O eletricista Davi Alves de Sousa Filho se divide entre a preocupação e a revolta enquanto acompanha a filha, Hillary Portilho de Sousa, de 13 anos, nos postos de saúde de Campo Grande. A menina foi arrastada por um ônibus da linha 517 após ter o pé preso na porta do coletivo nesta última segunda-feira (15).

O acidente aconteceu por volta das 12h40 na rua Joaquim Murtinho, próximo ao Centro de Convivência do Idoso “Vovó Ziza”. A adolescente sofreu diversos hematomas pelo corpo e já passou por três unidades de saúde, sem nenhum auxílio do Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo de Campo Grande.
O acidente
Davi conta que o acidente ocorreu no momento em que o ônibus, que faz o itinerário entre o bairro Leon Denizart Conte e o Terminal Hércules Maymone, parou no ponto da Joaquim Murtinho.
A mochila de Hillary teria ficado presa no banco. Ela conseguiu se soltar, mas, no momento em que ia descer, a porta se fechou, prendendo seu pé. A menina acabou sendo arrastada. Um pedestre correu e conseguiu alertar o motorista, que então parou o veículo.
“Ela teve muitos machucados na mão, saiu a pele. Arranhou os braços dela, o cotovelo e o quadril também ficou bastante esfolado”, lamenta o pai.
O Corpo de Bombeiros e o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) prestaram socorro à menina. Ela foi encaminhada para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Universitário, onde recebeu curativos e alta no mesmo dia.

Nesta terça-feira (16), o pai levou a filha a uma unidade de saúde no Jardim Noroeste para a troca dos curativos. De lá, ela foi encaminhada para realizar um raio-x no CRS (Centro Regional de Saúde) Tiradentes.
Ou seja, ao todo, foram três idas a diferentes postos de saúde de Campo Grande. Segundo o pai, o Consórcio Guaicurus só entrou em contato com a família por volta das 17h desta terça, mais de 24h após o acidente, apenas para “lamentar o ocorrido”.
A postura do consórcio diante da gravidade da situação geram revolta no trabalhador, que cogita denunciar o caso à Polícia Civil.
“Quando eu cheguei lá, o motorista estava lá, se desculpou, e tudo bem, eu desculpei o motorista. Mas a questão não é essa. Isso não pode ficar só na desculpa. Alguém tem que ser responsabilizado por isso. Ninguém quer que o ônibus saia arrastando pessoas por aí. Inclusive com esse grau de periculosidade, porque, se o pedestre lá não vê, não corre e não manda o motorista parar… ele já estava pegando velocidade. O problema poderia ter sido muito pior. Eu até me sinto mal falando isso. Não é bom nenhum pai passar por isso.”
Davi Alves de Sousa Filho.
Traumas
Essa não é a primeira experiência traumática vivida pela adolescente no mesmo trajeto. Segundo o pai, há alguns meses, Hillary foi assediada por um homem dentro do ônibus.

“Ela chegou traumatizada em casa. Eu ainda liguei para a polícia, mas me disseram que eu devia procurar o Consórcio, juntar provas… Eu já nem sei mais. Acho que não vou conseguir mais deixar ela usar esse transporte, simplesmente isso.”
Davi Alves de Sousa Filho.
O que diz o Consórcio
Em nota encaminhada à reportagem, o Consórcio Guaicurus lamentou o ocorrido e afirmou que está apurando o caso. Leia a nota na íntegra abaixo:
“O Consórcio lamenta o ocorrido. Estamos em contato com as autoridades e com a família, e nossa principal preocupação é o bem-estar da menina. Estamos trabalhando para apurar todos os detalhes do caso.”
Consórcio Guaicurus.
A reportagem do Primeira Página também procurou a Prefeitura de Campo Grande. O questionamento feito foi se caberia ao município cobrar alguma medida mais efetiva do Consórcio Guaicurus, que é contratado pelo poder público para gerir o transporte coletivo na capital. Até o momento, não houve retorno. O espaço segue aberto.
