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O Planalto tem acompanhado a situação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas está preocupado mesmo é com as negociações do tarifaço anunciado pelo presidente norte-americano, Donald Trump.
O que aconteceu
Com o início da taxação previsto para a próxima sexta (1º), a conversa não tem avançado. Tanto o governo quanto o próprio presidente Lula (PT) têm dito publicamente que está “tentando dialogar” com Washington, só que não estão tendo respostas para as propostas.
Cético, o governo já passa a “se preparar para o pior”. As opções, discutidas com empresários pelo comitê de emergência nessas duas semanas, são voltadas a amenizar o impacto já considerando que as tarifas vão ser instituídas, pelo menos momentaneamente. Pelo menos 10 mil empresas brasileiras podem ser diretamente afetadas pelo tarifaço, segundo o Ministério da Fazenda.
A equipe econômica estuda um plano de contingência com uma linha de crédito para os setores mais afetados. Seja por meio da criação de um fundo privado ou por meio de financiadores públicos, as áreas que mostrarem que sua projeção de receita foi afetada pelas tarifas teriam o acesso ao crédito facilitado.
O governo também está bolando uma plano para contingenciamento de empregos. Só o setor de indústria citou um cálculo de 110 mil empregos perdidos caso o tarifaço dure. O plano, conforme informou o vice-presidente ao setor de agro, segundo a Folha de S. Paulo, é criar um programa emergencial para evitar demissões que deve ser semelhante ao adotado na pandemia de covid, em 2020.
Os setores vêm pedindo adiamento. Em reuniões com o governo, empresários e entidades afirmaram que o prazo é “inexequível”, e a CNI (Confederação Nacional da Indústria) sugeriu adiar por pelo menos 90 dias para intensificar as negociações.
Essas demandas foram levadas aos norte-americanos. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), também ministro do Comércio e da Indústria, conversou com o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, no sábado (19). Ele não revelou o conteúdo da conversa à imprensa, mas o UOL apurou que foi citado, sim, um pedido de extensão do prazo ou, pelo menos, diminuição da taxa imposta, mas não houve retorno ainda.
Auxiliares de Lula veem a situação como determinante tanto para a situação do país quanto para o próprio governo. Por ora, o presidente tem se saído bem frente à opinião pública, com o discurso de defesa da soberania, mas petistas apontam que, caso as tarifas se mantenham e revertam o quadro de melhora na economia, isso invariavelmente deve recair sobre o Executivo.
Sem perder Bolsonaro de vista
Publicamente, o Planalto diz não se preocupar com o julgamento de Bolsonaro. Ministros brincam que têm “dores de cabeça maiores” para lidar do que com a possibilidade de prisão do ex-presidente por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal).
Mas estrategistas do governo estão de olho. Mesmo inelegível até 2030, o ex-presidente é tido pelo governo como o único com votos no país comparável a Lula e, por mais que as mais recentes manifestações não tenhamm reunido o número de apoiadores que já tiveram, eles dizem entender que uma prisão pode mudar isso.
Para 2026, dizem não haver tempo hábil. Membros do governo veem a prisão do ex-presidente como eminente, mesmo que ocorra só depois do julgamento, o que sepultaria a esperança de concorrer até nos bolsonaristas mais otimistas. Por outro lado, Bolsonaro voltaria a ficar sob os holofotes.
Guardadas as proporções, o processo da Lava Jato e a prisão seguida por absolvição mudaram os rumos políticos de Lula. No Planalto, evitam fazer comparações diretas entre os dois, mas ninguém nega a força de uma narrativa de injustiça, como o bolsonarismo tem tentado, nem possíveis mudanças no Judiciário, como foi o caso do petista.
Não à toa, Lula não tem poupado críticas ao adversário. Em tom mais eleitoral nas últimas semanas, o petista substituiu a repetida crítica de que “encontrou o país em ruínas” pela ligação entre o filho Eduardo (PL-SP) e Trump e pela possibilidade de prisão.
A interferência de Trump jogou contra o ex-presidente. Na avaliação de governistas, ao criar toda a questão do tarifaço usando —e referendando— Bolsonaro como desculpa, o norte-americano jogou o centrão e os chamados “moderados” no colo de Lula e isolou os bolsonaristas, sob a pecha de que estariam mais preocupados com o futuro do capitão do que com a economia brasileira.
Nesta semana, Lula falou pela primeira vez diretamente sobre Bolsonaro ir preso. “A polícia investigou, eles mesmos se delataram. Agora, ele foi indiciado, o procurador-geral [da República] pediu a condenação dele e ele vai, sim, senhor, se a Justiça decidir com base nos autos do processo, ele vai pro xilindró”, disse. Este deverá ser o tom a ser adotado daqui por diante, dizem auxiliares da comunicação.

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