A decisão de permitir que Gilberto Rodrigues dos Anjos, acusado pela morte brutal de uma mãe e suas três filhas em Sorriso, participe do julgamento por videoconferência gerou revolta entre os familiares das vítimas.
O júri popular acontece nesta quinta-feira (7), e a ausência física do réu, apontado como responsável por um dos crimes mais chocantes de Mato Grosso — conhecido nacionalmente como a Chacina de Sorriso — foi duramente criticada pelos parentes das vítimas.
Gilberto responde por estupro, estupro de vulnerável e feminicídio, e terá seu destino decidido mesmo sem estar presente no tribunal.

A medida foi determinada pelo juiz Rafael Depra Panichella, que também não autorizou a presença de público. Poderão participar do júri apenas pessoas diretamente envolvidas no processo, como juízes, promotores, advogados, defensores públicos, policiais penais e militares e os familiares das vítimas.
O pai e marido das vítimas, Regivaldo Batista Cardoso, afirma que a decisão causou indignação na família, e tornará o julgamento vazio. Para ele, o réu precisava estar presente “para sentir o desprezo das pessoas”.
“A lei dá a ele essa possibilidade de escolha, mas eu não tenho escolha mais. A gente não tem escolha, a gente tem que conviver com essa dor, com a saudade, com a falta que elas fazem”, disse.

Diante disso, ele acredita que a ausência do réu no fórum reforça a sensação de impunidade. “Tinha que ser obrigatório ele estar presente. Não vai mudar pra gente, não vai amenizar nossa dor, mas pelo menos olhar para a cara do indivíduo… que dessem pra gente a oportunidade de falar alguma coisa pra ele”, destacou.
Por que o juiz decidiu pela ausência física do réu?
Segundo a decisão do magistrado publicada na semana passada, a medida visa resguardar a dignidade das vítimas e proteger os familiares. O julgamento será no Plenário do Fórum da Comarca de Sorriso.
O magistrado citou que a Constituição Federal prevê a publicidade como regra nos atos processuais, mas permite exceções quando o interesse social ou a proteção da intimidade justificarem. No entanto, neste caso específico, o juiz decidiu por um modelo híbrido, mesclando publicidade com sigilo.
“A tramitação dos feitos criminais em segredo de justiça possui caráter excepcionalíssimo, devendo prevalecer, em regra, a cláusula da publicidade”, diz trecho da decisão.
Pena máxima
A expectativa da família é que o réu receba a pena máxima em todas as acusações e que cumpra integralmente os 40 anos de prisão — limite permitido pela legislação brasileira. Ele responde por estupro, estupro de vulnerável e feminicídio, e a pena posso chegar a 225 anos.
“Que ele pegue a pena máxima em todos os crimes, que não tire nenhum. Eu sei que ele não vai ficar 200 anos preso, mas que ele pague esses 40 anos lá dentro”, disse o familiar, reforçando o desejo de que Gilberto não tenha acesso a nenhum tipo de regalia, saída temporária ou benefício penal.
O crime que chocou o país
Na madrugada do dia 24 de novembro de 2023, Gilberto Rodrigues dos Anjos invadiu a casa da família Cardoso, no bairro Florais da Mata, e matou mãe e filhas. Ele entrou na residência pela janela do banheiro.
As vítimas são: Cleci Calvi Cardoso, de 45 anos, Miliane Calvi Cardoso, de 19 anos, Manuela Calvi Cardoso, 13 anos e Melissa Calvi Cardoso, de 10 anos.

Durante o interrogatório, Gilberto Rodrigues dos Anjos admitiu que invadiu a casa das vítimas para roubar, mas que entrou em luta corporal com a mãe das meninas. Neste momento, a filha mais velha saiu do quarto para socorrer a mãe e também foi atacada.
Ainda durante o interrogatório, o investigado contou que saiu da casa pela mesma janela por onde entrou e voltou para a obra ao lado da casa da família, onde retirou as roupas sujas de sangue e guardou em um contêiner. Ele foi preso no local.
Crimes
A ficha criminal de Gilberto começa no ano de 2013, quando foi condenado em Mineiros (GO), por matar o jornalista Osni Mendes.

O crime aconteceu a noite do dia 21 de dezembro de 2012. Segundo o inquérito policial, Gilberto teria saído com Osni no carro, quando Osni teria manifestado interesse em se relacionar com ele. De acordo com o depoimento do acusado, a proposta sexual teria sido o motivo do crime.
Após isso, Gilberto pegou a própria camiseta e enforcou o jornalista, que já se encontrava inconsciente por sofrer agressões. Gilberto abandonou o corpo em uma rodovia local e fugiu com o carro da vítima indo se esconder na chácara de um amigo. Mas acabou sendo preso.
Por esse crime, Gilberto ficou preso por cerca de 7 meses. O advogado dele pediu a revogação da prisão, alegando que algumas diligências não haviam sido cumpridas pela polícia, e ele foi liberado pela Justiça.
Condenações
Em março deste ano, ele foi condenado a 17 anos de prisão pela morte do jornalista Osni Mendes.
No mesmo mês, ele foi condenado novamente a mais 22 anos de prisão pela Justiça de Mato Grosso por estupro e tentativa de homicídio contra uma mulher.
