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Senadores do campo da direita radical falam em construir uma “frente ampla” pelo impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes — embora não tenham maioria para isso na Casa. Por trás da mobilização, o objetivo é antecipar a estratégia de dominar o Senado em 2026.
O que aconteceu
Damares Alves (Republicanos) e Magno Malta (PL-ES) encabeçaram o discurso pelo pedido de impeachment de Moraes. “Será a pauta que a oposição vai trabalhar nos próximos dias”, disse Damares, rodeada de senadores da direita radical. A ex-ministra do governo Bolsonaro atribuiu a Moraes a “culpa” pelo tarifaço de Donald Trump e o acusa de violar direitos de presos condenados pelo 8 de Janeiro.
Nos bastidores, porém, líderes de direita sabem que dar andamento ao processo de impeachment agora não é simples. O UOL conversou com senadores que afirmam que não há maioria para isso, nem o apoio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
A ideia, segundo senadores, é “fazer barulho para a renovação do Senado no ano que vem”. A meta da direita é dominar as cadeiras e conquistar dois terços das vagas nas próximas eleições.
O impedimento do ministro não está na pauta da presidência da Casa. A decisão do presidente do Senado pautar o tema é o primeiro passo para o início do processo de impeachment. “Se ele [Alcolumbre] não der andamento, nada acontece”, explica Fernando Neisser, advogado e coordenador da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Penal). “Há uma série de passos que devem ser seguidos até que ocorra um eventual afastamento.”
Malta admite dificuldade para levar o tema ao comando do Senado neste momento. “Não vamos recuar diante do silêncio conveniente de quem deveria zelar pelo funcionamento democrático do Congresso Nacional”, disse. O senador chegou a ameaçar Moraes caso Bolsonaro seja preso: “Põe a mão nele e tenta a sorte. O azar você já tem”, disse, durante o discurso que fez ao lado de Damares.
Tramitam no Senado 29 pedidos de impeachment contra Moraes. O último foi apresentado na quarta-feira pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O filho de Jair Bolsonaro (PL) acusa o ministro do STF de impor medidas cautelares severas e desproporcionais contra o ex-presidente e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Quantos votos seriam necessários no Senado
São necessários 54 votos na Casa para o impeachment de um ministro do STF. Hoje, são 26 os senadores que compõem partidos mais alinhados à extrema direita — alas do PL, PP, Republicanos e Novo. “Esses partidos são historicamente da direita fisiológica, mas há figuras de extrema direita neles. Digamos que eles ajudam a ‘normalizar’ a extrema direita pela adesão, muitas vezes acrítica, ao bolsonarismo”, afirma Guilherme Casarões, cientista político do Observatório da Extrema Direita. “Embora nasça como partido genuinamente liberal, o Novo também adere acriticamente às agendas bolsonaristas.”
Se houver decisão favorável do presidente para abertura do processo de impeachment, ele teria de nomear uma comissão com 21 senadores. “Essa comissão faz um parecer, por maioria simples, com no mínimo 11 votos”, diz Neisser. “Se entenderem que há pertinência, encaminham para o plenário.”
No plenário, também teria de ocorrer uma decisão por maioria simples — 41 senadores, se estiverem presentes os 81. Nesse caso, Neisser explica que o ministro do STF é notificado para que apresente a defesa. “Depois disso, há uma nova votação, a fase da produção das provas e admissibilidade oficial do processo por maioria simples.
Se o processo for aberto, o ministro fica afastado do STF, à espera do julgamento. É nessa última etapa que é necessário ter 54 votos, ou seja, dois terços do total.
Falta de consenso na direita
Impeachment não é consenso nem entre os parlamentares da direita. Aliada de Bolsonaro, a senadora Margareth Buzzetti (PSD-MT) disse que “não adianta jogar lenha na fogueira sem o apoio” de Alcolumbre.
Não adianta termos comissões se o presidente do Senado não sinalizar que quer o impeachment.
Senadora Margareth Buzzetti (PSD-MT)
“Somente ‘bolsonaristas raízes’ encampariam a proposta, diz Marco Antônio Teixeira, cientista político da FGV. “A atual situação imposta pelo tarifaço de Trump os isolou ainda mais nessa tentativa. É improvável que eles reúnam o número necessário de senadores, então fazem a estratégia do barulho. Eles estão tentando agravar um clima de instabilidade.”
Mais vagas em 2026
Plano de abocanhar mais vagas no Congresso foi publicamente anunciado por Bolsonaro. Em junho, no ato em que participou na avenida Paulista, em São Paulo, o ex-presidente pediu do alto de um trio que os apoiadores elejam 50% da Câmara dos Deputados e do Senado. O pedido faz parte da estratégia de avançar em pautas consideradas prioritárias para a direita radical.
Para 2026, senadores da direita radical querem fortalecer a pauta conservadora. Malta diz que o objetivo é ampliar o número de parlamentares comprometidos com “a pauta conservadora, a liberdade e o reequilíbrio institucional”. Segundo ele, há espaço para crescimento nas regiões Norte, Centro-oeste e Sul e redutos do Nordeste.

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