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Faltando 10 dias para começar a valer a tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras enviadas aos Estados Unidos, o governo federal busca alternativas para minimizar o impacto da decisão de Donald Trump contra a economia nacional.
O que o Brasil pode fazer
Lei da Reciprocidade aparece como carta na manga do governo. Aprovada pelo Congresso no início das discussões a respeito do “tarifaço de Trump”, a decisão foi regulamentada por Lula após a definição da taxa de 50% sobre os produtos brasileiros. A lei autoriza que o Brasil adote uma tarifa semelhante para punir a taxação aplicada contra as vendas brasileiras.
Regulamentação permite limitar as importações de bens e serviços. A adoção da restrição para os EUA seria prejudicial para as empresas norte-americanas que negociam com o Brasil. Além disso, fica autorizada a suspensão de concessões comerciais e de investimentos e o descumprimento das obrigações relativas a direitos de propriedade intelectual.
Governo diverge sobre adoção da reciprocidade contra os EUA. Ainda que Lula se manifeste a favor do uso da lei como forma de retaliação, membros do Planalto avaliam a alternativa deve ser acionada somente “em último caso”. Até lá, a defesa majoritária é pela manutenção da articulação diplomática.
Fernando Haddad descarta pagamento “na mesma moeda”. O ministro da Fazenda afirma que a aplicação de tarifas unilaterais não está entre os mecanismos articulados pelo governo. “Não podemos pagar na mesma moeda uma coisa que consideramos injusta”, disse ele.
Todo e qualquer cidadão será tratado com a mesma dignidade e as empresas que têm relações, às vezes centenárias com o Brasil, vão ser tratadas com a dignidade que merecem.
Fernando Haddad, ministro da Fazenda
Haddad revela que governo estuda plano de contingência. Na mesma entrevista, o ministro destacou a elaboração de um plano para limitar os efeitos do tarifaço com diferentes instrumentos da política econômica. “O plano de contingência somos obrigados a fazer. É uma situação emergencial que não se previa”, disse ele. “Pode ser que tenhamos que recorrer a instrumentos de apoio a setores que injustamente estão sendo afetados”, reforçou.
Quebra de patentes norte-americanas seria outra forma de retaliação. A medida, prevista pela Lei da reciprocidade, autoriza o Brasil a fabricar produtos similares aos criados pelos norte-americanos, sem a necessidade de pagar pelos direitos de propriedade. A decisão atingiria, principalmente, os segmentos farmacêutico e de tecnologia.
Taxação das empresas de tecnologia pode entrar no radar do governo. O aumento de impostos e corte de benefícios das gigantes do Vale do Silício também aparecem como possível opção de retaliação. As chamadas “big techs” viraram alvo da regulamentação no STF (Supremo Tribunal Federal), movimento que desagrada Trump. “A gente vai julgar e vai cobrar imposto das empresas digitais americanas. Não aceitamos, em nome da liberdade de expressão, você ficar utilizando [as redes sociais] para fazer agressão, para contar mentira e prejudicar”, disse Lula na semana passada.
O que aconteceu
Exportações brasileiras para os EUA serão taxadas em 50%. A tarifa foi anunciada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, no início deste mês e coloca em xeque a relação comercial de mais de 200 anos entre duas economias. A previsão de que as taxas começarão a valer a partir de 1º de agosto movimenta o governo e setores empresariais na tentativa de contornar as cobranças.
Os EUA são o segundo principal parceiro comercial do Brasil. A taxação pegou o governo brasileiro de surpresa devido ao saldo positivo estadunidense na relação. Dados da Amcham (Câmara Americana de Comércio para o Brasil) mostram que a balança comercial do primeiro semestre de 2025 foi superavitária em R$ 1,7 bilhão para os EUA, resultado quase 500% superior ao registrado no mesmo período do ano passado.
Governo busca alternativas para reverter os impactos do “tarifaço”. Desde a oficialização da cobrança de 50% sobre todas as exportações nacionais, uma comitiva capitaneada pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, se reúne com setores produtivos em busca de uma solução para os setores que serão os mais prejudicados com a taxação. Os encontros tentam definir estratégias de posicionamento para limitar os efeitos das tarifas.
Negociações diretas com a Casa Branca não avançam. O Ministério das Relações Exteriores diz negociar com os Estados Unidos desde março e garante estar aberto para debater a relação comercial. “Mandamos uma segunda carta proposta na semana passada, em acréscimo à de maio, para a qual nós não obtivemos resposta”, relatou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em entrevista à Rádio CNN. Em falas recentes, ele ressalta que se reuniu com o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, em uma conversa que tratou da tarifa de 10% sobre as vendas brasileiras como “injusta”.
O que mudou de dois meses para cá, para que uma autoridade dos Estados Unidos estivesse aberta a discutir uma redução da tarifa de 10% e, no meio do caminho, você acorda com a notícia de que de 10% passou a ser 50%?
Fernando Haddad, ministro da Fazenda
Empresários clamam pelo adiamento das cobranças. “O que ouvimos [dos setores que serão afetados pelo tarifaço] é: negociação e empenho para rever [os anúncios]”, afirmou Alckmin após uma das reuniões realizadas nas últimas semanas. Os setores indicam preferir o caminho do adiamento e redução das alíquotas do que da reciprocidade. Em entrevista à CNBC no último final de semana, Bessent, afirmou que os EUA não têm presa para formalizar os acordos, mas ressaltou que cabe a Trump validar eventuais adiamentos das tarifas.

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