Pecuaristas apostam na demanda e na competitividade da carne bovina brasileira no mercado internacional para superar incertezas como a tarifa de 50% anunciada pelos Estados Unidos. A Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ANCB) avalia que o mercado internacional precisa do produto, que é comercializado com preços inferiores aos dos principais concorrentes.
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O presidente da ACNB, Victor Paulo Silva Miranda, disse acreditar que a tensão entre os governos Lula e Trump será superada em um prazo relativamente curto, insuficiente para causar danos significativos às exportações nem desequilíbrio de preços de boi para o pecuarista. E lembra que o rebanho bovino dos Estados Unidos está diminuindo, o que tende a elevar a demanda por carne importada.
“Ninguém tem uma carne com qualidade e preço que temos no Brasil. Enquanto uma tonelada de carne do Brasil custa US$ 6 mil, nos EUA passa de US$ 10 mil. Os Estados Unidos são um grande parceiro nosso e vamos superar essa crise”, afirmou, na noite de segunda-feira (14/7), em São Paulo.
A China é o principal comprador internacional da proteína vermelha brasileira, seguida por Estados Unidos, Chile, Hong Kong, Rússia, Egito, Argélia, México, Arábia Saudita e Filipinas.
“Não deve haver nenhum dano à exportação de carne vermelha, porque a demanda está aumentando. O Brasil precisa produzir em quantidade, qualidade e conquistar novos mercados. E os americanos vão voltar a comprar”, disse ele. “Se os Estados Unidos não quiserem comprar, vamos mandar para a Europa, China, Indonésia. A carne vermelha do Brasil está bastante procurada”, acrescentou.
A avaliação do pecuarista converge com a postura da indústria, que, nesta terça-feira (15/7), esteve representada em reunião setorial com representantes do governo federal. Em alguns estados, frigoríficos interromperam a produção de carne direcionada para o mercado americano. E a continuidade dos embarques do produto para o país está sendo reavaliada pela indústria.
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Mercado interno
O presidente da ACNB descartou também consequências significativas do tarifaço americano ao mercado interno de carne bovina. Miranda afirmou que o consumo do produto pelos brasileiros é crescente, de modo geral. E a exigência de produtos de melhor qualidade também.
Miranda avaliou ainda que o cenário atual não deveria ser de queda nos preços de boi gordo para o pecuarista. Em São Paulo, o indicador do Centro de Estudos Avançados Em Economia Aplicada (Cepea) aponta retração de 5,72% na arroba na parcial deste mês até a segunda-feira (14/7).
“Não era para ter depreciação. Mas o mercado se regula. É um ciclo. O boi está barato, pecuarista abate fêmeas, falta bezerro, começa a reter fêmea e valoriza o boi gordo”, explicou.
Nova diretoria
Miranda conversou com jornalistas durante o evento em que tomou posse do segundo mandato à frente da ACNB. A raça Nelore representa 80% do rebanho bovino comercial de corte no país. A nova gestão vai até 2027 e tem entre os integrantes nomes de peso da política nacional, como o deputado federal Arthur Lira (PP-AL). Ele passou a ocupar uma das vice-presidências.
Também presente na cerimônia, Lira defendeu que deve ser “de Executivo para Executivo” a discussão a respeito do tarifaço, que a solução está mais ligada à diplomacia do que a medidas legislativas.
“Tem que avaliar o peso político do que exporta e importa; a quem vai prejudicar e vai ajudar”, disse. “Tem setores bastante afetados. Tem que olhar para isso e apertar os botões certos”, acrescentou.
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Lira evitou dizer se concorda com a aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica como reação à medida, que vigora a partir de 1º de agosto. Falou apenas que o governo brasileiro precisa considerar a importância da parceria com os americanos, e entender “quem ganha e quem perde com essa confusão”.
“A China aguentou por muito tempo? Não. Foi lá e apertou os botões importantes para os Estados Unidos. Nós temos alguns botões importantes para o comércio interno dos americanos e temos que apertá-los. Não todos. Mas o que é importante”, avaliou.
O deputado ressaltou que aplicar tarifas de importação é uma questão geoestratégica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. E que vê como um erro do americano a inclusão do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro na carta que enviou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva justificando a medida.
O secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, Guilherme Piai, criticou o governo federal. Disse que manifestações recentes e falta de negociação com os Estados Unidos motivaram a recente medida do presidente dos Estados Unidos.
Piai defendeu que a resposta do Brasil tem que ser diplomática. Disse que, pessoalmente, não vê uma relação “ganha-ganha” na aplicação da reciprocidade econômica como retaliação à medida.

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