No próximo dia 22 de agosto, a voz que Giseli Cristina Oliskowski já não pode usar será ouvida por outros: jurados que decidirão o destino de Jeferson Nunes Ramos, seu algoz. Será o primeiro júri popular do ano em Mato Grosso do Sul para um caso de feminicídio. Mas, para a família, não é apenas um processo, mas a tentativa de fazer justiça a uma vida interrompida de forma brutal.

Nesta série de reportagens, que tráz um memorial das vítimas de feminicídio, o Primeira Página relembra o caso de Giseli, que teve a vida tirada pelas mãos do namorado, Jeferson.
Uma morte cruel testemunhada
Era 1º de março, bairro Aero Rancho, Campo Grande. O calor da tarde, que normalmente se dissiparia com o cair do sol, naquele dia virou chama, fumaça e horror.
Segundo a investigação da Polícia Civil, a discussão de Giseli com seu algoz começou com três tapas no rosto. A resposta para a reação da mulher foi uma pedrada na cabeça, seguida de um empurrão que lançou Giseli no fundo de um poço.
Não bastou a agressão física em reação desproporcional, Jeferson ainda ateou fogo na companheira. O laudo pericial confirmou, ainda havia vida quando as chamas a alcançaram.
Os gritos, segundo vizinhos, ecoaram. Mas o que ficou foi o silêncio. O feminicída tentou fugir, mas não foi longe. Mãos de vizinhos o contiveram até a chegada da polícia.
O crime brutal praticado pelo agressor foi testemunhado por sobrinhos do casal. Após tentar fugir, o feminicída foi contido por moradores e entregue à polícia. Ele permaneceu em silêncio durante os depoimentos à DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher).
Uma história interrompida
Natural de Santa Catarina, Giseli havia se mudado para Campo Grande há quatro anos, deixando para trás a faculdade de enfermagem, buscando uma nova vida na Capital. Entre dificuldades e vícios, enfrentou anorexia, ansiedade e TOC durante a pandemia, período em que passou a usar medicamentos controlados.

Com o tempo, o uso foi substituído por drogas ilícitas, hábito que, segundo a investigação, era compartilhado por Jeferson, que a mataria num futuro breve.
Mãe de quatro filhos, gêmeas de três anos e dois meninos de 14 e 17, ela vivia longe do afeto das crianças. No dia de sua despedida, apenas cinco pessoas estiveram presentes na capela do Cemitério do Cruzeiro.
Entre elas, a mãe, uma dona de casa de 60 anos, que, mesmo em silêncio por boa parte do tempo, não escondeu a dor.
“É uma coisa inexplicável. É um monstro para mim. Além de uma pedrada na cabeça e vários hematomas, ainda jogar ela dentro de uma fossa… Ninguém merece isso. Eu quero justiça, porque isso não é homem, é um covarde”, disse ela, preferindo não se identificar à reportagem.
O que vem pela frente
Para o juiz Aluízio Pereira dos Santos, titular da 2ª Vara do Tribunal do Júri, os indícios de morte por motivo cruel e impedimento de defesa da vítima são elementos que devem ser avaliados pelos jurados.
A decisão de levar o caso a júri popular foi tomada após oitivas de testemunhas, análise dos laudos e da denúncia apresentada pelo Ministério Público.
O julgamento, marcado para 22 de agosto, será um dos momentos mais aguardados pela família, que vê nele a chance de transformar a dor em justiça.
Agosto Lilás, a cor do luto
Este mês, o lilás, símbolo da luta contra a violência doméstica, ganhou um tom de luto em Mato Grosso do Sul. Em agosto, o estado registrou um triste marco: 22 mulheres assassinadas pelo simples fato de serem mulheres.
🚨 Denuncie a violência contra a mulher
Violência doméstica — seja psicológica, física, moral ou verbal — é crime e precisa ser combatida. Saiba como denunciar:
Emergência: se a agressão estiver acontecendo, ligue 190 imediatamente;
Central de denúncias: disque 180. O atendimento é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas por dia, todos os dias. Também é possível denunciar via WhatsApp: (61) 9610-0180;
Presencial: procure a delegacia mais próxima ou acione a Polícia Militar pelo 190;
Em Mato Grosso do Sul as denúncias de violência de gênero podem ser feitas de maneira on-line. Clique aqui e faça a denúncia.
⚠️ Violência contra a mulher não pode ser ignorada. Basta! Denuncie.
