Alessandra: um nome, uma vida, uma ausência que não se cala

Era manhã do dia 29 de março de 2025, no bairro São Miguel, em Nioaque. O dia tinha começado como tantos outros, com sol subindo lento sobre as ruas tranquilas na pequena cidade. Mas dentro de uma casa alugada há menos de um mês, uma história se partia para sempre. Ali, a vida de Alessandra da Silva Arruda, de 30 anos, seria arrancada em questão de minutos.

Alessandra da Silva Arruda
Alessandra da Silva Arruda, sétima vítima de feminicídio (Foto: Divulgação)

Cinco golpes de faca. Cinco rasgos na carne. Cinco cortes que encerraram uma história que tinha muito mais para viver.

O acusado, Venilson Albuquerque Marques, de 32 anos, era seu companheiro há apenas vinte dias, tempo insuficiente para construir uma vida juntos, mas suficiente para findar a dela. Em depoimento, ele disse que tudo começou por dinheiro. Como se houvesse no mundo qualquer valor que pudesse pagar uma morte.

Depois do crime, fugiu. Horas mais tarde, entrou pela porta da delegacia acompanhado de um advogado. O delegado o prendeu em flagrante. No domingo, 30 de março, a Polícia Civil e MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) entraram com pedido de prisão preventiva.

O caso entrou engrossou a conta dos feminicídios em Mato Grosso do Sul. Era o sétimo do ano e ainda estávamos apenas no terceiro mês de 2025. Mais um nome na lista. Mais um rosto nas páginas do jornal. Mais uma história interrompida por mãos masculinas.

Alessandra tinha três filhos, duas meninas e um menino, três vidas que agora crescem sem a presença da mãe. As crianças não estavam na cidade no dia do crime. Talvez não tenham visto o sangue no chão. Mas a ausência vai ser vista todos os dias: no café da manhã, na cadeira vazia, no silêncio de quem não volta.

A lembrança 

O irmão, Alexandre da Silva Arruda, tenta falar, mas cada frase é um esforço contra o nó na garganta. Apesar de não serem mais tão próximos, a lembrança da infância e tempos difíceis que passaram juntos sempre vai ser guardada com carinho. 

“Era uma pessoa que, independente dos problemas pessoais, sempre estava disposta a ajudar quando alguém precisava. Uma mãe que batalhava para dar uma vida melhor para os filhos. Passamos por muitas dificuldades juntos na infância, mas também vivemos momentos bons.”

A lembrança de Alessandra volta misturada à própria dor recente. “Não tinha nem um ano que eu tinha perdido minha mãe. E aí veio essa notícia… de uma forma brutal e covarde. Não desejo isso pra ninguém.”

Na memória de Alexandre, a irmã não é só a vítima estampada nas manchetes. É a menina que caminhava com ele longas distâncias para pegar o ônibus para a escola. Mesmo depois que a vida adulta trouxe distâncias, a ligação de infância permaneceu. 

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Não foi um caso isolado

O crime de Alessandra não é exceção. É reflexo de um país onde o feminicídio se repete como um eco doloroso. Onde as histórias mudam de nome, mas seguem o mesmo roteiro: amor que vira controle, controle que vira ameaça, ameaça que vira morte.

A casa, que deveria ser refúgio, vira cena de crime. A cama, que deveria ser lugar de descanso, vira território de medo.

Em Nioaque, a notícia chocou os vizinhos. Muitos viram o casal junto poucas vezes. Poucos sabiam da vida dela. Mas a notícia correu rápido: uma mulher assassinada, a faca, pelo homem com quem dividia o teto.

A pergunta é sempre a mesma: até quando?

Até quando mulheres serão assassinadas por homens que dizem amá-las? Até quando veremos filhos órfãos de mães arrancadas pela violência? Até quando vamos contar feminicídios como quem conta números e não vidas?

Alessandra da Silva Arruda, não era só mais uma mulher. Era mãe. Era irmã. Era amiga. Tinha defeitos, sonhos, erros, virtudes. Vivia, amava, ajudava. E, acima de tudo, merecia continuar viva.

Que o nome dela não seja engolido pela frieza das estatísticas. Que seja lembrado na luta, no grito, na denúncia. Porque toda vez que dizemos “mais uma”, corremos o risco de esquecer que cada uma é única.

🚨 Denuncie a violência contra a mulher

Violência doméstica — seja psicológica, física, moral ou verbal — é crime e precisa ser combatida. Saiba como denunciar:

Emergência: se a agressão estiver acontecendo, ligue 190 imediatamente;

Central de denúncias: disque 180. O atendimento é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas por dia, todos os dias. Também é possível denunciar via WhatsApp: (61) 9610-0180;

Presencial: procure a delegacia mais próxima ou acione a Polícia Militar pelo 190;

Em Mato Grosso do Sul as denúncias de violência de gênero podem ser feitas de maneira on-line. Clique aqui e faça a denúncia.

⚠️ Violência contra a mulher não pode ser ignorada. Basta! Denuncie.

Campanha BASTA
Logo da Campanha Basta, do Primeira Página. (Foto: Divulgação)

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