Cargo na COP, mais verba ao Pará e buscar dinheiro fora do País: os áudios da ministra das Mulheres

BRASÍLIA – A ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, foi denunciada à Comissão de Ética Pública da Presidência da República por suspeita de assédio moral. O caso está em análise pela primeira vez nesta segunda-feira, 24. Se for aberto processo, os conselheiros podem até recomendar a demissão dela ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Um dos documentos enviados no acervo de provas é uma gravação de reunião dela com subordinadas, para explicar a exoneração de uma secretária que, quatro meses antes, teria sido alvo de um episódio de racismo em reunião da equipe.

A secretária executiva Maria Helena Guarezi, segundo denunciantes, afirmou que a secretária Carmen Foro (Articulação Institucional, Ações Temáticas e Participação Política) deveria permanecer sentada pois o cabelo dela, que é crespo, atrapalhava sua visão, durante o encontro, em abril de 2024. Carmen Foro era a única negra, então, entre as secretárias nacionais da pasta. A ministra não presenciou o episódio, relatado como caso de racismo a autoridades, mas teria sido informada.

O Estadão obteve cópia do arquivo com as falas da ministra na reunião de agosto de 2024. A seguir, os principais trechos que mostram como Cida Gonçalves ofereceu construir uma saída para Carmen Foro, com quem mantinha um relacionamento marcado por disputas políticas e diferenças de gestão.

Cida Gonçalves fala de oferta de cargo na COP-30 a secretária que teria sido vítima de racismo

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Ministra fala em ampliar verba a entidades e buscar dinheiro no exterior com objetivo eleitoral

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Ministra fala da necessidade de mobilização e de criar condições políticas para a candidata dela

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Ministra fala sobre atender Janja, Lula e Rui Costa, mas enrolar ministros Padilha e Macedo

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Ministra contesta denúncia

O Estadão conversou com o advogado da ministra, Bruno Salles Ribeiro, que a representa perante a Comissão de Ética Pública (CEP), e pediu novos esclarecimentos ao Ministério das Mulheres. A ministra optou por não falar diretamente com a reportagem. O Estadão enviou as transcrições para que consultassem, e a versão oficial de Cida é a seguinte:

A defesa e o ministério afirmam que a ministra não ofereceu cargo na COP-30 para Carmen Foro, tampouco que aumentaria repasses de recursos públicos seguindo critérios político-eleitorais. Eles negam também que a ministra tenha se oferecido para buscar alguma forma de financiamento, no exterior, com vistas à eleição de Carmen Foro em 2026. De acordo com eles, a ministra apenas expressou o que ela faria, se estivesse no lugar de Carmen Foro, e já fora da administração pública.

“Em nenhum momento, a ministra diz que iria buscar dinheiro para a campanha da ex-secretária, dentro ou fora do País”, afirma o ministério. “É extremamente importante pontuar, para que eventuais distorções dolosas possam ser coibidas e não precisem ser contestadas judicialmente que, quando a ministra menciona o levantamento de recursos está aludindo a atividades de articulação política que poderiam ser executadas fora do ministério e, obviamente, não por ela.”

O ministério admitiu que a ministra considera que a ex-secretária poderia desempenhar um papel na conferência climática das Nações Unidas, mas que isso não significa uma promessa de ajuda para obter função na equipe brasileira.

“No trecho da reunião, a ministra esclarece, após o desligamento da então secretária, que sua avaliação era a de que a atuação de Carmen Foro no ministério não estava dentro do esperado para alguém de seu cargo. Havia também a consideração de que ela era uma grande liderança política e que poderia ser uma grande candidatura em seu Estado, o Pará. Além disso, que poderia ser uma boa articuladora na conferência internacional do clima. Isso não significa, de forma alguma, a promessa de qualquer cargo”, disse a pasta.

A defesa e o ministério negam que Cida Gonçalves tenha sido omissa em um possível caso de racismo prévio, de que Carmen Foro teria sido vítima. Embora não expliquem se ela soube do caso, mesmo que apenas verbalmente, o advogado e a assessoria de Cida argumentam que ela não poderia agir sem uma denúncia formal contra a número dois da pasta, Maria Helena Guarezi.

O ministério negou que Cida priorize o atendimento de solicitações de Janja e deixe outros ministros de Estado em segundo plano. A pasta reconheceu o relacionamento entre ambas, mas afirmou que a ministra não deixa de atender demandas do Palácio do Planalto, e que as expressões usadas na reunião foram gravadas sem autorização e são informais.

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