Ao suspender Janones e Gilvan, Câmara tenta mostrar que baixaria tem limite

A Câmara tem se notabilizado por confusões e gritarias desde que deputados passaram a investir em cortes para engajar nas redes sociais e transformá-los em votos. A suspensão de Gilvan da Federal (PL-ES) e André Janones (Avante-MG) tem o intuito de sinalizar que as baixarias têm limite. Mas há dúvidas de que vá surtir efeito.

O que aconteceu

Boa parte dos atuais 513 deputados conseguiu seus mandatos chocando nos perfis das redes sociais. O campeão de votos da última eleição, Nikolas Ferreira (PL-MG) segue “causando”, como quando, por exemplo, escolhe o Dia da Mulher para pôr uma peruca loira, se apresentar como Nikole e fazer um discurso atacando as mulheres trans.

Parte do Brasil acompanhou estarrecida, outra parte deu “like” e o parlamentar comemorou. A impressão de que “o crime compensa” prevaleceu porque não houve punição no Conselho de Ética. A consequência só aconteceu nas redes sociais, onde Nikolas foi assunto por uma semana. Era exatamente o que ele queria.

Hugo Motta assumiu a presidência da Câmara prometendo pôr fim ao circo. Em fevereiro, petistas e bolsonaristas se engalfinharam no plenário, enquanto a deputada Delegada Katarina (PSD-SE) comandava a sessão. Ela foi ignorada ao tentar conter os parlamentares que se tratavam aos gritos.

Motta deu uma bronca geral. Ele prometeu providências em caso de repetição de episódios como aquele. Afirmou que a partir daquele momento haveria punições. “Aqui não é jardim de infância”, afirmou em seu discurso.

Desde então, dois deputados foram suspensos. A Mesa Diretora, órgão máximo da Câmara, agiu como juiz de futebol e deu cartão vermelho para um representante de cada time. O bolsonarista Gilvan da Federal e o esquerdista Janones foram suspensos por três meses.

O pedido de punição partir da Mesa Diretora sinaliza que essa foi uma decisão da cúpula da Câmara. Líderes partidários afirmam que as suspensões são prova de que baixarias não serão mais toleradas.

A atitude é justificada pela defesa da imagem do Parlamento. A leitura é que a Câmara e seus integrantes sofrem severos danos na reputação porque alguns deputados querem lacrar por likes que viram votos na época de eleição.

Nikolas Ferreira de peruca fazendo discurso transfóbico
Nikolas Ferreira de peruca fazendo discurso transfóbico Imagem: Reprodução

Resolução da cúpula não convence

A determinação dos caciques da Câmara em punir baixarias é questionada. Deputados ouvidos pela reportagem e que não quiseram se identificar dizem que os dois parlamentares que acabaram suspensos não tinham a consideração de seus colegas.

Para eles, é fácil agir contra Gilvan e Janones, portanto a punição da dupla não indica a criação de uma linha para não ser cruzada. A avaliação é que só será caracterizada a imposição de um limite quando um deputado que conte com a simpatia dos demais parlamentares for penalizado em caso de baixaria.

O prazo da suspensão reforça as dúvidas. A Mesa Diretora solicitou que eles fossem punidos com seis meses de suspensão, mas o Conselho de Ética reduziu a pena pela metade. O corporativismo se fez presente mesmo com a pressão dos líderes.

Gilvan da Federal defendeu a morte de Lula: "Quero mais que ele morra"
Gilvan da Federal defendeu a morte de Lula: “Quero mais que ele morra” Imagem: Bruno Spada – 4.dez.2024/Câmara dos Deputados

Histórico de Gilvan

  • Chamou a ministra Gleisi Hoffmann de “prostituta do caramba”;
  • Desejou a morte de Lula;
  • Responde processo por calúnia e difamação;
  • Sugeriu falsamente que o ministro do STF Flávio Dino é ligado ao Comando Vermelho.

Histórico de André Janones

  • Fez um xingamento homofóbico a Nikolas Ferreira no plenário;
  • Declarou que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro não era “incomível”;
  • Respondeu a processo por rachadinha e teve de pagar multa.

Problema não vem de hoje

O incômodo com baixarias vem desde 2023. Presidente da Câmara na época, Arthur Lira (PP-AL) tentou uma solução negociada e feita nos bastidores.

Ele chamou deputados experientes e pediu que conversassem com os recém-chegados. Solicitou que fosse explicado o dano na imagem da Câmara com confusões e que o comportamento de campanha deveria ser abandonado após o início do mandato.

A tentativa não surtiu efeito. Lira apelidou este grupo de parlamentares de “deputados teatrais”. Era uma crítica dele à prioridade de ir para a Câmara buscando cortes lacradores para as redes sociais. Mas ele também foi inefetivo em coibi-la.

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