Um grupo de centros de pesquisa brasileiros uniu-se para fomentar debates e políticas públicas nacionais e internacionais que promovam a “agricultura tropical regenerativa” como uma solução para a crise climática. A Rede de Inteligência em Agricultura e Clima (RIAC) pretende realizar contribuições já para a COP 30, de Belém, e para as próximas COPs e eventos sobre mudanças climáticas.
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O RIAC foi criado por Agroicone, Fundação Dom Cabral (FDC) Agroambiental, FGV Agro, Insper Agro Global, Instituto Equilíbrio e Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), e conta com apoio apoiada do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.
Segundo Ludmila Rattis, uma das porta-vozes da RIAC e pesquisadora da FDC, do Ipam e do Woodwell Climate Research Center, a rede surgiu a partir de diálogos com o enviado especial do agronegócio para a COP, Roberto Rodrigues, que terá a missão de consolidar os posicionamentos do setor para a Conferência das Partes.
Cada uma das organizações que participam da rede concluirá, nas próximas semanas, estudos sobre diferentes temas para apresentar ao enviado especial. O primeiro estudo, do Insper Agro Global, já foi concluído, e traça um panorama sobre as diferentes evoluções da agricultura em cada uma das regiões dos trópicos. Também deverão ser apresentados estudos sobre Segurança Alimentar e Energética, Adaptação, Financiamento e Produção de Biocombustíveis Verdes.
Um dos temas mais caros ao grupo deverá ser o da “tropicalização” das metodologias de emissão de gases de efeito estufa. Segundo os pesquisadores envolvidos, a metodologia para calcular as emissões da agropecuária dos trópicos precisa ser diferente da metodologia usada atualmente para calcular as emissões da agropecuária de clima temperado. Para Rattis, o Brasil tem “total capacidade” de pautar esse debate, seja pelo peso de sua agropecuária no mercado global, seja pelo seu desenvolvimento científico na área nos últimos anos.
O tema é particularmente relevante para esta COP porque os países estão atualizando suas metas de redução de emissões (NDCs), cada uma com seus diferentes níveis de detalhamento. Segundo Rodrigo Lima, sócio da Agroicone, atualmente já 141 NDCs que tratam de agricultura. Espera-se que iniciativas já existentes de práticas agropecuárias de baixa emissão orientem os países em suas metas de redução de emissões para a agropecuária. O Grupo de Trabalho de Sharm el-Sheik sobre Agricultura (SSJWA, na sigla em inglês), criado na COP 27, por exemplo, começou a receber as contribuições dos países e organizações para dar publicidade às iniciativas de redução de emissões no campo.
A defesa do papel da agropecuária tropical regenerativa como atividade de mitigação das emissões tem um papel diplomático e também político. Espera-se para esta COP 30 um avanço nas discussões sobre como aumentar os recursos para financiamento climático e como direcioná-los melhor. “A partir do momento em que se considera que a agropecuária é uma solução e precisa evoluir, é preciso de mais dinheiro para apoiar projetos que entreguem resultados dentro do pais e lá fora”, afirmou Lima.
Para ele, uma vez que se demonstre que a agricultura tropical regenerativa “entrega resultados de mitigação e adaptação”, pode-se evoluir em políticas de financiamento, inclusive internacional, como do Fundo Verde para o Clima e do Fundo de Adaptação.
Revés nos EUA
A agricultura regenerativa, porém, enfrentou um forte revés neste mês, depois que o governo de Donald Trump cancelou um programa de apoio de US$ 3 bilhões a produtores rurais americanos em projetos de práticas regenerativas. Segundo agências internacionais, a retomada do programa estaria condicionada ao fim do shutdown do governo dos Estados Unidos.
“Houve uma reação dos produtores contrários [a essa decisão]”, afirmou Rattis. A pesquisadora acredita que o cancelamento da política será revisto por causa da “falta de popularidade” da medida. “Mas temos que ficar de olho na produção de novos conhecimentos que estão sendo barrados também”, alertou. Segundo ela, faltam recursos para se medir o impacto das mudanças climáticas nos diferentes setores.
Cenário nos trópicos
O estudo apresentado pelo Insper Agro Global defende em sua conclusão a incorporação do conceito de “agricultura tropical” para “diminuir percepções negativas, que eventualmente prejudiquem investimentos e estabelecimento de relações de comércio”.
Mesmo assim, Marcos Jank, que coordenou o estudo, ressaltou que há muitas disparidades dentro da agricultura tropical. No Brasil, por exemplo, enquanto a produtividade total dos fatores da agricultura cresceu 1,8% ao ano desde a década de 1970, na América Latina tropical a média de crescimento foi de 1,2%, enquanto na Ásia tropica foi de 1,3% e na África subsaariana tropical, de 0,4%.
Segundo o pesquisador, entre os fatores que impõem essa diferença é a capacidade dos agricultores, a tecnologia disponível e a coordenação das cadeias produtivas. Mesmo dentro de cada região há diferenças, observou. Enquanto no Centro-Oeste a produtividade total avança hoje 4,8% ao ano, no Nordeste essa taxa é próxima a zero.

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