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Maria Inês, doutora em Saúde Pública, utilizou a expressão “todos, todas e todes” ao saudar o público presente. O prefeito então tomou o microfone, acusou a professora de “doutrinação ideológica” e afirmou que o uso de pronomes neutros não será aceito em eventos promovidos pela Prefeitura de Cuiabá.
“A Conferência Municipal de Saúde precisa seguir as normas da língua portuguesa. […] Em Cuiabá, o pronome neutro não será aplicado. Em Cuiabá, não tem ‘todes’. […] ‘Todes’ não existe, ‘todes’ é chocolate. Pessoas trans existem, mas ‘todes’ não existem”, afirmou Brunini durante a discussão com Julian, na frente da imprensa.
A professora optou por deixar o palco após a interrupção, mas, fora dele, se manifestou em defesa do uso da linguagem inclusiva como parte do compromisso com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). Para ela, o respeito à diversidade de existências e identidades deve ser parte da política pública. “Estou procurando, o máximo que posso, ser uma porta-voz, e sou dentro dessa voz de todos, todas e todes”, disse.
Logo após o episódio, o militante Julian Tacanã contestou a postura do prefeito, afirmando que a interrupção demonstrava desrespeito à população LGBTQIAPN+, especialmente a pessoas trans e travestis.
“A forma com que você interrompeu é falar que a população LGBTQIAPN+, principalmente trans e travestis, não podem estar nos espaços de direito. […] Você desrespeitou todas as pessoas LGBTQIAPN+ que estavam nesse espaço”, declarou.
Durante a discussão, Abilio reafirmou que o município não irá adotar a linguagem neutra em serviços públicos e reiterou que a gestão segue as normas formais da língua portuguesa. O prefeito também tentou encerrar a conversa para atender à imprensa, momento em que se referiu a Julian com o pronome “ela”. O coordenador do IBRAT o corrigiu imediatamente, lembrando que é um homem trans e deve ser tratado com o pronome “ele”.
A discussão evidencia um tema sensível em políticas públicas: o uso da linguagem neutra como instrumento de inclusão. Para pessoas trans e não binárias, a linguagem inclusiva representa uma forma de reconhecimento institucional e respeito às identidades. Já setores mais conservadores consideram seu uso inadequado, por não estar previsto nas regras gramaticais vigentes.
O episódio também marcou o afastamento entre visões distintas sobre o papel da gestão pública em relação à diversidade. Maria Inês afirmou que sua fala trataria de temas estruturais do SUS, como privatização e terceirização, e que a linguagem inclusiva foi utilizada como parte do compromisso com o acolhimento universal previsto na Constituição.
“Tenho que reconhecer que o projeto do prefeito e o entorno é um outro projeto político que não se coaduna com o meu. O que está acontecendo com o SUS? Está sendo tercerizado, aviltado pela privatização. Era disso que eu também queria falar”, disse a professora.
Em entrevista à imprensa, ela criticou contratos com grandes hospitais de fora do estado, alertou sobre o impacto da desigualdade estrutural nas políticas públicas e defendeu a inclusão de populações negras, indígenas, quilombolas, ciganas e migrantes nos debates sobre saúde.

Abilio é interpelado por militante, nega transfobia e reforça que pronome neutro não será tolerado no município
Após interromper a fala da professora aposentada da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Maria Inês da Silva Barbosa, por usar linguagem neutra durante a abertura da Conferência Municipal de Saúde, o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), foi interpelado publicamente pelo coordenador do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT) em Mato Grosso, Julian Tacanã. A discussão, ocorrida na quarta-feira (30), expôs o conflito entre a gestão municipal e representantes da população trans e travesti sobre o uso de linguagem inclusiva em espaços institucionais.
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