A Terra Indígena Sararé, localizada no oeste de Mato Grosso, tornou-se a área indígena mais devastada do Brasil, com milhares de hectares de floresta destruídos pela mineração ilegal de ouro. A atividade predatória, que se intensificou nos últimos três anos, tem provocado não apenas danos ambientais irreversíveis, mas também ameaças constantes contra a comunidade indígena Nambikwara Katitaurlu.
De acordo com o Ibama, a extensão territorial da TI é de 67 mil hectares.

De acordo com o Ibama, as cavas abertas para exploração se espalham por diferentes pontos da terra indígena, acompanhadas de lançamentos de mercúrio nos rios, o que contamina os peixes, uma das principais fontes de alimento dos moradores locais.
Ameaças e violência
Moradores relatam que a chegada de garimpeiros tem dividido as aldeias e gerado conflitos internos. Uma indígena, que pediu para não ser identificada, disse que os invasores oferecem dinheiro para entrar na área e cooptar parte da comunidade. Outro morador revelou que a situação já se tornou insustentável:
“Peixe, isso é preocupação. Antes dele, eu comia, no rio, o peixe, todo. Mas, hoje, como o garimpo estragou. Os garimpeiros, toda hora, ameaça. Todo dia…que ele vai matar, matar. Se você não deixar trabalhar aqui, ele te mata tudo. Mata”, relatou.
A Polícia Civil de Mato Grosso estima que pelo menos 60 assassinatos já tenham sido cometidos desde 2023 em disputas pelo controle da exploração ilegal. Segundo o delegado regional João Paulo Berté, organizações criminosas inicialmente entraram no território para vender drogas, mas logo perceberam o potencial lucrativo do ouro e passaram a disputar o domínio da área.
Operação de combate
Uma força-tarefa integrada pelo Ibama, Ministério dos Povos Indígenas, Funai, forças federais e polícias de Goiás, Mato Grosso e Distrito Federal está em campo desde o início de agosto. Até agora, foram destruídos mais de 400 acampamentos e 100 escavadeiras, pouco mais da metade do maquinário estimado na região.
Segundo o Ibama, durante a fiscalização foram encontrados cartuchos de fuzis calibre 5,56, o que evidencia que os garimpeiros atuam fortemente armados. “Tudo indica que o pessoal aqui estava bem armado”, afirmou Mateus Fumes, agente federal ambiental.
O diretor de proteção ambiental do Ibama, Jair Schimidit, lembra que parte dos garimpeiros pode ter migrado de outras regiões onde operações já haviam sido realizadas, como nos territórios Yanomami, Munduruku e Caiapó.
Consequências ambientais
Além da violência, a devastação da floresta e a contaminação dos rios com mercúrio preocupam especialistas. “A expectativa é que, à medida que cessarmos a exploração ilegal, a vegetação possa se regenerar e reduzir os impactos à saúde dos indígenas e ao meio ambiente”, explicou Hugo Loss, coordenador de Operações de Fiscalização do Ibama.
Atualmente, cerca de 200 indígenas Nambikwara Katitaurlu vivem em Sararé e convivem diariamente com o avanço da devastação.