Alfaiate que só usa roupas do século 19 viraliza nas redes

@paulosamu.art no Instagram

Paulo Samu se veste com roupas do século 19 desde 2020

Paulo Samu se veste com roupas do século 19 desde 2020

ANA CLARA COTECCO

DA FOLHAPRESS

Chemise, colete, underbust, casaca e cartola são algumas peças de roupa que foram comuns nos guarda-roupas do século 19, e que, com o passar do tempo, deixaram de ser usadas. Mas não por todos.

 

O designer de moda e alfaiate Paulo Estevão Samu, de 32 anos, só se veste com roupas que eram tendência naqueles tempos.

 

Com fotos e vídeos —incluindo os populares “arrume-se comigo”— dos seu trajes antigos, ele soma 100 mil seguidores nas redes sociais que acompanham o seu estilo.

 

Fascinado desde criança por livros e filmes que retratam o passado, Paulo sempre se atraiu por histórias de contos de fadas e romances como os de Jane Austen, ambientados nas primeiras décadas de 1800 —período no qual ele é especializado.

 

“Sempre foi um refúgio, um jeito de escapar para lugares que, à primeira vista, pareciam ter menos problemas”, explica Samu ao F5.

 

Para ele, a moda funciona como um portal para viajar no tempo, mas sem a ilusão de que o passado fosse perfeito. Cada era, reforça, tem seus problemas e contradições.

 

Sua viagem a outros tempos começou a acontecer em 2018, quando viu um vídeo do alfaiate britânico Zack Pinsent, que tem mais de 700 mil seguidores, e se veste diariamente com roupas antigas bem similares às que ele usa hoje.

 

“Percebi que era possível fazer o mesmo. Comecei a pesquisar e, aos poucos, substituí tudo o que tinha no guarda-roupa”, conta.

 

No início, misturava peças históricas com jeans, camisetas e jaquetas de couro. Dois anos depois, abandonou de vez as peças contemporâneas.

 

Há cerca de dois anos, não tem mais nenhuma roupa. Tudo o que usa é feito por ele, pelo marido ou por amigos da comunidade de costura histórica.A decisão, apesar do estranhamento, foi aceita pelos amigos e familiares.

 

“Sempre fui esquisito, desde pequeno fazia cosplay. Então já estavam acostumados”, diz.

 

Na rua, no entanto, as reações variam. “Tem quem aponte, ria, peça foto.” Ainda assim, reforça que a escolha não tem a ver com chamar atenção, mas com expressão pessoal “É sobre me sentir bem. A vida é curta demais para não se divertir com o que veste”, explica o designer.

 

As peças, costuradas à mão ou com auxílio de máquina, também carregam um sentido de sustentabilidade. Tecidos como o linho, explica, são mais adequados ao clima brasileiro do que o jeans ou o poliéster, e têm durabilidade maior.

 

“A indústria da moda é uma das que mais poluem o meio ambiente. Resgatar técnicas antigas é também uma forma de pensar em um futuro mais consciente.”

 

Ele também reforça que o olhar para o passado, não é saudosismo político. Ao lado do marido, fundou o coletivo Costura Histérica, que reúne recriadores históricos no Brasil.

 

O lema é “roupas antigas em cabeças modernas”, uma tentativa de afastar a associação do estilo a ideias monarquistas, escravagistas, elitistas ou conservadoras. “Olhamos para o passado para aprender com ele, não para endeusá-lo”, afirma.

 

O estilo ultrapassou o guarda-roupa e se espalhou para outras áreas da vida. O marido trouxe a música clássica para dentro de casa, e o trabalho em um antiquário mantém o casal próximo de objetos antigos. Mas a rotina não está presa no século 19: eles também acompanham realities e escutam artistas como Chappell Roan e Pabllo Vittar.

 

“As roupas são antigas, mas nós estamos conectados com a atualidade”, resume Samu.

 

Da paixão pelo vestuário surgiu também um negócio. Há quatro anos, Paulo abriu um ateliê de costura histórica, especializado em peças sob medida. O foco vai do século 18 ao início do 19, épocas que domina.

 

Foi nas redes sociais que o trabalho ganhou visibilidade Seu conteúdo atraiu seguidores curiosos para entender como era possível viver usando apenas roupas históricas. Outros se sentiram encorajados a ousar mais no estilo. “Às vezes a pessoa vê eu me vestindo assim no dia a dia e pensa: então eu também posso usar as roupas que gosto.”

 

Para Samu, esse é o maior poder da internet: “Ela encontra outras pessoas que também se sentem sozinhas ou diferentes e mostra que está tudo bem ser esquisito, usar roupas fora do padrão. Não tem nada de errado com a gente. Aliás, é até mais legal. O que é ser normal?”.

 

Fonte


Publicado

em

por

Tags:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *