![]()
Ao decidir votar o decreto que derrubou as novas regras do IOF, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), desprezou a relação amistosa que mantinha com a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, na avaliação de líderes. A chefe da articulação política no Planalto havia sido a principal fiadora do paraibano dentro do PT na disputa pela presidência da Casa.
O que aconteceu
Desde que o Congresso aprovou a medida, o presidente da Câmara e a ministra não têm conversado diretamente. Gleisi enviou uma mensagem para Motta quando a votação foi anunciada e tentou falar com ele, mas não foi atendida. De lá para cá, as conversas com o Executivo têm sido feitas por emissários.
Decisão de questionar o IOF no STF foi comunicada a Motta por liderança. Nesta semana, o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), foi o responsável por comunicar ao deputado paraibano que o Planalto ia protocolar uma ação no Supremo Tribunal Federal contra o decreto que derrubou as novas regras do Imposto sobre Operações Financeiras.
Gleisi e Motta mantinham um diálogo constante sobre as pautas de interesse do governo na Câmara. Parte da boa relação foi construída ainda durante a campanha do paraibano para o comando da Casa. Deputados que acompanharam o processo afirmaram ao UOL que a então presidente do PT e o líder do partido na época, Odair Cunha (MG), costuraram o apoio da sigla ao republicano em troca apenas de uma indicação petista ao TCU (Tribunal de Contas da União).
Aliados de Motta dizem que ele ‘desconsiderou’ a ministra ao decidir pautar a derrubada do IOF sem falar com ela. O movimento causou estranheza em algumas lideranças e integrantes do Planalto porque Motta tinha um canal aberto com a chefe da articulação política. A relação era diferente com o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) e o ex-ministro da SRI Alexandre Padilha, que não conversavam.
Bola nas costas e ‘arrependimento’ de apoio a Motta. Alguns petistas têm dito nos bastidores que há um certo remorso de ter apoiado o deputado republicano à presidência da Câmara. Deputados afirmaram que os outros nomes na disputa, Elmar Nascimento (União Brasil-BA) e Antonio Brito (PSD-BA) se comprometeram a apoiar os projetos do governo na Casa e evitar as chamadas “pautas bombas”.
Planalto quer esperar poeira baixar
O Planalto evita falar em ‘traição’ diretamente, mas assume desconforto. Para palacianos, pintar Motta como traidor seria o rompimento definitivo com o presidente do Legislativo, algo que toda a cúpula governista acha melhor evitar. Contudo, eles não negam que houve uma quebra de acordo.
A ministra ficou incomodada e irritada ao saber da votação pelas redes sociais. Segundo interlocutores do governo, não ter pautas-surpresas, como fazia Lira, foi um dos combinados apalavrados entre Gleisi e o parlamentar durante as negociações de apoio para a presidência da Câmara.
Por ora, não deve haver conversa. Com Brasília esvaziada por causa do “Gilmarpalooza” em Lisboa, do qual Motta participa, membros do governo dizem que devem deixar esta semana passar e a “poeira baixar” para buscar uma conversa. Na semana que vem, Gleisi, e os ministros Rui Costa (Casa Civil) e Fernando Haddad (Fazenda) deverão procurar lideranças parlamentares para tentar evitar uma escalada na crise.
Uma conversa direta com os presidentes das Casas também vai depender da ‘boa vontade’ deles, dizem palacianos. Eles apontam que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que estava próximo de Lula, anda igualmente “sumido”, sem conversas com o Executivo. O próprio presidente tem dito que está disposto a conversar, mas só se for procurado.

Deixe um comentário