Diversas entidades representantes do agronegócio brasileiro criticaram as tarifas adicionais de 50% impostas pelo governo dos Estados Unidos aos produtos oriundos do Brasil. As organizações demonstraram preocupação com os efeitos da ação norte-americana, e pediram atenção do governo brasileiro à crise diplomática.
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A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) afirmou que a imposição de tarifas adicionais de 50% pelos Estados Unidos aos produtores brasileiros é uma medida unilateral que não se justifica pelo histórico de boas relações comerciais entre os dois países. Em nota, a entidade disse que a economia e o comércio não podem ser “injustamente afetados por questões de natureza política”.
Segundo a CNA, a aplicação das tarifas prejudica as economias dos dois países e causará danos a empresas e consumidores. A CNA pondera que não há desequilíbrio “injusto ou indesejável” na relação bilateral de comércio ou investimentos para qualquer dos lados.
“Nossa esperança é que os canais diplomáticos sejam intensamente acionados para que a razão e o pragmatismo se imponham para benefício de todos, pois este é o único caminho que serve ao entendimento e à prosperidade”, disse a CNA, em nota.
A entidade ressaltou que Estados Unidos e Brasil sempre estiveram “do mesmo lado” em 200 anos de relações e que “não há qualquer razão para que essa situação” seja modificada. “Os produtores rurais brasileiros consideram que essas questões só podem ser resolvidas em benefício comum por meio do diálogo incessante e sem condições entre os governos e seus setores privados. A economia e o comércio não podem ser injustamente afetados por questões de natureza política”, concluiu.
Sociedade Rural Brasileira
A Sociedade Rural Brasileira (SRB) afirmou que a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de taxar em 50% as exportações brasileiras, causa apreensão e exige atenção imediata do governo brasileiro.
“Não é bom para o Brasil, nem para os Estados Unidos. Temos uma posição confortável, já que somos o principal fornecedor de café e carne bovina para o país, mas será necessário um acordo muito bem coordenado para reverter isso”, afirmou, em nota, o presidente Sérgio Bortolozzo. A entidade disse que confia na atuação da diplomacia brasileira para conduzir as negociações com responsabilidade.
“O Brasil tem se destacado no cenário internacional pela eficiência produtiva e respeito às normas internacionais de comércio. A imposição de barreiras comerciais, sem base técnica ou diálogo prévio, compromete não apenas a previsibilidade dos fluxos comerciais, mas também o ambiente de confiança mútua que sempre norteou a relação entre Brasil–Estados Unidos”, acrescenta a nota da SRB.
Segundo a entidade, o foco do governo brasileiro precisa estar em recuperar o relacionamento com os americanos.
São Paulo
“Esse é mais um exemplo da falta de diplomacia brasileira e de visão estratégica do governo!” Foi dessa forma que o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Tirso Meirelles, classificou a decisão americana de impor tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras e a falta de agilidade do governo em buscar o diálogo.
Segundo Meirelles, o anúncio do presidente Donald Trump escancara a “falta de assertividade e visão da diplomacia brasileira” em antecipar e negociar medidas que afetam diretamente setores estratégicos da economia nacional.
“Em um cenário global cada vez mais protecionista, a capacidade de estabelecer diálogo rápido e eficaz com parceiros comerciais torna-se essencial. No entanto, o Brasil parece ter adotado uma postura reativa, limitando-se a protestos formais após o anúncio das medidas, sem demonstrar esforços prévios consistentes de mediação ou busca por convergência de interesses”, afirma nota da Faesp.
“É muito importante que o governo entenda que esse tipo de ação impacta não apenas nas exportações, mas em toda a cadeia econômica, que começa na geração de empregos. É extremamente importante que questões políticas sejam colocadas de lado e o foco recaia sobre a importância dos Estados Unidos no saldo da nossa balança comercial”, explicou Meirelles.
Segundo a Faesp, o agronegócio, que sustenta boa parte da balança comercial brasileira, pode sofrer perdas importantes caso barreiras tarifárias se tornem uma constante sem contrapartidas diplomáticas eficazes.
Mato Grosso
A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) afirmou que acompanha com preocupação a decisão dos Estados Unidos de impor tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.
“Como maior produtor de carne bovina do país, com rebanho superior a 30 milhões de cabeças, Mato Grosso pode ser diretamente afetado pela medida, que traz insegurança ao comércio internacional e pressiona o custo de produção no campo”, disse, em nota.
Em 2024, o Estado exportou mais de 39 mil toneladas de carne bovina para os norte-americanos. De janeiro a junho deste ano, as exportações mato-grossenses já somam 26,55 mil toneladas. “A aplicação dessa tarifa impactaria de forma significativa as exportações do Estado, com possíveis reflexos sobre toda a cadeia produtiva”, disse a entidade.
A Famato defendeu que o Brasil adote uma “postura firme e diplomática para preservar a competitividade do agronegócio e garantir segurança jurídica nas relações comerciais”.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que os Estados Unidos foram, em 2024, o 17º principal destino das exportações de Mato Grosso. No período, foram exportados US$ 415 milhões em produtos, somando 183,4 mil toneladas, dos quais US$ 373,6 milhões referem-se à indústria de transformação — evidência clara da relevância do setor industrial nas relações bilaterais.
Entre os principais produtos industriais exportados por Mato Grosso aos Estados Unidos estão carnes (US$ 148,5 milhões), ouro (US$ 147,1 milhões), gordura animal (US$ 43,5 milhões), gelatinas (US$ 16,8 milhões) e madeira beneficiada (US$ 12,5 milhões). A agropecuária também mantém papel importante, com US$ 41,4 milhões em exportações.
Os Estados Unidos também são o quarto maior fornecedor de produtos para Mato Grosso em 2024, com US$ 301,8 milhões em importações e 197,9 mil toneladas adquiridas, sobretudo de aeronaves, fertilizantes, máquinas e defensivos agrícolas.
Minas Gerais
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) Antônio Pitangui de Salvo, cobrou “juízo” do governo brasileiro nas negociações com os Estados Unidos, que decidiu impor tarifa de importação de 50% sobre produtos brasileiros a partir de agosto.
“Espero que a gente reconduza isso para não atrapalhar brasileiros que produzem no campo. Precisamos ter juízo, precisamos respeitar o nosso povo, continuar dando dignidade a esse pessoal que produz, que trabalha, que gera riqueza, que gera segurança alimentar para os brasileiros e boa parte da população do mundo”, afirmou De Salvo.
O presidente da Faemg considera a imposição de tarifas pelos Estados Unidos uma retaliação pela posição do Brasil em defesa do fortalecimento dos Brics. Na semana passada, após o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçar impor uma tarifa adicional a qualquer país que se alinhasse a “políticas antiamericanas” do Brics, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou em reunião dos Brics que os países do bloco não aceitam “intromissão de quem quer que seja”. “Nós defendemos o multilateralismo”.
“Nos causa espanto a posição do governo brasileiro na reunião do Brics. Já não nos caiu bem e a gente está vendo aí o resultado de um dos grandes parceiros comerciais nossos, que compram nossos produtos”, afirmou De Salvo.

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