Após anos de pressão do garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé, no oeste de Mato Grosso, a fase atual da desintrusão conduzida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), com apoio da Polícia Federal e de forças estaduais, já começa a produzir efeitos concretos. Os alertas de atividade caíram de cerca de 400 para 7 no recorte mais recente informado pela fiscalização, mais de 500 acampamentos foram desmantelados e cerca de 160 escavadeiras foram inutilizadas, segundo a coordenação em campo.
No entorno, equipes fecharam ao menos seis depósitos clandestinos de combustível e apreenderam quase 65 mil litros de diesel e cargas de mercúrio usadas no beneficiamento rudimentar do ouro.
A complexidade do cenário aparece no dia a dia da operação. Em uma das frentes, agentes do Ibama localizaram um alçapão sob o piso de um barraco e, abaixo dele, munição, víveres e equipamentos de comunicação, um bunker subterrâneo montado para atravessar períodos prolongados de incursão oficial.
Recentemente, as equipes relataram terem sido recebidas a tiros de fuzil ao se aproximarem de uma área tomada por acampamentos. Na fuga, suspeitos abandonaram um fuzil, carregadores, celulares e um kit de internet via satélite. As buscas seguiram em trilhas de mata, margens de rio e pontos de extração ativos e desativados.
O garimpo ilegal nesse território ganhou uma proporção tamanha que outros países, como os Emirados Árabes Unidos, já apoiaram operações de combate a esse tipo de crime ambiental na área, segundo o delegado da Polícia Federal, Rodrigo Vitorino.

“Tão importante quanto as ações de enfrentamento direto ao garimpo ilegal são as investigações em curso devido à logística dessa atividade criminosa.”
Ele explica que, além da extração ilegal de minério, os criminosos podem responder por crimes como usurpação de matéria prima da União, invasão de terras públicas, associação criminosa, posse ilegal de arma, e crimes envolvendo a lavagem de dinheiro.
“Tão importante quanto as ações de enfrentamento direto ao garimpo ilegal são as investigações em curso devido à logística dessa atividade criminosa, que vai desde a guarda e manutenção de maquinários, à comercialização ilegal de combustível e a própria comercialização ilegal de ouro”, destacou.

Rastreio financeiro e operadores logísticos
A Polícia Federal atua em eixos complementares para sustentar a queda dos indicadores. A corporação conduz inquéritos para identificar financiadores e operadores logísticos, rastreia a cadeia do maquinário apreendido, apura falsos serviços de terraplenagem usados para dar aparência de legalidade às escavadeiras, cruza notas fiscais, contratos e dados de transporte de combustível, além de apoiar ações de captura quando há confronto ou reocupação. O objetivo é atingir o comando financeiro das frentes de extração, cortar o fluxo de recursos e sustentar denúncias com lastro documental e pericial.
A logística dos garimpos foi profissionalizada. Em vários pontos da terra indígena, equipes apreenderam terminais de internet via satélite, rádios e cadernos com registros de turnos de escavadeiras e quantidade de ouro por hora trabalhada. “É muito comum eles embalarem as máquinas com lonas e cortarem folhas de palmeira para esconder as escavadeiras do reconhecimento aéreo”, explica o coordenador de campo do Ibama, Hugo Loss. “Por via aérea quase não se detecta. A localização acaba sendo por terra, depois de longas varreduras”, completa.
O método de extração amplia o dano ambiental. “A escavadeira abre a cava, um motor puxa a água do rio para bicos de jato que fazem o desmonte hidráulico do barranco. A lama vai para caixas com tapetes impregnados de mercúrio. O que não fica é devolvido ao rio”, detalha Loss. Segundo ele, o aumento da turbidez impede a luz de chegar ao fundo, mata plantas aquáticas e afeta a cadeia alimentar dos peixes, além de levar resíduos oleosos para o curso d’água. Em diversos trechos, a mata ciliar foi suprimida e as crateras viraram poços de água barrenta.
As contas da operação dão a dimensão do esforço. Até meados de setembro, as equipes haviam desmantelado mais de 500 acampamentos e inutilizado ao menos 140 escavadeiras, além de 400 motores e quase 65 mil litros de diesel. No entorno, transformado em base de apoio para o crime, agentes fecharam seis postos clandestinos de combustível e apreenderam maquinário em manutenção.
