Os contrabandos, avanços e atrasos do novo código eleitoral

Uma das alterações mais controversas diz respeito à participação feminina na política. Embora o código mantenha nominalmente a cota de 30% de candidaturas femininas, ele desobriga o financiamento proporcional dessas candidaturas. “É uma malandragem, porque nominalmente você mantém a cota, mas você acaba com a obrigatoriedade de mandar 30% dos recursos”, opina Toledo. “A cota basicamente são os recursos, né? Porque no discurso é muito fácil”, completa Thaís Bilenky.

O texto estabelece que cada partido deve apresentar percentual mínimo de candidatos por sexo equivalente a 20% do número de vagas, o que na prática representa uma redução significativa. “Isso está gerando uma cota disfarçada de 20%, quer dizer, reduziu em um terço o recurso para as mulheres”, explica o colunista do UOL, lembrando que isso contraria tanto a legislação de 1997 quanto a tendência mundial de ampliar a participação feminina.

Três pontos principais estão emperrando a votação na CCJ, que deveria ter ocorrido em 9 de julho. O primeiro é a quarentena para militares, juízes, promotores e policiais disputarem eleições. O texto original da Câmara previa quatro anos de espera, mas Marcelo Castro reduziu para dois anos. “Mesmo a redução para dois anos, que foi uma tentativa de lubrificar esse artigo e permitir que o código passasse, está sofrendo forte oposição do lobby da bala”, observa Toledo, referindo-se aos grupos de interesse desses profissionais.

O segundo obstáculo envolve as definições de fake news e restrições ao uso de inteligência artificial nas eleições. O artigo 471 define discurso de ódio de forma ampla, baseando-se em tratados internacionais, mas deixa brechas que podem criminalizar discursos de movimentos sociais ou minorias. Por outro lado, a direita considera qualquer restrição como censura que os prejudicaria mais nas eleições.

O terceiro e talvez mais espinhoso tema é o voto impresso. “O Marcelo Castro não colocou, não consta no relatório dele, mas a direita quer porque quer o voto impresso”, revela o colunista. Embora reconheça que seria um “enorme retrocesso”, ele explicou que “quantas votações com voto impresso você fizer, quantas contagens você fizer, você vai encontrar diferentes resultados, porque a coisa mais fácil de fraudar é uma cédula de votação impressa”.

A estratégia da direita é clara: “É um aríete que eles usam para tentar arrombar a porta da justiça eleitoral”, analisa Toledo, lembrando que existe correlação entre confiança nas instituições eleitorais e satisfação com a democracia.

Entre os avanços, destaca-se a questão das pesquisas eleitorais. Enquanto a Câmara havia proibido a divulgação nas 72 horas anteriores ao pleito, Marcelo Castro eliminou essa restrição. “Proibir pesquisa é um absurdo”, defende o colunista, argumentando que “é uma desigualdade ampliada você permitir que os políticos tenham acesso a uma informação e o eleitor não”.

Porém, a nova regra criará situações curiosas. As pesquisas poderão ser divulgadas até a véspera e após as 17h do dia da eleição, mas os meios de comunicação deverão informar o histórico de acerto do instituto nas eleições anteriores. “Vai ser uma zona”, prevê Toledo, descrevendo a complexidade de apresentar dados históricos antes de cada nova pesquisa.

O prazo é apertado: o código deve ser aprovado até 3 de outubro para valer nas eleições de 2026. Paralelamente, tramita uma emenda constitucional do mesmo relator para aumentar mandatos de quatro para cinco anos e realizar eleições gerais quinquenais. “Para a sociedade é um desastre, porque a eleição funciona como uma válvula de escape para essa pressão”, alerta Toledo sobre essa proposta.

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