Eu poderia começar esse texto citando o caso de Juliana, atacada com 61 socos dentro de um elevador em Natal. Tenho certeza que você conhece o caso. Mas se eu te perguntar o nome das duas mulheres que morreram assassinadas pelos maridos em MT e MS essa semana, você também saberia?
Reuni os dois estados em um mesmo texto pelo motivo mais doloroso para esta colunista: Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são, respectivamente, os estados em que mais se mata mulher por crime de gênero no Brasil. São os lugares mais perigosos para uma mulher viver, e ironicamente, os estados em que escolhi viver.

Agosto começa com uma das campanhas de conscientização mais necessárias do calendário brasileiro, o combate à violência doméstica. Seria lindo se a nossa realidade não fosse um eterno enxugar gelo nesse assunto que, estranhamente, causa tanta revolta nas pessoas pelos motivos errados.
Toda vez que levanto a discussão sobre o machismo que dá a um homem a ideia de que pode dispor da vida de uma mulher, tenho que rebater pessoas que questionam a veracidade dos números, ou respondem com “de novo esse assunto?” como se fosse opcional ignorar. Sempre tem alguém para falar em “exagero” e “denúncias falsas”. E eu sinceramente gostaria de saber como esse questionamento pode ser possível para um ser racional, diante da realidade absurda que enfrentamos nos dois estados.
Mato Grosso tem o maior índice de feminicídios do país. Só em 2025 foram 31 vítimas, 31 histórias interrompidas, 31 mulheres arrancadas de suas famílias. Mato Grosso do Sul vem logo na sequência, com 20 vítimas, a mais recente, horas antes dessa coluna ser publicada. São 20 mulheres que acharam que estavam vivendo um amor e encontraram a morte.
Você pode achar esse número baixo, mas se fizermos as contas da população de cada estado, é um dado alarmante ao extremo. Estamos falando de uma cultura, de uma ideia de que é permitido, e especialmente, de uma estranha certeza de impunidade e aceitação da sociedade, de que esse homem será moralmente absolvido porque agiu por ter sido provocado.
A cada semana, nós jornalistas torcemos para não ter que trazer a notícia de outra mulher assassinada dentro de casa, na frente dos filhos. E infelizmente, passamos por isso muitas vezes. No ano passado, em MT foram 47 feminicídios. Em MS foram 35. Quase uma vítima por semana.
O Agosto Lilás precisa provocar nas pessoas a reflexão que leva à indignação, e consequentemente, à cobrança. São 2 estados carentes de políticas públicas efetivas, de medidas que saiam do papel. Quando a comoção é gigante em torno de um caso em particular, como o da nossa colega Vanessa Ricarte, as medidas aparecem.
No mês seguinte outra mulher é assassinada e o máximo que vemos é uma nota de condolências, porque nenhuma medida até aqui foi capaz de amedrontar um feminicida. Nem mesmo a maior pena para crimes contra a vida, sancionada no Pacote Antifeminicídio. O que mais precisamos fazer?
Todo esse ciclo começa na violência doméstica. Em MS no ano passado foram 21.025 casos registrados. Em MT foram 64.143 casos. E sim, isso explica muita coisa.
Vou trazer um último dado para encerrar esse texto. Só esse ano em MS, pelo menos 6 filhos perderam a mãe para a violência. Um sétimo filho, foi o próprio assassino da mãe. Em MT, são 88 órfãos do feminicídio apenas em 2025. Quem vai explicar para 94 crianças e adolescentes que o próprio pai ou padrasto lhe tirou a pessoa mais importante da sua vida?
As campanhas de conscientização precisam incomodar de verdade. A realidade, enquanto não causar embrulho no estômago, não mobiliza. Você pode achar que é exagero, culpar a mulher, relativizar pelo motivo absurdo que quiser, mas a verdade é que se essa consciência não chegar, nem sua filha e nem sua neta estarão livres desse destino. Cultura errada se combate com educação, e diante desses números, temos um longo caminho pela frente.
Violência doméstica não é exagero. Enquanto não nos mobilizarmos pela proteção de mulheres e meninas, seguiremos confiando a Deus uma tarefa que é da sociedade. Se não educarmos os meninos, seguiremos tendo que ensinar a um homem que uma mulher não é um ser inferior, por mais que no fundo ele siga discordando.
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