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O governo tem se esquivado sobre o uso da reciprocidade econômica contra os Estados Unidos nos últimos dias, mas está seguindo o passo a passo estabelecido pela lei regulamentada pelo presidente Lula (PT) nesta semana.
O que aconteceu
O governo já realizou duas das três condicionantes impostas para a “adoção das contramedidas”. O artigo 9º estabelece que, antes de enviar o pedido de reciprocidade para a Camex (Câmara de Comércio Exterior), é preciso indicar as “medidas unilaterais adotadas que impactem negativamente a competitividade internacional brasileira” —neste caso, os 50% de taxação.
Além disso, o governo tem de “designar os setores econômicos afetados”. Desde ontem, o governo formou um comitê interministerial para ouvir empresários e entidades do setor privado que sofrem o maior impacto com o aumento das tarifas.
Por fim, é preciso evidenciar no pedido uma “estimativa do impacto econômico” causado pelas ações propostas. Até agora, o governo não divulgou este número, mas cada setor tem projetado o seu.
Usar ou não?
Lula tem falado em usar a lei, mas integrantes do Planalto dizem que só “em último caso”. A legislação é vista como uma carta que precisa estar na manga, para que o governo tenha agilidade caso entenda que precisa agir, mas a ideia é manter a articulação diplomática como primeira estratégia.
Este foi o pedido dos empresários durante as reuniões do comitê de emergência. Nos encontros, os setores produtores insistiram que o governo foque no diálogo —e talvez propor uma extensão do prazo original para a entrada em vigor das novas taxas (1º de agosto)— em vez da reciprocidade. O temor é que a queda de braço vire uma guerra tarifária entre os dois países, e o produtor brasileiro saia como derrotado.
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), coordenador do comitê, tem fugido do tema. Questionado sobre o uso da lei após os encontros com os empresários, ele voltou a dizer que ela é uma ferramenta vigente, mas, sem se estender, e deixou claro que a decisão está na mesa do presidente.
O embate no governo é entre equilibrar o discurso político e as demandas do setor econômico. Lula e membros do governo dizem considerar a retaliação proporcional essencial para a soberania do governo (e seu discurso), ao passo que a equipe econômica pondera que isso poderia fazer perder parte relevante do apoio do empresariado que surgiu nesses dias.
Alckmin insistiu que vai seguir com a negociação e não descartou um pedido de prorrogação do prazo. “É urgente. O bom é que se resolva nos próximos dias. Se houver necessidade de prorrogar, não vejo problema. O interessante é resolver. Esse é o sentimento geral. As empresas americanas também estão preocupadas”, afirmou o vice-presidente na quarta.
É preciso combinar com Lula. Especialmente ao improvisar, o presidente sai do script e gera burburinhos como o de ontem, quando prometeu taxar as “empresas americanas digitais”, em um discurso para movimentos estudantis em Goiânia.
A afirmação vai de encontro às conversas realizadas por Alckmin nesta semana. O comitê só falou em diminuir as taxações, não em aumentá-las. Diferentemente de todas as vezes que tratou do assunto, no entanto, o presidente não falou mais em reciprocidade.

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