Mais uma semana marcada por feminicídios trazem à tona a gravidade da situação em Mato Grosso, que já contabiliza 35 casos registrados até esta segunda-feira (25). Os dados atualizados são do Observatório Caliandra, plataforma do Ministério Público Estadual, que monitora e divulga estatísticas sobre a violência contra a mulher.
Faltando quatro meses para o fim do ano, o número de mulheres assassinadas, enquadradas como feminicídio, já se aproxima do total registrado em 2024, que foi de 47 casos em 12 meses. Os números do ano passado, inclusive, colocou o estado no topo das estatísticas nacionais de assassinatos de mulheres por motivação de gênero.

Segundo um relatório da Polícia Civil, a casa, espaço que deveria ser de proteção, foi palco de 83% dos feminicídios registrados.
Vale destacar que o levantamento, embora traga informações relevantes sobre os contextos, perfis e ciclos de violência que resultam na morte de mulheres em Mato Grosso, tem como base registros policiais. Ou seja, não utiliza diretamente os dados do sistema de saúde, que no Atlas da Violência 2025 aparecem categorizados como “homicídios de mulheres” ou “homicídios de mulheres em residência”.

Mais do que números, o relatório revela uma geografia da violência marcada por silêncio e brutalidade. Quase três quartos dos crimes foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros íntimos, quase sempre sem que a vítima tivesse recorrido ao sistema de proteção.
Em 98% dos casos, não havia Medidas Protetivas de Urgência (MPUs) válidas no momento do assassinato. E 83% das vítimas nunca denunciaram seus agressores.
São sinais do controle e da posse travestidos de afeto, que evoluem silenciosamente até a agressão fatal, tudo que caracteriza a violência doméstica em estado bruto.
Instrumentos de morte e marcas de crueldade
🔪 Facas e objetos cortantes
Mais da metade dos feminicídios (57%) foram cometidos com facas ou instrumentos perfurantes.
🔫 Armas de fogo
Em 17% dos casos, os autores usaram armas de fogo para matar as vítimas.
🤜 Força física
Em 13% dos crimes, a morte foi causada com uso direto de força física, como espancamentos.
🔥 Fogo e combustível
Alguns casos envolveram o uso de gasolina ou álcool para incendiar as vítimas.
❌ Estrangulamento
Houve situações em que a vítima foi morta por asfixia ou estrangulamento com as mãos ou cordas.
🧪 Brutalidade combinada
Métodos combinados — como fogo e espancamento — mostram a violência extrema de alguns casos.
As mulheres assassinadas tinham, em sua maioria, entre 18 e 49 anos (85%), eram pardas (60%) ou pretas (21%) e com baixa escolaridade (57% com ensino fundamental incompleto).
O recorte revela uma sobreposição de vulnerabilidades de gênero, raça e classe que tornam essas mulheres alvos fáceis para uma violência que poderia ser evitada.
Violência doméstica em Cuiabá – Dados e análises
Delegacia Especializada de Defesa da Mulher (DEDM)
Atendeu mais de 1.700 ocorrências de violência doméstica
387 casos (22% do total) concentrados em 10 bairros
Periféricos/Ocupações
Dom Aquino, Porto, Pedra 90, Jardim Florianópolis, Parque Cuiabá, Duque de Caxias, Cidade Alta
Características: Alta densidade populacional e infraestrutura precária
Bairros com Diversidade Econômica
Morada da Serra, Centro, Jardim das Américas, Quilombo, Boa Esperança, Centro Político Administrativo
Refutação: Violência doméstica não está restrita à periferia
Subnotificação histórica
Fatores:
- Menor acesso a delegacias especializadas
- Falta de apoio psicológico
- Falta de assistência jurídica
Do acolhimento à prevenção: as frentes de combate que podem salvar vidas
De acordo com Elisamara Sigles Vodonós Portela, procuradora de Justiça e coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar e Estudos de Gênero (CAOVD/MPMT), os dados sobre feminicídio revelam um padrão alarmante: as vítimas são, em sua maioria, mulheres jovens, negras ou pardas, com baixa escolaridade. Isso expõe como o machismo, o racismo e a pobreza se somam, ampliando o risco de morte.
Para enfrentar essa realidade, ela defende medidas concretas e urgentes que vão além do discurso. Entre elas:
- Autonomia e segurança: auxílio financeiro, abrigo emergencial e qualificação profissional para romper o ciclo da dependência e da violência.
- Proteção efetiva: medidas protetivas com monitoramento eletrônico e acompanhamento continuo
- Denúncia acolhedora: escuta empática e encaminhamento rápido, com foco nas múltiplas vulnerabilidades da mulher.
- Rede de apoio integral: atendimento psicológico, jurídico, de saúde física e mental, e assistência para filhos e filhas.
- Capacitação dos profissionais: formação contínua para reconhecer diferentes formas de violência e desigualdades estruturais.
- Ação articulada: trabalho em rede para respostas rápidas, seguras e humanizadas.

