A indústria brasileira enfrenta há décadas um conjunto persistente de obstáculos que corroem sua competitividade: custos de energia elevados, gargalos logísticos, carência de infraestrutura moderna e um ambiente regulatório que inibe investimentos de longo prazo. Estudo recente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) mostra de forma contundente como esses fatores restringem oportunidades de crescimento e participação em cadeias globais de valor.
Curiosamente, muitos desses entraves também se impuseram à agricultura. Ao longo de quatro décadas, o setor agrícola, mesmo diante de desafios ainda não superados, avançou em produtividade, logística e inserção internacional. Esse percurso o transformou em protagonista global em alimentos, fibras e bioenergia – e oferece lições valiosas, que podem inspirar a revitalização da indústria nacional.
Um primeiro exemplo está na energia. O agronegócio tem investido de forma sistemática em fontes energéticas competitivas e sustentáveis – do etanol ao biogás, do biodiesel à bioeletricidade. A expansão do biometano, em particular, pode beneficiar diretamente polos industriais, reduzindo custos energéticos e acelerando a transição para uma matriz mais limpa e estável. Aqui, há uma agenda evidente de convergência entre campo e indústria.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_afe5c125c3bb42f0b5ae633b58923923/internal_photos/bs/2025/2/p/r20d3lTp69N16EkABKAg/mauricio-antonio-lopes.png)
Na logística, a agricultura brasileira desenvolveu expertise única para enfrentar grandes distâncias e gargalos históricos de transporte. Investimentos privados em portos, hidrovias e ferrovias, muitas vezes em parceria com o setor público, mostram que soluções criativas podem surgir de consórcios e concessões bem estruturados. Essa experiência, ainda em consolidação, pode ser ampliada para beneficiar a indústria como um todo.
Outro aprendizado está na diversificação produtiva. O agronegócio apostou em múltiplas culturas – soja, milho, cana, café, algodão e, mais recentemente, oleaginosas emergentes, como canola e macaúba – para aumentar a resiliência, gerar valor agregado e reduzir vulnerabilidades. A indústria poderia adotar estratégia semelhante, diversificando fontes de insumos, energia e mercados de destino, fortalecendo sua capacidade de adaptação em tempos de mudanças aceleradas.
Por fim, a agricultura brasileira acumulou experiência valiosa em lidar com exigências de sustentabilidade, rastreabilidade e conformidade internacional. Exportadores agrícolas aprenderam a operar sob regras rigorosas de mercados como União Europeia, Estados Unidos e Ásia, internalizando padrões de qualidade, ambientais e sociais. Essa trajetória, ainda cheia de desafios, pode inspirar a indústria a acelerar sua integração a práticas de ESG e a cadeias globais de valor baseadas em sustentabilidade.
Em suma, a agricultura brasileira não deve ser vista apenas como fornecedora de matérias-primas, mas como parceira estratégica na reinvenção da indústria nacional. Considerando os avanços que o país já conquistou e os desafios ainda em curso, um aumento da sinergia entre campo e fábrica pode abrir caminho para uma trajetória mais virtuosa de desenvolvimento sustentável, competitivo e inovador.
*Maurício Antônio Lopes é engenheiro agrônomo e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural

Deixe um comentário