As três adolescentes apreendidas por protagonizarem uma espécie de “tribunal do crime” em uma escola estadual de Alto Araguaia (MT) foram transferidas para Cuiabá, onde permanecerão internadas no Complexo do Pomeri. A chegada à capital ocorreu na noite desta quarta-feira (6), em viaturas da Polícia Civil.
Uma quarta envolvida escapou da internação por ter menos de 12 anos, sendo considerada inimputável de acordo com a legislação brasileira.

A apreensão das jovens foi motivada por um vídeo, que circula nas redes sociais desde o último final de semana, que mostra uma aluna sendo brutalmente agredida nas dependências da escola. As investigações preliminares apontam que a cena de violência foi orquestrada pelas próprias estudantes como uma espécie de “tribunal do crime”, em que a vítima foi julgada e punida de forma brutal dentro do ambiente escolar.
Segundo o delegado Marcos Paulo Oliveira, responsável pelo caso, cerca de 20 alunos da escola formaram um grupo com estrutura semelhante à de facções criminosas. Eles criaram regras internas, elegeram uma liderança e impuseram um regime disciplinar próprio.
As adolescentes foram ouvidas na presença dos pais e tiveram seus celulares apreendidos. Os aparelhos continham registros de outras agressões cometidas pelo mesmo grupo, revelando um padrão de violência recorrente e organizado.
Durante os depoimentos, as adolescentes confessaram os atos e revelaram que, além da vítima registrada no vídeo, outras quatro alunas também já haviam sido espancadas por descumprirem as regras impostas pelo grupo.
A vítima, sua família, a direção da escola e os responsáveis pelas agressoras também foram ouvidos durante a investigação.
Com base nos depoimentos e nas provas reunidas, a Polícia Civil indiciou as adolescentes por atos infracionais análogos aos crimes de tortura e associação criminosa. O relatório foi encaminhado ao Ministério Público, com recomendação de internação provisória.
Medidas da Seduc
Diante da gravidade do caso e da repercussão pública, o Governo de Mato Grosso anunciou que a Escola Estadual Carlos Hugueney será transformada em uma unidade cívico-militar.
De acordo com os secretários Alan Porto (Educação) e César Roveri (Segurança Pública), a medida visa reforçar a disciplina, ampliar o monitoramento de comportamentos de risco e coibir a atuação de grupos organizados dentro do ambiente escolar.
Relembre o caso
As imagens da agressão mostram a vítima sendo espancada por quatro adolescentes, com idades entre 11 e 14 anos, na última segunda-feira (4). De acordo com a polícia, as agressoras integravam um grupo com regras e estrutura próprias, inspiradas em facções criminosas.
A aluna foi punida por supostamente desrespeitar uma dessas normas. Durante a agressão, foi obrigada a não demonstrar dor, sob ameaça de novos ataques.
O vídeo, que viralizou nas redes sociais, mostra a vítima ajoelhada, com o rosto voltado para a parede, sendo cercada pelas colegas e agredida com socos, chutes e até golpes com um pedaço de pau. Enquanto uma delas desfere tapas e diz “conta quantos tapas eu dei”, outras riem, filmam e participam ativamente da violência.
Apesar de estarem cientes da gravação, as envolvidas mantêm o tom de deboche e seguem com os ataques. A última agressora chega a arrastar a vítima pelos cabelos e desferir chutes na cabeça.
Alerta sobre a violência escolar
O caso reacendeu o alerta sobre a violência organizada dentro das escolas e o papel das redes sociais na propagação de comportamentos violentos.
Para o delegado Marcos Paulo Oliveira, o fácil acesso a estatutos de facções pela internet pode ter influenciado a formação do grupo. “Talvez inspirados por essa bandiolatria que, infelizmente, vem consumindo o nosso país, eles copiaram, de certa forma, o que ocorre dentro das facções criminosas. Inclusive, uma das regras durante a agressão era não poder chorar, porque, se chorasse, a agressão seria ainda mais violenta”, afirmou.