PM da Rotam que intermediou o assassinato de Nery e “caguetou” os mandantes é mantido preso

O desembargador Gilberto Giraldelli manteve a prisão preventiva do policial militar Heron Teixeira Pena Vieira, agente da Rotam acusado de intermediar o assassinato do advogado Renato Nery, executado a tiros em Cuiabá em julho de 2024. Em decisão proferida na semana passada, o magistrado do Tribunal de Justiça (TJMT) não verificou ilegalidades na ordem de primeiro piso que mandou o PM para a cadeia.

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O crime ocorreu em 5 de julho de 2024, em frente ao escritório da vítima, na Avenida Fernando Corrêa, em Cuiabá. Alex Roberto de Queiroz Silva, caseiro de Heron, efetuou os disparos contra Renato Nery utilizando uma pistola Glock adaptada para tiros em rajada.
A motivação do crime estaria relacionada a uma disputa judicial envolvendo terras e interesses financeiros: segundo a polícia civil, Julinere Goulart Bentos e César Jorge seriam os mandantes motivados por uma “vingança judicial” em imbróglio envolvendo propriedade rural de mais de 12 mil hectares em Novo São Joaquim, região leste de Mato Grosso.
A DHPP apurou que o casal articulou junto a um grupo de policiais a execução. Além de Alex e Heron, os policiais Jackson Pereira Barbosa e Ícaro Nathan Santos também participaram da execução.
As investigações apontam que Alex e Heron planejaram o assassinato do advogado, monitorando sua rotina antes da execução. Após o crime, Alex teria queimado objetos utilizados na ação e trocado de celular diversas vezes. Ambos também tentaram esconder a motocicleta usada na fuga.
Heron seria o cabeça do “núcleo de intermediação”, responsável por fazer a ponte entre os mandantes e o executor, negociando valores, repassando ordens e garantindo que as determinações fossem cumpridas. Com auxilio de terceiros, recebeu a encomenda do crime, contratou o executor, procedeu a ações de monitoramento e providenciou os meios materiais (arma, chácara como local para o esconderijo).
Defesa de Heron argumentou que ele colaborou com as investigações de maneira concreta ao identificar os autores intelectuais, ou mandantes, da execução de Nery. Também sustentou falta de justa causa na decisão que decretou a prisão, apontando como suficientes medidas cautelares alternativas como tornozeleira eletrônica. Assim, pediu concessão para que ele pudesse responder o processo em liberdade. Giraldelli negou.
Examinando o habeas corpus, o desembargador anotou que o pedido somente poderia ser concedido em caso claramente excepcional, e que seria prudente, diante da complexidade do crime, aguardar análise da Terceira Câmara Criminal antes de decidir já que há necessidade de confrontar as informações da investigação com a primeira instância.
“Estou convencido de que a antecipação dos efeitos da tutela configura medida desaconselhada, fazendo-se prudentes, antes, as informações da autoridade tida por coatora e a coleta de parecer junto à Cúpula Ministerial para que, posteriormente, o habeas corpus possa ser submetido a julgamento pelo órgão fracionário competente, em homenagem ao princípio da colegialidade”, anotou Giraldelli em ordem assinada na última sexta (11).
No dia 15 de maio, o Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT) denunciou o policial militar Heron Teixeira e o seu caseiro Alex Roberto de Queiroz Silva pelo homicídio qualificado do advogado Renato Gomes Nery, de 72 anos.
Os dois responderão por homicídio qualificado — com as agravantes de promessa de recompensa, perigo comum, dificuldade de defesa da vítima e idade avançada da vítima —, além de fraude processual (por tentativas de ocultar provas e dificultar as investigações) e organização criminosa. O PM também foi acusado de abuso de autoridade, por uso indevido do poder.
A denúncia foi assinada pelos promotores de Justiça Élide Manzini de Campos, Rinaldo Segundo, Samuel Frungilo e Vinicius Gahyva Martins.
Vínculo com outro caso
O Ministério Público também denunciou o sargento PM Jorge Rodrigo Martins, o cabo PM Wailson Alessandro Medeiros Ramos, o soldado PM Wekcerlley Benevides de Oliveira e o PM Leandro Cardoso pelo homicídio de Walteir Lima Cabral e pela tentativa de homicídio contra Pedro Elias Santos Silva e Jhuan Maxmiliano de Oliveira Matsuo Soma. Os quatro policiais foram denunciados por fraude processual — por alteração da cena do crime para simular um confronto armado — e abuso de autoridade.
 Os crimes ocorreram em 12 de julho de 2024, no Contorno Leste, próximo ao bairro Pedra 90, em Cuiabá. Os policiais alegaram confronto armado, mas a investigação revelou que as vítimas estavam desarmadas e que a cena foi manipulada.
 Segundo a denúncia, Pedro, Walteir e Jhuan haviam roubado um veículo e, durante a perseguição policial, foram atingidos por disparos. Walteir foi perseguido e morto, Pedro foi alvejado no peito e Jhuan conseguiu fugir. A arma utilizada pelos policiais foi apreendida, e a perícia constatou que ela também foi usada no assassinato do advogado Renato Gomes Nery.
 De acordo com o MPMT, os homicídios consumado e tentados foram praticados por motivo torpe (justiça pelas próprias mãos), mediante recurso que dificultou a defesa das vítimas (ataque de surpresa) e com o objetivo de ocultar outros crimes (execuções para encobrir homicídios anteriores).

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