O anúncio da imposição de tarifa de 50% sobre produtos brasileiros nas exportações aos Estados Unidos, a partir de 1º de agosto, já teve reflexos concretos nos segmentos de carnes e pescados nacionais. No caso dos pescados, empresas relatam cancelamento de contratos e de envios de contêineres aos EUA. Entre os frigoríficos, a Minerva Foods estimou queda de 5% em sua receita em 12 meses em função da taxação. O segmento de ovos também deve sofrer, pois o mercado americano se tornou o maior cliente do Brasil.
Jairo Gund, diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca), afirmou que algumas indústrias já cancelam contratos e o envio de contêineres aos EUA. “De ontem (quarta) para hoje (quinta), quem trabalha com exportação não dormiu. Nosso segmento ficou de pernas para o ar de uma hora para outra”, disse Gund.
Segundo ele, os contêineres com pescados congelados levam de 20 a 40 dias para desembarcar nos Estados Unidos e as indústrias já calculam o risco de não chegar antes de 1º de agosto. No caso dos peixes frescos, o comércio continua, mas deve ser interrompido nos próximos 20 dias.
O mercado americano representa 80% das exportações brasileiras de pescados, com uma receita de US$ 244 milhões, segundo a Abipesca. No caso de lagosta, pargo e atum, praticamente 100% da produção é destinada à exportação e os EUA são o maior destino.
“Essa taxação vai tirar o pescado brasileiro do mercado americano. Não teremos como escoar nossa produção e muitas indústrias vão fechar e, consequentemente, deixarão de comprar os pescados de milhares de pescadores artesanais e piscicultores familiares”, lamentou o presidente da Abipesca, Eduardo Lobo Naslavsky.
A Fider Pescados, de Rifaina (SP), é uma das maiores exportadoras de tilápia do país e deve sentir o impacto da nova tarifa. Juliano Kubitza, diretor da empresa, disse que “ainda está digerindo” a má notícia. A empresa vem elevando o embarque de filés de tilápia fresco por via aérea para os EUA e trabalha para desenvolver uma linha de filés congelados para exportar via navios. O comércio exterior representa cerca de 50% do faturamento da Fider.
Entre analistas e especialistas do mercado de carne bovina, a expectativa inicial é que a taxação deve afetar principalmente os grandes frigoríficos fornecedores de carne bovina, mais expostos ao mercado americano.
No início do pregão de ontem na B3, as ações da Minerva Foods, maior exportadora de carne bovina da América do Sul, chegaram a cair mais de 9%, mas no fechamento o recuo foi de 1,28%.
Para amenizar o nervosismo dos investidores, a Minerva divulgou um comunicado ao mercado informando que a taxação dos EUA pode ter impacto limitado para a receita líquida da companhia, de, no máximo, 5% devido à diversificação geográfica das operações.
A Minerva também acessa o mercado americano por meio das unidades na Argentina, Paraguai, Uruguai e Austrália, “o que permite à companhia maximizar sua capacidade de arbitrar os mercados, reduzindo riscos, alavancando oportunidades e respondendo com eficiência a mudanças de cenário como essa”, ressaltou.
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No entanto, como observou uma fonte da indústria, a Minerva não tem operações de carne bovina nos EUA, diferentemente das concorrentes Marfrig e JBS.
Com essa vantagem e com o maior foco em valor agregado, observaram analistas, a Marfrig subiu na B3 ontem. As ações da empresa chegaram a liderar as altas do Ibovespa e terminaram o dia com ganhos de 6,38%. “Marfrig tem a National Beef por lá, e é a empresa mais eficiente de bovinos nos EUA”, afirmou uma fonte do setor.
Ter operações nos Estados Unidos neste momento faz toda a diferença, pois a tarifa pode elevar os preços do produto exportado a partir do Brasil, tornando-o “praticamente inviável”, segundo a consultoria Agrifatto.
Os EUA são o segundo maior mercado para a carne bovina do Brasil, e importaram no primeiro semestre 181 mil toneladas, com receita de US$ 1,04 bilhão. O valor médio foi de US$ 5.727 por tonelada, conforme dados do governo compilados pela consultoria.
Pelos cálculos da Agrifatto, a taxação de 50% elevaria o preço da tonelada exportada para US$ 8.590, “tornando o produto brasileiro praticamente inviável no mercado americano”.
A exportações brasileiras de ovos aos EUA, que aumentaram em função da epidemia de gripe aviária naquele país, também podem sofrer com a taxação. O país é o principal cliente do ovo brasileiro, e importou 15,2 mil toneladas no primeiro semestre, crescimento de 1.247% sobre o mesmo intervalo de 2024. A receita foi de US$ 33,1 milhões, alta de 1.586,2%, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Em nota, a entidade demonstrou preocupação com a taxação e disse acompanhar de perto as tratativas entre os dois governos.

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