O número de escolas que tiveram o calendário letivo interrompido por episódios de violência cresceu 245,6% no Brasil entre 2021 e 2023. Os dados fazem parte do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, divulgado nesta quinta-feira (24), e revelam um cenário alarmante: 3,6% das escolas cujos diretores responderam ao questionário do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) em 2023 relataram ter suspendido atividades por causa da violência. Em 2021, o percentual era de apenas 1%.
Esse crescimento acompanha a escalada de episódios de violência extrema contra escolas no país. Somente em 2023, foram registrados 15 ataques consumados, contra 10 em 2022, além de uma série de ameaças e tentativas que causaram pânico e resultaram na suspensão preventiva das aulas em diversas redes.
Segundo uma pesquisa do Inep em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 12,6% das escolas brasileiras relataram ter sido alvo de ameaça ou tentativa de ataque nos 12 meses anteriores à coleta de dados. Em outras palavras, uma em cada oito escolas vivenciou, direta ou indiretamente, o risco iminente de um atentado.
| Unidade da Federação | Taxa de Interrupção (%) |
|---|---|
| Acre | 2,7 |
| Alagoas | 1,5 |
| Amapá | 4,8 |
| Amazonas | 3,4 |
| Bahia | 5,1 |
| Ceará | 2,9 |
| Distrito Federal | 3,2 |
| Espírito Santo | 2,0 |
| Goiás | 1,7 |
| Maranhão | 2,8 |
| Mato Grosso | 1,9 |
| Mato Grosso do Sul | 1,5 |
| Minas Gerais | 1,3 |
| Pará | 3,4 |
| Paraíba | 2,7 |
| Paraná | 1,8 |
| Pernambuco | 1,9 |
| Piauí | 1,6 |
| Rio de Janeiro | 8,7 |
| Rio Grande do Norte | 29,0 |
| Rio Grande do Sul | 3,2 |
| Rondônia | 0,8 |
| Roraima | 4,0 |
| Santa Catarina | 7,7 |
| São Paulo | 1,9 |
| Sergipe | 1,4 |
| Tocantins | 2,1 |
Essas informações foram obtidas por meio do “Questionário do Diretor” do SAEB, um instrumento que capta a percepção dos gestores escolares sobre aspectos do cotidiano educacional. Embora tenha natureza subjetiva, a resposta à pergunta “O calendário escolar foi interrompido por episódios de violência?” é objetiva e mensurável. A análise, portanto, mostra tendências concretas sobre o impacto da insegurança nas instituições de ensino.
Em 2023, o questionário foi aplicado em 73.595 escolas, abrangendo 41,2% das instituições de educação básica do país. Dessas, cerca de 61 mil responderam às perguntas sobre violência. A maioria das respondentes pertence às redes públicas estaduais e municipais – as privadas foram apenas 4,6%.
O Rio Grande do Norte registrou 29,0% de escolas que interromperam o calendário, aproximadamente oito vezes acima da média nacional. Em março de 2023, ações coordenadas por facções em 19 municípios potiguares resultaram em tiroteios, toques de recolher, suspensão de aulas e até paralisação do transporte público. Em seguida vêm Rio de Janeiro (8,7%) e Santa Catarina (7,7%) — neste último, impulsionado pelo ataque a uma creche em Blumenau, em abril daquele ano.
Em Mato Grosso, apenas 1,9% das escolas relataram interrupção do calendário em 2023, índice inferior ao de 2021 (2,5%) e bem abaixo da média nacional. Isso sugere que, apesar de episódios pontuais, o estado sofreu menos paralisações em comparação a outras regiões.
Bahia, Amapá e Amazônia também acima da média
Na Bahia, 5,1% das escolas suspenderam as atividades, reflexo de confrontos entre quadrilhas e operações policiais; no Amapá, 4,8%; e em Amazonas e Pará, 3,4% cada. Todas essas taxas se situam acima da média nacional de 3,6%. Já o Distrito Federal aparece com 3,2% de paralisações, superando várias unidades federativas do Centro‑Oeste.
O aumento das interrupções foi registrado em todas as Unidades da Federação, segundo o anuário. Embora os ataques mais graves tenham maior visibilidade, os especialistas destacam que o problema é multicausal: vai desde conflitos interpessoais no ambiente escolar até o medo gerado pelas ameaças em redes sociais, muitas vezes associadas a datas sensíveis como aniversários de atentados anteriores.
Para os pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o fenômeno não pode ser compreendido apenas sob a ótica punitiva ou reativa. É necessário investir em políticas preventivas, promover o fortalecimento das redes de proteção à infância e juventude e ampliar o diálogo com a comunidade escolar.
A pesquisa também chama atenção para a urgência de combater o pânico moral e a desinformação, que podem causar paralisações mesmo na ausência de fatos concretos. Ao mesmo tempo, ressalta-se que a sensação de insegurança tem base em vivências reais e deve ser acolhida com seriedade.
Com o retorno das atividades presenciais após a pandemia, a convivência escolar retomou força — e, com ela, vieram à tona situações que estavam represadas. O desafio agora é construir um ambiente escolar mais seguro, humano e capaz de prevenir novas tragédias antes que elas se repitam.
Baixa letalidade, alta percepção de risco
Embora as paralisações tenham aumentado, 95,4% das escolas afirmaram não ter sofrido atentados consumados à vida em 2023 — leve recuo ante os 96,1% de 2021. Quanto a tiroteios ou “balas perdidas”, 98,2% negaram ocorrência (98,0% em 2021). O Rio de Janeiro, contudo, destacou‑se com 13,4% das unidades relatando incidentes desse tipo, principalmente na Zona Norte, Baixada Fluminense e Centro, segundo mapeamento do Instituto Fogo Cruzado e Unicef.
Agressões físicas
Escolas que nunca registraram lesão corporal caíram de 93,8% (2021) para 78,3% (2023).
Furtos e roubos
Proporção sem ocorrência recuou de 81,2% para 73,4%, com destaque para Distrito Federal e Mato Grosso do Sul.
Assédio sexual
Casos nunca ocorridos diminuíram de 97,2% (2021) para 92,0% (2023), sinalizando maior registro.
Bullying e cyberbullying
Apenas 32,5% das escolas não presenciaram episódios em 2023, ante 56,0% em 2021.
