Uma tragédia aérea expôs falhas que vinham se acumulando há anos. Em 9 de agosto de 2024, o voo 2283 da Voepass partiu de Cascavel, no Paraná, com destino a Guarulhos, em São Paulo, mas nunca chegou ao destino. O turbo-hélice ATR 72-500 caiu em Vinhedo, a cerca de 80 quilômetros da capital paulista.
Todas as 62 pessoas a bordo morreram. A investigação sobre as causas do acidente trouxe à tona episódios anteriores que evidenciam uma cultura de negligência na empresa, inclusive um caso ocorrido em Mato Grosso.

Durante entrevista à reportagem do Fantástico, o comandante Luiz Cláudio de Almeida, ex-copiloto da Voepass, revelou que, em 2016, quando a empresa ainda se chamava Passaredo, um avião da companhia pousou por engano em uma pastagem no município de Rondonópolis, em Mato Grosso.
A aeronave ficou seriamente danificada e jamais voltou a operar. No entanto, peças desse avião foram reaproveitadas em outras aeronaves ativas da frota, segundo Almeida. A prática de “canibalização”, como é chamada, seria recorrente e pouco controlada pela empresa, apontando para falhas graves no gerenciamento de segurança operacional.
A menção ao caso de Rondonópolis foi usada como exemplo para demonstrar que os problemas da empresa não se restringem ao acidente de 2024. Segundo Almeida, o modelo ATR 72-500 que caiu em Vinhedo, identificado pelo prefixo PS-VPB e apelidado de Papa Bravo, já acumulava falhas crônicas, especialmente no sistema de degelo, essencial para voos em altitudes onde há formação de gelo nas asas.
O sistema chegou a ser acionado três vezes durante o voo, mas não foi suficiente. No momento em que a aeronave iniciava a curva para aproximação de pouso, perdeu sustentação e caiu. Um boletim meteorológico daquele dia alertava para formação intensa de gelo em todos os níveis de altitude, condição que exigia medidas específicas. Segundo Almeida, o Papa Bravo não estava adequado para voar nessas condições climáticas.
Dias antes da tragédia, o comandante de um voo anterior chegou a pedir verbalmente que o sistema de degelo fosse verificado. O pedido, no entanto, não foi registrado formalmente no diário de bordo, e o avião foi liberado para voar. A omissão foi confirmada em uma gravação revelada pelo Fantástico, feita sem o conhecimento dos envolvidos, onde dois funcionários da manutenção da Voepass lamentam o erro. “Errei, errei de não ter mandado por escrito”, disse um deles. O outro respondeu, “Printa, manda pro teu celular, guarda isso daí”, sugerindo reunir provas para uma eventual investigação.
O voo 2283 transportava 58 passageiros e quatro tripulantes. Entre eles estavam Nélvio e Gracinda Hubner, pais da jovem Eduarda, que viajavam para assistir a um show de Ney Matogrosso, e o casal Hiáles e Daniela, que seguiriam para Atlanta, nos Estados Unidos. Daniela era fisiculturista e disputaria duas competições. Pouco antes da decolagem, Eduarda recebeu uma mensagem da mãe dizendo, “Estamos embarcando agora, se cuidem, está vento frio”.

A maior parte dos passageiros não sabia que voaria pela Voepass. As passagens foram compradas pela Latam, em um sistema de codeshare. A única menção à empresa constava em letras pequenas no cartão de embarque, “Operado por 2Z”, o código da Voepass. Para os familiares das vítimas, a comunicação foi falha e contribuiu para a sensação de engano.
Após o acidente, a Latam informou que encerrou o acordo de codeshare com a Voepass e que o nome da companhia e o modelo da aeronave eram informados no momento da compra. Já a Voepass afirmou, em nota, que sua frota sempre esteve apta a operar dentro dos padrões de segurança internacionais e que aguarda o relatório oficial do Cenipa, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos.
Enquanto o laudo final não é divulgado, os familiares buscam justiça. Eduarda Hubner, que perdeu os pais, assumiu o papel de responsável pelos dois irmãos mais novos e diz que deixou de ser filha para ser mãe. Já Ari e Dona Ercília, pais de Hiáles, perderam o filho e a nora, que planejavam ter o primeiro bebê em 2025. As famílias formaram uma associação para cobrar transparência e mudanças.
“Um avião não cai do nada”, diz Eduarda. “Foi uma sucessão de falhas. A gente quer respostas para que isso nunca mais aconteça com ninguém”. O comandante Almeida também cobra a divulgação do conteúdo do gravador de voz da cabine. Por enquanto, apenas os investigadores sabem o que realmente aconteceu nos minutos finais do voo.
A Voepass só foi impedida de voar oficialmente em 24 de junho de 2025, quase 11 meses após o acidente.