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À decisão, fruto de uma ação do Ministério Público, cabe recurso.
Falando a um podcast em outubro de 2022, Bolsonaro tentou transformar uma visita que fez a uma casa em São Sebastião (DF) para criar uma história de exploração sexual de crianças e adolescentes, aproveitando para bater na Venezuela, seu espantalho preferido.
“Parei a moto numa esquina, tirei o capacete e olhei umas menininhas, três, quatro, bonitas, de 14, 15 anos, arrumadinhas num sábado numa comunidade. E vi que eram meio parecidas. Pintou um clima, voltei, ‘posso entrar na tua casa?’ Entrei”, afirmou.
“Tinha umas 15, 20 meninas, sábado de manhã, se arrumando, todas venezuelanas. E eu pergunto: meninas bonitinhas, 14, 15 anos se arrumando num sábado para quê? Ganhar a vida. Você quer isso para a tua filha, que está nos ouvindo aqui agora. E como chegou neste ponto? Escolhas erradas.”
Reportagem de Camila Turtelli e Amanda Rossi, no UOL, encontrou, logo depois, uma das venezuelanas envolvidas na história que explicou que, quando Jair visitou o local, estava sendo promovido um curso de estética para refugiadas. E, entre as adolescentes, estava sua filha e sua sobrinha. Ou seja, a entrevista de Bolsonaro ao podcast ainda transformou um projeto social em uma casa de aliciamento de meninas só para ser útil à sua narrativa.
A estratégia de levar a batalha eleitoral para o campo dos costumes e do comportamento, especialmente a sexualização de crianças e adolescentes, pode ter conseguido muitos votos para o ex-presidente. Mas, neste caso, por culpa exclusivamente dele, lhe trouxe dor de cabeça. Poderia ter dito que sentiu “empatia” com as adolescentes ou “pena” por elas. Acabou cometendo um ato falho que empurra para anos de terapia. O país inteiro, não ele.
Em meio à polêmica instalada, Bolsonaro postou um vídeo com uma tentativa de pedido de desculpas. De forma surreal, criticou quem ficou indignado por suas falas. “Se as minhas palavras, que, por má-fé, foram tiradas de contexto, de alguma forma foram mal entendidas ou provocaram algum constrangimento às nossas irmãs venezuelanas, peço desculpas”, afirmou.
A expressão “pintou um clima” usada por um homem na época com 67 anos para se referir a meninas de 14 é abjeta e inaceitável em qualquer contexto, mesmo se considerarmos um alto nível de condescendência diante das dificuldades linguísticas do presidente. Isso sim é humilhação, auto-inflingida, claro.

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