Brasil começa hoje negociação com os EUA sobre tarifaço

As negociações com os Estados Unidos sobre o tarifaço começam nesta quinta-feira (16) em Washington, com uma reunião entre o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio. O encontro entre os chefes da diplomacia dos dois países foi anunciado nesta quarta-feira (15/10) pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT).

“Amanhã, nós vamos ter a conversa de negociação”, disse Lula, sem dar detalhes sobre a reunião.

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Em evento no Rio de Janeiro, o presidente disse estar otimista com o início das negociações e falou da boa relação que teve com o americano Donald Trump. Os dois chefes de Estado se falaram por telefone no dia 6 de outubro, e a conversa destravou os impasses que o Brasil estava tendo até então nas discussões em nível ministerial a respeito das sobretaxas às exportações brasileiras.

Em agosto, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, iria se reunir virtualmente com o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent. Porém, a conversa telefônica foi desmarcada em meio às articulações do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a favor de sanções americanas contra autoridades brasileiras.

“Quando fui falar com Trump, a gente estava de mal, mas eu não conhecia ele. E tinha gerado uma química na ONU. [Em] 29 segundos, sabe?”, disse Lula, fazendo uma menção ao rápido encontro que teve com Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro.

Lula continuou: “Ele me ligou e eu falei: ‘Presidente, queria estabelecer uma conversa sem liturgia’. E aí comecei a falar o que eu achava que deveria ter falado então. E aí não pintou uma química, pintou uma indústria petroquímica”.

“Estou dizendo isso porque a nossa relação humana é química. Na nossa relação, 20% são razão, 80% são química. Se tem química, a gente está bem”, completou.

Vieira já estava em Washington quando Lula confirmou o encontro do chanceler com Rubio nesta quinta. Já havia uma expectativa de que o encontro acontecesse até o final desta semana. Segundo fontes do Itamaraty, quem organiza os detalhes da reunião é o anfitrião da conversa. Isto é, os Estados Unidos.

O chanceler foi um dos nomes escalados por Lula liderar as conversas com o governo Trump. Além de Vieira, também foram destacados o vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, e Fernando Haddad.

Na terça, Vieira aproveitou a estadia em Washington para encontrar o secretário-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Albert Ramdin. Segundo o Itamaraty, os dois discutiram o contexto regional do continente, em especial a situação no Haiti, e a agenda da organização na gestão de Ramdin, iniciada em maio.

O governo brasileiro avalia que o rumo da negociação com os Estados Unidos dependerá do que o país levará de proposta e de como será estabelecida a dinâmica das conversas entre as autoridades. Mesmo com um cenário considerado incerto, fontes da gestão petista afirmam que o principal intuito da reunião é abrir as negociações.

Não pintou uma química, pintou uma indústria petroquímica”
— Lula

Como mostrou o Valor, ainda que o tarifaço seja prioridade nessa mesa de negociação com os Estados Unidos, assessores da cúpula do governo petista dizem que o lado brasileiro tratará as sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com o mesmo peso que será dado à sobretaxa de 50%. Ou seja, os dois tópicos serão apresentados à gestão Trump com o mesmo grau de importância.

O motivo é que, na avaliação do Planalto, não há como o Brasil manter o discurso político da soberania nacional se o Executivo federal aceitar apenas a retirada da taxa de 50% contra produtos nacionais. Para interlocutores do governo, o recuo de Washington na aplicação da Lei Magnitsky é igualmente importante para “zerar” a disputa entre os dois governos.

A Magnitsky foi utilizada pela Casa Branca contra diversas autoridades brasileiras. Foram alvos dessa legislação, por exemplo, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e a esposa dele, Viviane Barci. Na prática, sancionados pela Lei Magnitsky não podem viajar aos Estados Unidos nem fazer transações econômicas com empresas americanas. A norma é aplicada contra indivíduos estrangeiros com histórico de corrupção ou abusos de direitos humanos.

Como parte dessa estratégia, alguns integrantes do governo defendem que o tema do café – questão que estaria preocupando Donald Trump – não seja entregue “de bandeja” nas negociações entre os dois países. A gestão petista já sabe que o preço da bebida é algo que pode suscitar um acordo, mas, mesmo assim, quer esperar que o lado americano manifeste esse desejo nas tratativas.

O uso do café como moeda de troca se deve ao fato de que o próprio Trump deixou escapar, no telefonema com Lula, que o preço do produto estaria provocando mau-humor no consumidor americano. A partir dessa carta na manga, o governo brasileiro poderia colocar outros pedidos na mesa.

Também ontem, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou ter sido convidado para uma reunião com o secretário de Energia americano, Chris Wright, para discutir minerais críticos. Silveira disse estar otimista em atrair investimento dos Estados Unidos para o setor, em meio à normalização das relações entre os dois países.

“Depois desse restabelecimento de diálogo com Trump, estou convidado pela primeira vez para discutir com o secretário dos Estados Unidos. Fui convidado para uma reunião sobre minerais críticos. Tenho certeza de que essa relação se dará de forma altiva e respeitando os interesses do povo brasileiro”, disse o ministro durante audiência na Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

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