A Passos da Liberdade menciona “conexões globais”, além de parcerias com órgãos internacionais. “A associação está diretamente envolvida em iniciativas culturais e documentais que destacam histórias de resiliência e transformação social. Exemplos incluem séries documentais, filmes institucionais e campanhas de impacto social”, diz o site, sem citar quais.
Sediada em Porto Alegre (RS), a Passos da Liberdade é presidida por Rodrigo Cassol Lima. Ele foi o número 2 da Secretaria Nacional de Desenvolvimento Cultural no governo Bolsonaro. O órgão era subordinado à Secretaria Especial de Cultura, comandada por Mário Frias na época.
Orçamento do filme inclui passagens e hospedagens em outros países. Entre eles, Armênia, Hungria, Itália, Rússia, Alemanha, Polônia e Brasil. Segundo a sinopse enviada ao ministério, o documentário vai “explorar e correlacionar os horrores dos genocídios históricos na Europa com fatos contemporâneos na América Latina”.
O UOL entrou em contato com Rodrigo por telefone. Ele confirmou que as emendas serão destinadas para a produção do filme. Disse que a Passos da Liberdade é uma entidade beneficente, mas depois afirmou que só iria se manifestar por escrito. A reportagem enviou as perguntas para o email da associação, mas não teve resposta. Em caso de manifestação, este texto será atualizado.
Procurado, Mário Frias disse que não se manifestará sobre o assunto. O UOL entrou em contato com a assessoria de Eduardo Bolsonaro, mas não teve resposta. Já a assessoria de Marcos Pollon disse que não conseguiu localizar o deputado. O espaço segue aberto para manifestação.
Críticas à Cultura
Críticos da Lei Rouanet, parlamentares deram dinheiro público para filme feito por aliados. Os deputados acusam as políticas de incentivo à cultura de não ter transparência e beneficiar projetos de esquerda. Eles também já atacaram a Lei Paulo Gustavo, criada para auxiliar o setor cultural na pandemia.
No governo Bolsonaro, o Ministério da Cultura chegou a ser extinto. Foi substituído por uma secretaria vinculada ao Ministério do Turismo. Na época, Frias defendeu o repasse de recursos da Lei Rouanet para movimentos armamentistas. Ele também já disse que a lei se tornou uma “moeda de troca” por apoio político.
Nos últimos dias, Eduardo e Frias atacaram o filme “Ainda Estou Aqui”, que venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional. O filho de Bolsonaro disse que o longa aborda uma “ditadura inexistente” e chamou o diretor Walter Salles de psicopata. Já o ex-secretário de Cultura afirmou que o filme é “propaganda comunista”.
O Brasil viveu sob ditadura militar entre 1964 e 1985. O período foi marcado pelas restrições das liberdades democráticas. Deputados contrários ao regime tiveram seus mandatos cassados, por exemplo, e as eleições diretas para governadores, presidente da República e para senadores deixaram de existir. O governo também contava com agentes de censura que controlavam o que saía nos jornais: não poderia haver nada contra o governo.
Quem são os produtores do documentário
Além de Rodrigo Cassol, outro membro do governo Bolsonaro está envolvido na produção. O diretor e produtor do documentário, Gustavo Chaves Lopes, foi secretário nacional de Audiovisual. Também chefiou a comunicação da Casa Civil e do Ministério do Trabalho e Previdência quando Onyx Lorenzoni era ministro.
Roteirista é Doriel Francisco da Silva, diretor da Dori Filmes. Nos documentos oficiais, a Passos da Liberdade cita outras produções roteirizadas por ele, mas não menciona um documentário sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (“A Colisão dos Destinos”). O filme foi divulgado por Mário Frias, tratado como idealizador da produção, e por Eduardo Bolsonaro.

Dori Filmes já recebeu R$ 19 mil de cota parlamentar de Mario Frias, segundo o site Poder360. O deputado justificou as cinco transferências como divulgação de atividade parlamentar, envolvendo a impressão gráfica de panfletos, por exemplo. O UOL entrou em contato com Doriel, mas não teve resposta. O espaço segue aberto.

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