e executado. Me largaram na banguela. A leitura foi: ‘Vai o Delcídio, ficamos nós’. Me jogaram aos leões. Delcídio do Amaral

Memórias organizadas na prisão
Delcídio tem dividido a rotina entre Campo Grande e São Paulo, onde se encontra com empresários para quem desenvolve projetos nas áreas de energia, petróleo, gás e saneamento.
Ele também prepara um livro, em que pretende narrar o que viu quando foi líder da presidente Dilma Rousseff no Senado, acertar contas com quem votou por sua cassação e contar histórias de quando presidiu a CPI dos Correios, em 2005, que investigou o mensalão.
Parte das memórias foram organizadas no período em que Amaral esteve preso no Batalhão de Trânsito da Polícia Militar em Brasília. Ele foi detido em novembro de 2015.
“Sou um cara estoico. Tinha uma rotina: acordar cedo, fazer exercício, estudar o processo, ler. Cabeça vazia, oficina do diabo. Tinha o dia inteiro de atividades. E escrevia.”
O livro, diz, vai contar histórias da CPI dos Correios, incluindo a de um parlamentar que comeu um documento para proteger o chefe.
“Depois disso, botamos câmeras de segurança.”

Contenção de danos
Uma das teses que Amaral pretende desenvolver no livro é a de que havia um grupo no PT interessado na Lava Jato.
“Não era um grupo majoritário, era o grupo do governo Dilma Rousseff: José Eduardo Cardozo [então ministro da Justiça] e Aloizio Mercadante [então chefe da Casa Civil e atual presidente do BNDES].”
Segundo afirma, “eles queriam assumir o PT”.
Diz que, ao contrário do que afirma ter feito no comando da CPI dos Correios —quando estabeleceu um prazo para o fim dos trabalhos—, durante a Lava Jato não houve “contenção de danos”.
Assim, afirma, a crise política veio acompanhada de crise econômica, com quebra de empresas.

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