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O movimento não seria inédito. Trump já postergou ou desistiu de taxas em algumas ocasiões desde o início de seu segundo mandato, em janeiro. Graças a isso, ele acabou sendo taxado em memes como TACO, acrônimo para Trump Always Chickens Out, algo como Trump sempre amarela, o que enfureceu o presidente.
“Agora que ficou claro pro Trump que não vamos entregar uma orelha ou um dedo da nossa Constituição e negociar com a independência do Judiciário, Trump precisa de uma saída honrosa para poder recuar nas tarifas e não dinamitar o café da manhã dos americanos, impondo tarifas sobre o suco de laranja e o café deles”, diz um embaixador brasileiro que está a par das negociações com os americanos.
“Ele então devolveria o assunto para uma área técnica e condicionaria as tarifas ao resultado da investigação, mantendo ainda a possibilidade e a pressão sobre o Brasil mas sem o custo inflacionário da medida”, explica o mesmo diplomata.
A investigação do USTR se baseia numa lei americana de 1974 e prevê a possibilidade de que os trabalhos se estendam por meses ou mesmo anos. O objetivo é não apenas apurar práticas desleais de comércio como lançar mão de opções para resolver o impasse de modo conciliatório. Isso significa tempo e condições para tentar uma negociação, o que anima a diplomacia brasileira.
Tarifas só poderiam ser impostas com esta justificativa após o fim da investigação. E, constitucionalmente, Trump precisa de justificativas específicas para impor taxas a outros países e que, de outro modo, podem ser completamente derrubadas na Justiça. Parte de seu tarifaço, aliás, já está sob judice e espera novas decisões nas cortes americanas.
Além disso, a investigação do USTR tem que estabelecer alvos. Neste caso, o foco é multisetorial, incluindo de big techs ao etanol, passando por questões de propriedade intelectual e desmatamento. Embora ampla, a investigação abre a possibilidade de que eventuais taxas sejam colocadas de modo específico a alguns produtos, e não linearmente sobre toda a produção brasileira como a anunciada por Trump.
América First?
As taxas foram anunciadas no último dia 9, em uma carta na qual Trump listava suas justificativas. Duas de cunho político, uma de fundo econômico.
Em primeiro lugar, ele mencionava o processo judicial por golpe de Estado contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, ao qual chamou de “caça às bruxas”.
Em segundo, as decisões do Supremo Tribunal Federal de regulação das big techs, nas quais Trump viu violação da liberdade de expressão de cidadãos americanos e prejuízo financeiro às redes sociais americanas.
E por fim, mencionava um “insustentável déficit comercial” com o Brasil, que na verdade não existe. Os EUA sustentam superávit na balança comercial desde 2008. Questionado pela imprensa americana sobre porque impunha tarifas a um país com quem os americanos tinham vantagem no comércio, Trump respondeu: “eu faço porque eu posso”.
Pouco mais de uma semana após o anúncio das tarifas, que devem entrar em vigor no dia 1º de agosto, Trump colheu pressões domésticas. Isso porque o Brasil é o produtor de cerca de 70% de todo o suco de laranja bebido nos EUA, e de 1 em cada 3 cafezinhos que os americanos levam à boca. A perspectiva de pagar 50% mais caro em seu café da manhã não pegou bem na opinião pública americana. “
“É uma ideia sem nenhum sentido e que nem remotamente atende aos melhores interesses dos americanos, sejam eles empresários ou consumidores. Não conheço um único economista que pense o contrário”, resumiu à coluna Justin Wolfers, professor de economia da Universidade de Michigan.
Wolfers relembra que Trump se elegeu sob o mote do América First, ou EUA primeiro, e a medida contra o Brasil contraria essa ideia.
Dados da inflação do país divulgadas essa semana mostra a maior aceleração no aumento de preços dos últimos 6 meses – e tem sido explicada pelas tarifas já impostas. As tarifas do Brasil pressionaram ainda mais o índice de preços, um dos mais temas mais sensíveis na política doméstica dos EUA.

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