Verde-amarelo e camisa da seleção: Lula avança sobre símbolos bolsonaristas

O verde-amarelo da bandeira brasileira saiu de cena nas janelas de casas bolsonaristas e reapareceu no congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes). Com a recente disputa tarifária com os Estados Unidos, o PT e o governo Lula têm avançado sobre símbolos patrióticos, ligados à direita conservadora nos últimos anos.

O que aconteceu

“Retomar a bandeira” é um mote de Lula desde as eleições de 2022, mas que nunca pegou. Por mais que a comunicação do governo tenha focado em uma identidade visual com cores múltiplas, em eventos populares o vermelho petista sempre prevaleceu às cores do Brasil, ligadas hoje ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Os anúncios e ameaças do presidente norte-americano Donald Trump contra o Brasil têm sido vistos como um ponto de virada. Pesquisas recentes mostram que a reação de Lula foi bem aceita pela população e que as insistências de interferência no julgamento de Bolsonaro não pegaram bem para o ex-presidente e seu entorno.

O governo quer se aproveitar disso. Em manobra alinhada, as redes sociais da Secom (Secretaria de Comunicação) e do PT alçaram “soberania nacional” ao tema principal, superando inclusive a bem-sucedida campanha de taxação dos super-ricos.

A estratégia também tem seus riscos. Petistas ponderam que há seus riscos e que uma possível crise econômica causada pelas tarifas pode se virar contra Lula.

A nova pauta

“Quem manda no Brasil é o povo brasileiro”, diz um jingle em melodia de samba divulgado nas redes socias do governo nesta semana. Nas imagens, cidadãos de várias etnias balançam a bandeira nacional, pintam o rosto de verde e amarelo e batem no peito em sinal patriótico.

Comandada pelo publicitário Sidônio Palmeira, a Secom abraçou a pauta de vez. O mote da comunicação do governo é simples: adversários ficam em uma sinuca de bico quando o governo fala em defender os interesses nacionais, seja de forma mais abstrata (como “soberania”), seja de maneira mais prática (economia).

Com ideais-base como o patriotismo por tantos anos, a oposição fica em desvantagem ao criticar o governo por “defender o Brasil”, avaliam aliados. “É o Brasil em primeiro lugar”, continua o samba da Secom, em brincadeira com o “America first” (“América primeiro”, em tradução livre), um dos slogans de Trump.

Tudo isso está sendo alinhado com o PT, a base aliada e os movimentos sociais. “O Brasil se une pela soberania”, expunha o telão, do 60º Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), em Goiânia, com a presença de Lula na última quinta. Bandeirinhas do Brasil foram distribuídas junto a flâmulas da organização e diversos militantes usaram camisas da seleção brasileira ou verde-amarelas.

Lula também entrou com tudo no discurso. Orientado por Sidônio, ele voltou o comunicado à nação na quinta-feira a criticar o que chamou de “traidores da pátria”. “Minha indignação é ainda maior por saber que esse ataque ao Brasil tem o apoio de alguns políticos brasileiros”, disse o presidente.

[Bolsonaro] fica abraçado na bandeira americana, esse patriota falso. Nós vamos tomar a bandeira verde e amarela. A bandeira verde e amarela vai voltar ao povo brasileiro.
Lula, no congresso da UNE, nesta quinta

O governo tem avançado, inclusive, em conquistas que os bolsonaristas tomam pra si, como o Pix. Uma das principais revoluções econômicas do país nas últimas décadas, o sistema de transferência lançado pelo Banco Central durante a gestão Bolsonaro é alvo de investigação econômica dos Estados Unidos, por ordem de Trump.

O governo e o PT passaram a se colocar, então, como defensores da inovação. “[OS EUA estão] preocupados com o meio de pagamento que um país adota e é abraçado por toda a população, empresas, sistema financeiro, que é o Pix. É inacreditável algo dessa natureza”, criticou o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, em discurso no Planalto na última quarta.

A avaliação é que o sistema é um dos mais populares do país hoje e que o receio de que ela seja prejudicada é uma arma política forte. Se o governo conseguir trazer para si a defesa da plataforma, como está tentando, conseguiria mais simpatia do eleitor chamado “moderado” e evitaria críticas até de bolsonaristas, que a usam diariamente.

Propaganda patriótica da Secom: verde-amerelo como nova pauta da esquerda
Propaganda patriótica da Secom: verde-amerelo como nova pauta da esquerda Imagem: Reprodução/X/Gov.BR

“Inimigo” em comum

Aliados não escondem a impressão de que a postura de Trump deu uma “ajudinha” ao governo. Depois de dois anos e meio, a comunicação conseguiu achar um “inimigo” que pudesse reunir diversos grupos diferentes (como já foi, por exemplo, a inflação no governo FHC ou a fome no Lula 1 e 2) em uma pauta positiva para a gestão.

A nova comunicação tem tentado achar esse ponto de intersecção desde que assumiu. Da mesma forma com que tratou a “defesa da democracia” durante a campanha de 2022, Sidônio procurava por este denominador comum.

É uma estratégia com mais chances de dar certo do que a dos “super-ricos”, dizem governistas. A pauta de reforma fiscal, que inclui o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e a isenção do Imposto de Renda, ia bem nas redes, mas tem resistência interna. Já as tarifas de Trump mexem de forma unilateral na economia brasileira (prejudicando mais certos setores, mas impactando a todos), até os menos afeitos ao governo

Com isso, o governo tem tentado tornar a relação da família Bolsonaro com Trump, tida como trunfo por bolsonaristas, como algo prejudicial. Lula tem repetido com frequência que o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) “foi mandado” aos Estados Unidos para “salvar o pai”.

“O Bolsonaro já abraça a bandeira americana, transfira seu título para lá e vai votar lá”, disse Lula na UNE. “Porque aqui quem manda somos nós, brasileiros.”

Há seus riscos

Governistas ponderam, no entanto, que a estratégia é cravada no sucesso das negociações. A avaliação, inclusive de membros da comunicação, é que as falas de Lula funcionam à medida que Trump está “sendo desproporcional”, mas que o ônus de uma crise ficará com a gestão.

A equipe econômica tem se debruçado sobre isso. Membros da Fazenda, do Orçamento e da Indústria e Comércio, que compõem o comitê de emergência junto ao empresariado, dizem que os setores produtivos, por ora, seguem com o governo por verem empenho em resolver a situação, mas que um possível estrago na economia recairá invariavelmente sobre o petista.

No fim, ninguém quer saber de quem é a culpa, argumentam. Se as tarifas se mantiverem, por exemplo, e isso reverter as tendências de queda de desemprego e inflação, articuladores dizem avaliar que o eleitor provavelmente mostrará insatisfação com ambos: seguirá rejeitando Donald Trump, mas quem vai concorrer é Lula.

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