O Governo do Estado de Mato Grosso planeja avançar em educação, estruturas de atendimento às mulheres e vulneráveis, operações de combate e políticas de enfrentamento e prevenção à violência de gênero. Dois exemplos de estratégias adotadas são:
Programa Ser Família Mulher (Auxílio Aluguel): Em Mato Grosso, este programa, anterior à lei federal, oferece auxílio-moradia para garantir a sobrevivência da mulher e de seus filhos, o afastamento do agressor e contribuir para a prevenção de feminicídios.

Ter renda própria é um fator importante para o rompimento do ciclo de violência e para a concessão deste benefício.
Aplicativo SOS Mulher: Desenvolvido em 2021 pela Polícia Judiciária Civil e o Tribunal de Justiça de Mato Grosso, este aplicativo é uma ferramenta de proteção com um “Botão do Pânico” que permite acionamento rápido em situações de risco. Em 2024, o acionamento do Botão do Pânico cresceu 17%, com 649 pedidos de socorro em Cuiabá, Várzea Grande, Cáceres e Rondonópolis.

O aplicativo também permite gravação de áudio e oferece informações sobre unidades policiais e como solicitar medidas protetivas online.
Além do enfrentamento, a promotora Elisamara destaca a importância da prevenção:

O que diz a Sesp-MT?
A Secretaria de Estado de Segurança Pública de Mato Grosso (Sesp-MT) reforça seu compromisso com o enfrentamento à violência contra a mulher e a proteção dos direitos das vítimas de crimes sexuais, com uma série de medidas concretas e interinstitucionais que visam à prevenção, acolhimento, investigação qualificada e responsabilização dos agressores.
Violência Contra a Mulher
A Sesp-MT atua de forma articulada com outras instituições do Governo do Estado para garantir ações efetivas de combate à violência de gênero. Entre os avanços mais recentes, destacam-se:
Resolução de Feminicídios
Resolução de 100% dos casos de feminicídio em 2024, com os 47 inquéritos concluídos e autoria definida. As investigações resultaram na prisão de 36 acusados, evidenciando a efetividade das ações investigativas.
Plantão 24h
Implantação do Plantão 24 Horas de Atendimento a Vítimas de Violência Doméstica e Sexual em Cuiabá, garantindo atendimento emergencial ininterrupto e humanizado.
Auxílio Moradia
Criação do auxílio moradia de R$ 600 pelo programa SER Família Mulher, com 601 mulheres já beneficiadas, ampliando a proteção às vítimas em situação de risco.
Horas Extras
Parceria com a Setasc para o pagamento de horas extras a servidores da segurança pública que atuam diretamente nas ações do SER Família Mulher.
Expedição MT por Elas
Participação ativa na Expedição MT por Elas em 15 regionais, com o objetivo de capacitar a rede de proteção e garantir capilaridade nas ações preventivas.
Novas Salas de Atendimento
Inauguração de salas do Plantão Especializado nas unidades policiais de Rondonópolis e Várzea Grande, ampliando o acolhimento humanizado e especializado.
Superintendência SER Família
Criação da Superintendência de Políticas Públicas para as Mulheres – SER Família Mulher, fortalecendo a governança das políticas de segurança.
Coordenadoria de Enfrentamento
Estruturação da Coordenadoria de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher e Vulneráveis na Polícia Judiciária Civil para qualificar as investigações.
Projeto Casa de Eurídice
Desenvolvimento do Projeto Casa de Eurídice, que oferece atendimento remoto multidisciplinar e cursos profissionalizantes pelo SER Família Capacita.
Patrulha Maria da Penha
Atuação contínua da Patrulha Maria da Penha, sob comando da PM, que acompanha mulheres após ocorrências para prevenir reincidências.
Câmara Temática
Condução da Câmara Temática de Defesa da Mulher, coordenada pela Sesp-MT, com representantes das forças de segurança e do Sistema de Justiça.
Sofre de violência doméstica?
Telefones para denúncia
- Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher)
- Atendimento 24h, gratuito e anônimo.
- Recebe denúncias, orienta e encaminha para a rede de proteção.
- Disque 190 (Polícia Militar)
- Para situações de emergência ou flagrante.
- Disque 197 (Polícia Civil)
- Para denúncias e informações complementares sobre casos em investigação.
Presencialmente
- Delegacias Especializadas de Defesa da Mulher (DEDM)
- Existem unidades em Cuiabá, Várzea Grande e outros municípios do estado.
- Endereços podem ser consultados no site da Polícia Civil de Mato Grosso.
- Delegacias de Polícia Civil (em cidades sem DEDM)
- Qualquer delegacia pode registrar boletim de ocorrência por violência doméstica.
Aplicativos
- Proteja Mulher (MT)
- Aplicativo da Polícia Judiciária Civil que permite solicitar ajuda e acompanhar medidas protetivas.
- Disponível para Android e iOS.
- SOS Mulher
- Aplicativo nacional que permite acionamento rápido da PM em casos de risco iminente (em alguns estados).
Outros canais de apoio
- Ministério Público de Mato Grosso
- Recebe denúncias e acompanha casos de violência doméstica.
- Site: www.mpmt.mp.br
- Defensoria Pública de Mato Grosso
- Oferece apoio jurídico gratuito para vítimas.
- Site: www.defensoria.mt.def.br