Parte das cargas incluía mercúrio, insumo vital do beneficiamento rudimentar do ouro. “Estamos chegando a 160 escavadeiras destruídas”, diz Loss. “A quantidade de máquinas ainda escondidas indica que a presença precisa ser contínua para impedir o retorno”.
Escalada da violência e presença de facções
A presença de armas de maior calibre nos acampamentos confirma a escalada criminosa. Em um dos pontos vistoriados, o agente federal ambiental do Ibama, Matheus Fumes, mostrou munições de fuzil 5,56 e porta-carregadores. “É munição de uso em carabina, fuzil, que nós não utilizamos nesse tipo de fiscalização. Tudo indica que estavam bem armados”.
Para Loss, o padrão do armamento aponta para facções. “São tipicamente munições de grupos organizados, grupos criminosos organizados”. Veja abaixo HQ que ilustra estragos e engenharia do garimpo ilegal:

O entorno como base de apoio
A Polícia Civil registra um efeito cascata na segurança pública regional. “De 2024 para cá, tivemos cerca de 60 homicídios ligados diretamente à disputa por espaço no garimpo”, relata o delegado regional João Paulo Berté. “Muitos corpos são retirados do local do crime, o que dificulta a perícia e a identificação”.
Segundo Berté, as facções primeiro exploraram a venda de drogas ao contingente de trabalhadores e, em seguida, passaram a disputar áreas de extração. “Há uma estrutura de guerra, com alto consumo de combustível, rotas por dentro de fazendas, depósitos, olheiros. Fechamos cerca de seis postos clandestinos no entorno, e as multas administrativas somam quase R$ 4 milhões”, afirma. De acordo com ele, a corporação apreendeu entre 30 e 35 escavadeiras ligadas ao garimpo ilegal no entorno da terra indígena e cerca de seis quilos de ouro, além de armas e munições.
A ofensiva atinge também o ecossistema econômico que alimenta a devastação. Oficinas clandestinas, barracões de manutenção e cantinas recebem pagamento em ouro. Para dar verniz legal ao maquinário, surgem empresas de terraplenagem de fachada, abertas sem estrutura real para emitir notas e tentar evitar a destruição de escavadeiras flagradas no garimpo. “Como todo crime organizado, tenta-se dar um ar de legalidade. Identificamos notas emitidas no mesmo dia da fiscalização”, diz Loss. “Uma vez comprovado o uso no garimpo, a máquina é apreendida e pode ser inutilizada”.
Sararé reúne 67 mil hectares entre Pontes e Lacerda, Conquista d’Oeste e Vila Bela da Santíssima Trindade. O garimpo ilegal ronda a região há décadas, com escalada acentuada nos últimos cinco anos.
Em 2025, antes da presença permanente das equipes, o território liderava o país em alertas de atividade. No balanço parcial mais recente, a queda é expressiva. “A expectativa é que, na medida em que cessarmos a extração, a área possa ser recuperada. Há casos em que o repouso ambiental regenera a vegetação, em outros será preciso reflorestar e reabrir canais de água”, afirma Jair Schmitt, diretor de Proteção Ambiental do Ibama.
Impactos nas aldeias Nambikwara Katitaurlu
Dentro das aldeias Nambikwara Katitaurlu, os impactos são diários. “A água ficou turva, o peixe sumiu e andar na mata já não é seguro”, relata uma liderança Nambikwara Katitaurlu, que pediu para não ser identificada por segurança. Um morador do mesmo povo descreve a pressão de grupos armados: “O garimpeiro ameaça todo dia. Se você não deixar ele trabalhar aqui, ele fala que mata”.
O território invadido por garimpeiros tem cerca de 200 indígenas.
A decisão judicial de 2023 sustenta a desintrusão e fixa a meta de retirada total de invasores não indígenas da Terra Indígena Sararé.
A operação é coordenada pelo Ibama e integra Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Fundação Nacional dos Povos Indígenas, Ministério dos Povos Indígenas, Força Nacional, Grupo Especial de Fronteira, polícias Civil e Militar de Mato Grosso e de Goiás. A estratégia combina patrulhamento aéreo e terrestre, presença contínua no interior da terra indígena e ações no entorno para cortar o abastecimento de diesel, peças e comunicação.
Nas aldeias, a expectativa é de que o cerco contra o garimpo se traduza em segurança e recomposição dos modos de vida. “Antes eu comia peixe do rio todo dia. Como o garimpo estragou, ficou difícil”, diz um morador Nambikwara Katitaurlu, sob anonimato. Uma liderança feminina do mesmo povo resume o receio diante das tentativas de cooptação: “Prometem dinheiro, carro, mas quem aceita perde a floresta. Eu quero viver tranquila na minha terra”.
