Uma operação da Polícia Federal revelou uma teia criminosa que usava farmácias fantasmas, CPFs de cidadãos inocentes e até terrenos baldios como fachada para desviar milhões de reais do programa federal Farmácia Popular. A estimativa é de que quase R$ 40 milhões tenham sido saqueados dos cofres públicos por meio de fraudes sistemáticas e ramificações que envolvem nomes ligados ao tráfico de drogas.

A investigação encontrou farmácias supostamente credenciadas funcionando em lotes vazios tomados pelo mato. Um desses estabelecimentos chegou a ser registrado com um número de telefone de João Pessoa (PB), mas o endereço físico era inexistente. O telefone, por sua vez, estava no nome de Célia Aparecida de Carvalho, apontada como responsável por fornecer CNPJs “de aluguel” usados pelo esquema.
A rede de corrupção não parava nos registros fantasmas. Segundo a PF, cerca de 160 mil CPFs de brasileiros foram usados indevidamente para forjar a retirada de medicamentos subsidiados — muitos deles de alto custo. O Farmácia Popular é um programa do Ministério da Saúde que oferece medicamentos gratuitamente ou com até 90% de desconto à população, mediante apresentação de receita, CPF e documento oficial.
“Todos os dias nós combatemos cerca de 140 mil tentativas de fraudes no sistema”, alertou Rafael Bruxellas Parra, diretor do Departamento Nacional de Auditoria do SUS.
Entre os casos identificados, está o do dentista Gustavo, morador de Sumaré (SP), que descobriu ter sido vítima do golpe ao acessar o aplicativo Conecte SUS. “Nunca tive diabetes, nunca precisei de insulina. E lá constava que eu retirava 20 caixas por mês”, relatou. As retiradas fraudulentas estavam registradas em nome de uma drogaria em Campo Belo (MG).
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O golpe, no entanto, vai além da falsificação de cadastros. A polícia identificou Francisca Ferreira de Souza, uma empregada doméstica que aparece nos registros como proprietária de cinco farmácias em diferentes estados. Apesar de viver em uma casa modesta em Luziânia (GO), Francisca teria movimentado quase R$ 500 mil apenas com uma das drogarias investigadas.
Ela é casada com Brazilino Inácio dos Santos, também alvo da PF, que aparece como sócio de dez empresas usadas para a movimentação de dinheiro ilícito. Apenas entre 2018 e 2019, essas empresas teriam movimentado mais de R$ 2,5 milhões.
As investigações buscam esclarecer se os recursos desviados foram repassados a Fernando Piolho, outro personagem central no esquema. Célia Aparecida também aparece negociando CNPJs com Adriano Rezende Rodrigues, conhecido como “Adriano Tatu”. Uma farmácia da qual Tatu é sócio, em Cerquilho (SP), teria recebido quase R$ 1 milhão do programa federal.
Ao todo, a PF identificou 148 farmácias — entre reais e de fachada — envolvidas no desvio de verbas públicas. O caso expõe não apenas um rombo milionário em um dos principais programas de acesso a medicamentos do país, mas também uma rede que mistura corrupção, tráfico e falsidade ideológica para enriquecer às custas da saúde da população brasileira.
A investigação segue em curso, e novos desdobramentos não estão descartados.