Oeiras é um dos exemplos de cidades pobres do Brasil que foram negligenciadas na distribuição de emendas pelo Congresso, enquanto há municípios mais desenvolvidos que se tornaram canteiros de obras permanentes.
Situada na região da Ilha do Marajó, a cidade tem 84% da sua população no programa Bolsa Família e decretou estado de emergência duas vezes nos últimos dois anos.
A infraestrutura precária, sem estradas pavimentadas, dificulta o acesso da população à saúde e a mantimentos.
Nos últimos cinco anos a cidade recebeu R$ 4,5 milhões em emendas. Se a distribuição de recursos pelos congressistas tivesse tido como critério os indicadores de desenvolvimento, a cidade teria recebido dez vezes mais: R$ 44 milhões.
“Eu sacrifico as outras secretarias para conseguir manter algum dinheiro na saúde”, diz Gilma Ribeiro (PMN), líder ribeirinha em seu 2º mandato como prefeita.
Ela diz que chegou a tirar o ultrassom e equipamentos de laboratório da sede da cidade para colocar na UBS fluvial e chegar às comunidades ribeirinhas.

“Ainda assim, temos pescadores com vários problemas de coluna, fraturas nos braços. Mas o raio-X é um aparelho muito grande. Sonho com ter recursos para comprar um raio-X portátil e um ultrassom portátil”, diz a prefeita, que cita os surtos de malária (800 casos este ano) como outro grande problema da cidade.
O outro extremo: os ‘privilegiados’
No lado oposto da distribuição de emendas estão os municípios de Roraima e Amapá. Esses estados, com um número elevado de congressistas em relação à população, recebem os maiores valores per capita de emendas.
Iracema (RR) é um exemplo. Com menos de um terço da população de Oeiras do Pará e melhores indicadores sociais, recebeu R$ 159 milhões em emendas desde 2020.
Enquanto Oeiras do Pará teve R$ 135 por habitante, Iracema acumulou R$ 15.900 por cidadão.

Nas redes sociais, Jairo Ribeiro, prefeito de Iracema entre 2017 e 2024, exibe a construção de praças, ginásios esportivos, uma biblioteca e um centro de comercialização.
Somente a pavimentação e recapeamento de ruas consumiram mais de R$ 55 milhões em emendas nos últimos anos.
Há ainda uma profusão de programas sociais, como o “Leite na Mesa”, o “Gás para Você” e o “Jovem Sou Eu”, além da distribuição frequente de cestas básicas.
Desigualdade na vizinhança
A representatividade no Congresso influencia, mas não é o único fator. Há também disparidades regionais.
Monção (MA) é um exemplo. Com 65% da população na zona rural, enfrenta problemas similares aos de Oeiras do Pará: infraestrutura precária, comunidades isoladas e deficiências na saúde.
Os políticos locais pedem verbas para pavimentar estradas vicinais, o que resolveria grande parte dos problemas.
Moradores ficam sem acesso a postos de saúde e a escolas devido às estradas intrafegáveis.
Outro problema é a falta de água encanada, que afeta 40% da população. A cidade sofre com surtos de infecções por ameba, giárdia, ascaridíase e outras parasitoses.
“Seria importante investir em postos artesianos para ter água tratada nas comunidades”, diz Daerlio Barros, presidente da Câmara Municipal da cidade.
O investimento, no entanto, não vem.
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