Bolsonaro não confessou, mas deu escorregada fatal ao admitir reuniões

Admissão de fato consequencial

Os juízes têm livre convencimento das provas. O livre convencimento precisa, no entanto, ser motivado, bem explicado. Gonet, que representa o Ministério Público, a parte acusadora, deverá juntar aos autos a manifestação de Bolsonaro referente à admissão da convocação dos comandantes militares para tratar de medidas voltadas a impedir a posse do candidato eleito, Lula da Silva.
Na defesa fora dos autos, Bolsonaro apresentou uma admissão mal ensaboada. Não lavou o golpismo. Ao contrário, ficou mal cheirosa a convocação de chefes militares para discutir “alternativas políticas para a nação”. Àquela altura do campeonato, com derrota nas urnas e sem nenhuma convulsão social.
Ao admitir a convocação e o encontro com os comandantes das forças, Bolsonaro não tinha como apresentar-lhe motivos para exigir intervenção militar. Em todo território nacional não existia lugar com comprometimento da ordem pública e da paz social. Tudo estava na mais absoluta tranquilidade, paz e ordem.
De concreto, também, inexistiam situações de intranquilidade motivadoras de imposição de estado de sítio. Muito menos, para se convocar forças, Exército, Aeronáutica e Marinha, para restabelecer o império da lei e a restauração da ordem pública. Bolsonaro, à época, estava convicto da furada tese do “poder moderador das Forças Armadas”.
Em resumo, a convocação militar tinha outro motivo, o golpe de Estado, com abolição violenta, pela força, do Estado democrático de Direito.
Até a “velhinha de Taubaté”, a célebre personagem criada pelo respeitado escritor Luís Fernando Veríssimo, não acreditaria tratar-se, como sustentou Bolsonaro sem corar, no caradurismo, de um encontro para discussão de “alternativas políticas para a nação”. A alternativa, o caminho político, já havia sido escolhida pelos cidadãos brasileiros, em urnas não fraudadas.
Bolsonaro, com a sua admissão extrajudicial provoca a todos a realizarem um raciocínio lógico-consequencial. E o raciocínio lógico, consequencial é o de ter convocado os militares para garantir o sucesso do golpe de Estado. Queria a força armada ao lado, para sustentar da sua ilegítima vontade de manter-se no poder, a rasgar a Constituição e eliminar o sistema democrático.

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