Para as forças envolvidas, o desafio é impedir a reocupação e avançar na responsabilização. “Após o confronto, seguimos para localizar, identificar e prender quem atirou contra servidores públicos”, afirma Loss. A Polícia Federal concentra esforços no mapeamento dos financiadores e das rotas de suprimentos. A Polícia Civil, por sua vez, mira o entorno: além de coibir depósitos e oficinas de apoio, apura a participação de proprietários rurais. “Há fazendeiros lesados por invasões e outros sob investigação por possível conivência”, diz Berté.
O resultado prático, por ora, está no chão e nas telas. O cerco reduziu drasticamente os alertas, desmontou acampamentos, tirou escavadeiras de operação e estrangulou a logística de combustível e insumos. A manutenção desse quadro depende de presença contínua, investigação financeira e controle de rotas no entorno, do diesel às peças de reposição. “Zerar os alertas e manter a terra livre do garimpo é a condição para que a floresta e as comunidades possam se recuperar”, conclui Schmitt.
Em Mato Grosso, o impacto das novas regras de controle sobre o mercado de ouro foi imediato. Entre 2022 e 2023, a produção oriunda de garimpos caiu de 11,8 toneladas para 8,4 toneladas, uma retração de 28%. A redução acompanha a tendência nacional e indica que, com a exigência de notas fiscais eletrônicas e o fim da presunção de boa-fé nas transações, boa parte do ouro antes “esquentado” não conseguiu mais entrar no sistema formal.
Ouro em Mato Grosso — 2022 a 2024
O que mudou com o maior controle sobre produção e exportação
De 11,8 t (2022) para 8,4 t (2023)
De 14,2 t (2022) para 8,5 t (2023)
De 2,8 t (2022) para 5,4 t (jan–jul/2024)
Produção garimpeira em queda acentuada
As exportações do estado também recuaram de forma expressiva. Em 2022, Mato Grosso embarcou 14,2 toneladas de ouro, mas no ano seguinte o volume caiu para 8,5 toneladas, uma diferença de 5,7 toneladas. O Instituto Escolhas aponta que esse encolhimento reflete a perda de espaço do ouro de origem ilegal no mercado internacional, especialmente em destinos como Índia, Emirados Árabes e Bélgica.
Ao mesmo tempo, o estudo mostra uma mudança no perfil da produção local. Enquanto o garimpo encolheu, as lavras empresariais cresceram: de 2,8 toneladas em 2022, saltaram para 3,7 toneladas em 2023 e chegaram a 5,4 toneladas entre janeiro e julho de 2024, aumento de 90% em relação a 2022. Para o Instituto Escolhas, esse movimento revela um processo de transição em Mato Grosso, em que a mineração formalizada tende a ganhar espaço diante da pressão contra a ilegalidade.
DNA do Ouro
A ciência da Polícia Federal para rastrear origem, rotas e financiadores
O que é
“Impressão digital” química e isotópica que identifica a jazida de origem.
Como funciona
Amostras apreendidas são comparadas em laboratório com base de referência.
Ouroteca
Banco de amostras criado pela PF com perfis químicos da Amazônia.
Impacto
Fornece prova técnica em juízo, desarticula logística e atinge financiadores.
A Polícia Federal desenvolveu uma tecnologia inovadora apelidada de “DNA do ouro”, capaz de rastrear a origem do metal com precisão científica. A metodologia se baseia em análises químicas e isotópicas que funcionam como uma “impressão digital”, ligando cada amostra a uma jazida específica. Esse sistema permite identificar se o ouro é proveniente de garimpos ilegais e mapear a cadeia de comercialização, fornecendo provas técnicas robustas para processos criminais.
Para consolidar o método, a PF criou uma “ouroteca”, banco de dados que reúne amostras de diferentes regiões mineradoras da Amazônia, usadas como referência nas investigações. A estratégia já foi expandida para além do Brasil, em cooperação com países vizinhos, permitindo rastrear lotes que cruzam fronteiras. O uso do “DNA do ouro” é hoje uma das ferramentas mais importantes no combate ao garimpo ilegal, pois atinge não apenas os garimpeiros, mas também os financiadores e compradores envolvidos na cadeia criminosa.




