'O deputado Júnior Mano concede as emendas e Bebeto do Choró lava', denunciou ex-prefeita no CE

Mano afirma que “insinuações” sobre o uso indevido das verbas “têm caráter meramente político” e buscam desinformar a população em ano pré-eleitoral. Ele também disse que os repasses foram objeto de fiscalização por parte dos órgãos de controle, como a Controladoria-Geral da União, por meio de auditoria específica, e do Ministério Público Federal.

Bebeto do Choró não foi localizado pela reportagem. O espaço está aberto.

Júnior Mano é o alvo principal da Operação Underhand, deflagrada nesta terça, 8. Agentes da Polícia Federal fizeram buscas em seu gabinete na Câmara e em outros 15 endereços, por ordem do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

O ministro decretou o bloqueio de R$ 54,4 milhões de Júnior Mano e de outros alvos do inquérito.

Rozário Ximenes se encorajou em denunciar o esquema das emendas quando identificou o avanço das campanhas eleitorais do ano passado que tiveram apoio de Júnior Mano e Bebeto do Choró. Ela pretendia eleger seu sucessor na prefeitura de Canindé, cargo que ocupou por dois mandatos sucessivos (2017-2024), mas quem levou foi o candidato de oposição, Professor Jardel, ligado a Choró.

Ao constatar os métodos e o poder financeiro dos rivais, Rozário bateu à porta do Ministério Público do Ceará, em setembro de 2024. Ela detalhou os laços de Carlos Alberto Queiroz Pereira, o Bebeto do Choró, e o parlamentar federal.

Segundo Rozário, a trama envolveu empresas ligadas a Bebeto, a administração de 51 prefeituras e Júnior Mano, a partir do envio de emendas parlamentares para que fossem desviadas em favor de candidatos ligados ao núcleo político.

O plano, afirmou Rozário aos promotores, consistia no gasto de pelo menos R$ 58 milhões nas eleições de 2024 para impulsionar candidatos aliados por meio do financiamento de carros, combustíveis, brindes e compra de votos.

Em entrevista ao Estadão, em janeiro passado, a ex-prefeita de Canindé – município com 74 mil habitantes a 100 quilômetros de Fortaleza – disse que Bebeto tinha pleno acesso nas prefeituras ‘a mando do deputado federal Júnior Mano’.

Ela contou que o esquema fez uso de empresas associadas a Bebeto do Choró, registradas em nome de laranjas e de empresários aliados, para vencer licitações e desviar os recursos para uso em caixa dois e compra de votos.

“Bebeto trabalha para cinquenta e uma prefeituras, juntamente com Júnior Elmano”, ela declarou ao Estadão. “O deputado concede as emendas, manda pra ele (Choró) e ele lava. A lavagem consiste em contatar o gestor, oferecendo como exemplo um milhão com retorno de quinze por cento pra ele.”

A Justiça Eleitoral no Ceará impediu a posse de Bebeto na prefeitura de Choró. A decisão atendeu a um pedido do Ministério Público do Estado, que requereu a cassação do prefeito após a Polícia Federal resgatar diálogos atribuídos ao braço direito de Júnior Mano.

‘Abuso de poder econômico’

Em um áudio que consta do inquérito da Operação Underhand, o prefeito ‘reclama do preço a pagar pelos votos, indicando que estava muito caro’.

“Mas só para votar… ele é doido, é caro demais, mano… ele consegue quantos votos?”, disse Bebeto em 29 de setembro, às vésperas do primeiro turno das eleições, que ocorreu no dia 6 de outubro. O interlocutor ‘mano’, com quem Bebeto do Choró conversava, seria o deputado, acreditam os investigadores.

Com base nas conversas interceptadas e depoimentos colhidos no inquérito, a PF suspeita que Bebeto do Choró operava com uma ‘complexa teia de interesses’. O inquérito destaca o ‘espectro de sua influência eleitoral, a compor a abrangência do abuso de poder econômico’.

O pedido de remessa dos autos ao STF foi acolhido pelo juiz Flávio Vinícius Bastos Sousa, da 3ª Zona Eleitoral do Ceará. O inquérito está nas mãos do ministro Gilmar Mendes.

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