Dia Internacional da Mulher Rural: elas avançam no campo, mas caminho ainda é longo

As mulheres representam 40% da força de trabalho na agricultura global. Em algumas regiões, como a Ásia, a proporção pode chegar a 50%. Ampliar consciência sobre a importância da presença feminina no campo é a principal finalidade do Dia Internacional da Mulher Rural. A data, criada pela Organização das Nações Unidas em 1995, é celebrada todo o dia 15 de outubro.

Avanços foram observados desde a criação da data, há 30 anos: acesso a programas de crédito e assistência técnica, maior visibilidade para as trabalhadoras, fortalecimento de políticas públicas para reduzir desigualdades de gênero e presença feminina em cargos de liderança em grandes empresas. Ainda assim, o caminho a percorrer é longo.

De acordo com a ONU, se as mulheres tivessem à disposição os mesmos recursos que os homens, a produtividade agrícola no mundo poderia aumentar até 30%. Seria suficiente para alimentar de 100 a 150 milhões a mais de pessoas que os níveis atuais. Outra diferença diz respeito às terras: apenas 15% pertencem às agricultoras.

Para mudar o cenário, a união e o fortalecimento da rede feminina são vistos como essenciais.

“Temos que mostrar para outras mulheres a importância do nosso gênero no campo por meio do compartilhamento e divulgação de informações e mais incentivo nos trabalhos desempenhados. Existem virtudes específicas do gênero feminino, desde entender o ciclo de cultivo, a gestão financeira e a resiliência que carregamos em nossa essência”, afirma Inaia Schorck Gonçalves, produtora de banana em São João do Itaperiú (SC), à Globo Rural.

A agricultora de 40 anos sempre esteve envolvida no cultivo da fruta por influência dos pais, e deu seguimento ao trabalho com o marido, Dirlei, e os filhos, Luís Gustavo e Theodoro, após o falecimento do patriarca da família e a aquisição de novas terras. Atualmente, ela colhe 700 toneladas das variedades caturra e prata por ano no bananal de 45 hectares na propriedade em Santa Catarina e envia a produção a um cliente fixo de São Paulo.

“Por muito tempo, a agricultura carregou o símbolo de ser um trabalho sujo, onde a mulher tinha que ser agricultora para poder conciliar os trabalhos domésticos com os cuidados da família. Nos dias atuais, a profissão é praticada por mulheres corajosas e empoderadas que estão dispostas a quebrar os rótulos de que não temos força braçal ou capacidade de operar máquinas agrícolas. Na minha educação infantil, a “creche” foi a sombra das folhas das bananeiras”.

Além do lucro, que aumenta a cada colheita, Inaia comemora a valorização da agricultura e os olhares mais carinhosos e com empatia para o campo. Segundo ela, isso só acontece pela participação feminina.

“Saber que o agro está ganhando mais espaço é algo que me deixa muito feliz. As novas tecnologias facilitam o desempenho no nosso trabalho. Antes, na época do meu pai, transportávamos a fruta com um carro de boi, mas agora temos trator, um local apropriado para fazer o carregamento, opções de insumos, etc. São ferramentas que somam na qualidade da profissão e ajudam as mulheres”, finaliza.

Mulher multitarefa

Em Japorã (MS), cidade próxima à fronteira com o Paraguai, Elida Zamperlini divide o tempo entre a lavoura e a sala de aula. É professora de matemática em uma escola estadual e cultiva frutas e hortaliças, como abacaxi, quiabo, cana-de-açúcar, melancia, pepino, abobrinha, mandioca, melão, jiló, milho e maxixe. Orgulhosa das duas profissões, representa milhares de mulheres que conciliam as atividades rurais com outras funções.

A relação com o campo vem de berço e se fortaleceu ainda mais após o casamento com Davi, durante a pandemia de Covid-19. E o que era apenas uma pequena horta no início do relacionamento, transformou-se na “Mandiocas Mineira”, agroindústria que colhe mais de 500 quilos por semana para abastecer as mesas da região.

“Somos só nós dois, e encontrar mão-de-obra não é fácil. Eu faço de tudo na roça e não vejo dificuldade por ser mulher. Somos capazes de tudo o que nos propomos a fazer. No começo, o Davi tentava me poupar de serviços mais braçais, mas não deu certo. Se me perguntassem qual o serviço que eu sou mais apaixonada, com certeza, vou dizer que é na lavoura. Tudo o que temos e conquistamos foi por causa da agricultura. As mulheres podem conseguir tudo o que querem”.

Elida celebra a possibilidade de participar de todos os processos da empresa – do plantio à comercialização. Por outro lado, lamenta que muitas mulheres ainda não tenham a mesma oportunidade neste Dia Internacional da Mulher Rural.

“Acredito que se a sociedade passasse a nos ver como pessoas mais fortes e capazes de tudo e abrisse as portas de igual para igual, em pouco tempo estaríamos presentes em todas as atividades e com números iguais aos dos homens. Porém, por motivos que não sabemos, algumas atividades parecem ser de exclusividade deles, infelizmente”, diz.

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